terça-feira, 23 de maio de 2017

TODOS OS POEMAS DA SÉRIE "É JUSTO?"

ZILDO GALLO


Hoje, 23 de maio de 2017, estou encerrando a série de poemas denominada "É Justo?", reunindo todos eles em uma única publicação para facilitar o acesso aos leitores. Boa leitura!

É JUSTO? (1)

Garimpar imagens na internet e compará-las pode ser um bom exercício para compreender o mundo nos dias de hoje. Muitas vezes as imagens falam por si mesmas, como nas fotografias de Sebastião Salgado, por exemplo, mas elas podem (servem) para ilustrar crônicas e poemas como é o caso do meu poema "Parto Prematuro", que também poderia chamar-se "Predestinação". Em 1979, quando escrevi este pequeno poema, não havia a internet com a sua abundância de imagens disponíveis de todo o nosso planeta. As imagens podem ajudar na compreensão de textos, podem? Às imagens e ao poema!

POUQUÍSSIMOS MORAM ASSIM

MUITÍSSIMOS MORAM ASSIM


PARTO PREMATURO

Nascer no quarto-sala-cozinha
de terra batida
cheirando a molhado;
nascer na alcova
adornada
cheirando a rosas
compradas no florista.

Zildo Gallo - Americana, SP, 20 de novembro de 1979


É JUSTO? (2)

Garimpar imagens na internet e compará-las pode ser um bom exercício para compreender o mundo nos dias de hoje. Muitas vezes as imagens falam por si mesmas, como nas fotografias de Sebastião Salgado, mas elas podem (servem) para ilustrar crônicas e poemas como é o caso do meu poema "O Conhecimento Espelhado". As imagens podem ajudar na compreensão de textos, podem? Elas podem falar mais que os textos. Às imagens e ao poema!


SOMOS TODOS IGUAIS?


TEMOS OS MESMOS DIREITOS?

O CONHECIMENTO ESPELHADO

Porque somos todos iguais,
Não podemos aceitar a exclusão
Pela diferença
E não podemos ser
Indiferentes.
A indiferença afasta
E desiguala.

Porque, para sermos humanos
De verdade,
Devemos de verdade aprender
A viver em sociedade,
Onde nos tornamos
Verdadeiramente humanos
E, para sermos humanos verdadeiros,
Só o que é justo a todos
Deve ser
Verdadeiramente aceitável.

Não é justo
Que uns possam acessar saberes
Mais facilmente e melhor
Que outros,
Achando que o outro
É só o outro
E que eles são mais eles.

Eu sou eu (humano)
Porque o outro é outro
Tão humano como eu,
Como num espelho plano e polido
A me refletir.

O espelho perfeito me espelha
Apenas de forma invertida,
Mas as proporções do outro lado
São as mesmas,
Idênticas,
Reais.

Quando o espelho se deforma
O outro que vejo à frente
Deformado me parece.
Acessos diferenciados aos saberes
Deformam e embaçam
O espelhos colocados à frente
De cada um.


UM POUCO DE CONVERSA E MAIS DOIS POEMAS

Em 1975, lá se vão mais de 40 anos, eu escrevi dois poemas que têm a ver com o que está exposto acima. Naquela época eu ainda não tinha a compreensão da abrangência de ambos. Em "Jogo de Espelhos", consegui alcançar a compreensão de que somos reflexos de tudo que está à nossa volta, que somos imagens distorcidas em espelhos imperfeitos e que isto nos assusta. Em "Vida-Medo", compreendi que o medo distorce a nossa visão da realidade e o centro do medo é algo muito primitivo e está ligado à sobrevivência material, que em tempos longínquos era muito mais difícil que hoje, trata-se do medo ancestral da escassez.

O medo da escassez nos coloca no mundo de forma egoísta e nos afasta da nossa verdadeira essência que é altruísta e compassiva. O afastamento é tamanho que chegamos a achar natural a diferença brutal entre as duas salas de aula das imagens expostas aqui. Na verdade, chegamos a desejar que só os nossos filhos tenham acesso à melhor sala e que os filhos dos outros fiquem na pior, pois isto colocará os primeiros em vantagem em relação aos segundos, neste nosso mundo competitivo que construímos por conta do desnecessário medo da escassez. O medo é um grande mal ou, melhor, pode ser a raiz de muitos males, pois ele faz com que nos afastemos da nossa verdadeira humanidade. Aos dois poemas!

JOGO DE ESPELHOS

Somos imagens em espelhos,
espelhos sem polidura,
imagens distorcidas,
reais.

À frente do espelho
vivemos,
distorcidos e assustados,
perdidos nas nossas contemplações,
tão distorcidas
quanto a imagem
refletida

À frente do espelho
vivemos,
fundidos a ele,
formando um só ser:
o espelho.

Zildo Gallo - Americana, SP, 16 de janeiro de 1975

VIDA-MEDO

De todos um pouco
nunca de ninguém
medo... medo...
tudo a medo
algo que se move
convulso dentro de cada ser
medo-vida
medo de não ter
de perder
nada
tudo.

Zildo Gallo - Ameircana, SP, 20 de agosto de 1975


É JUSTO? (3)

Garimpar imagens na imensidão da internet e compará-las pode ser um bom exercício para compreender o mundo nos dias de hoje. Muitas vezes as imagens falam por si mesmas, como nas fotografias de Sebastião Salgado, mas elas podem (servem) para ilustrar crônicas e poemas como é o caso do meu poema "Infância Roubada (Escravizada)". As imagens podem ajudar na compreensão de textos, podem? Elas podem falar mais que os textos. Às imagens e ao poema!

CRIANÇAS NUMA RODA DE LEITURAS

CRIANÇA COLETANDO O CACAU DO NOSSO CHOCOLATE

CRIANÇAS BRINCANDO DE  EMPILHAR CUBOS
  
O PESO DO MERCADO NAS COSTAS E CABEÇAS DAS CRIANÇAS

CRIANÇAS BRINCANDO NO PARQUE

CRIANÇAS PREPARANDO O CARVÃO DO NOSSO CHURRASCO

INFÂNCIA ROUBADA (Escravizada)

Melhor trabalhar
que roubar
ou pedir
ou traficar
ou se prostituir
ou... ou... ou...
diz aquele moralista
travestido de juiz,
de guia espiritual da infância
chafurdada na pobreza.

Hoje lhes roubam a infância
e amanhã
lhes encarcerarão os espíritos
atrás de duras grades metafóricas
produzidas na força bruta
da ignorância
dos campos,
fábricas
e construções.

Meninos crescidos,
como zumbis,
adultos,
continuarão a produzir
o bem-estar dos que brincaram
e tiveram às mãos
o tempo necessário à produção
de um espírito livre.

À criança que brincou, uma pergunta:
é possível a elevação do espírito
a um estado livre e verdadeiro,
quando é sabido
que ele se construía
quando muitas almas infantis
escravizadas
vendiam-se
por míseras migalhas de pão?
É só uma pergunta...

É JUSTO? (4)

Garimpar imagens na imensidão da internet e compará-las pode ser um bom exercício para compreender o mundo nos dias de hoje. Muitas vezes as imagens falam por si mesmas, como nas fotografias de Sebastião Salgado, mas elas podem (servem) para ilustrar crônicas e poemas como é o caso do meu poema "O Pão Nosso de Cada Dia". As imagens podem ajudar na compreensão de textos, podem? Elas podem falar mais que os textos. Às imagens e ao poema!

MESA FARTA

MESA EM FALTA

O PÃO NOSSO DE CADA DIA

As sagradas refeições de cada dia
Devem ser partilhadas
Como foram partilhadas na Santa Ceia
Do penúltimo dia entre nós
Do Mestre que semeava palavras
E multiplicava alimentos.

As palavras semeadas
Nos dizem à alma sobre a nossa real
E necessária transcendência
Dessa dura via crucis
Das nossas (in)humanas condições.

O pão partido e repartido
Em igualitárias proporções
Nos diz que é possível transcender
Quando, em igualitárias condições,
Repartimos
O que de melhor produzimos,
Para o corpo
E para a alma.

A real e humana condição se consuma
Apenas quando somos postos
E expostos
Em desinteressada e verdadeira Comunhão,
Quando irmanados entendemos
Que o fruto da terra
E do trabalho que nos humaniza,
O nosso alimento (pão e vinho),
Carrega o suor do rosto, a energia
Dos corpos em movimento,
As alegrias e tristezas
E os sonhos também,
De cada ser humano que ceifou o trigo
E pisou cada cacho de uva.


É JUSTO? (5)

Garimpar imagens na imensidão da internet e observá-las pode ser um bom exercício para compreender o mundo nos dias de hoje. Muitas vezes as imagens falam por si mesmas, como nas fotografias de Sebastião Salgado, mas elas podem (servem) para ilustrar crônicas e poemas como é o caso do meu poema "Água: um Poema à Consciência", que fiz em homenagem ao povo de semiárido brasileiro. As imagens podem ajudar na compreensão de textos, podem? Elas podem falar mais que os textos. Às imagens e ao poema!

TENHO SEDE, MUITA SEDE.

É A ÁGUA QUE NOS RESTA.

ÁGUA: UM POEMA À CONSCIÊNCIA

Zildo Gallo

Desapercebido cidadão,
Anestesiado cidadão,
Próspero e pacato cidadão,
Com que direito lanças nas águas
Os teus restos intestinais,
Restos de finas iguarias,
Sem ao menos te incomodar
Com que a tua urbe não as purifique
Para que abaixo outros como tu,
Também desapercebidos, anestesiados
E pacatos cidadãos,
Possam apanhá-las
E usá-las como usas,
Incomoda-te cidadão!

Despreocupado cidadão,
Egocêntrico cidadão,
Cuja montanha de abundâncias te impede,
Como um denso véu,
De enxergar do outro lado
O menino que escava o árido solo
À procura do líquido escuro,
Fétido
E salobro,
Única via para saciar a secura
Da sua sede miserável,
Enxerga cidadão!

Sossegado cidadão,
Acomodado cidadão,
Que ao girar da torneira
Enxerga e ouve
O doce jorrar do líquido,
Pequena cascata transparente,
Inodora
E sem sabor,
Nem imaginas que muitos outros
Cidadãos como tu
Caminham léguas e léguas,
Em rotineira saga,
Na busca do diamante líquido,
A maior riqueza da Terra,
Nosso Planeta Água,
Condoa-te cidadão!

É JUSTO? (6)

Garimpar imagens na imensidão da internet e observá-las pode ser um bom exercício para compreender o mundo nos dias de hoje. Muitas vezes as imagens falam por si mesmas, como nas fotografias de Sebastião Salgado, mas elas podem (servem) para ilustrar crônicas e poemas como é o caso do meu poema "Condição humana ou time is money". Uma imagem pode ajudar na compreensão de textos, pode? Ela pode falar mais que os textos. À imagem e ao poema!

ALGUM DIA ISTO VAI ACABAR?

CONDIÇÃO HUMANA OU TIME IS MONEY

Donde vem esta insondável melancolia?
Será pelos homens que se digladiam
e se matam todos os dias?
Será pelas crianças que clamam
por um prato de comida
e por um leito quente,
protegido das intempéries?

Nada tão grande
e tão humanamente importante.
Trata-se apenas da minha pequenez
diante das titânicas engrenagens
da máquina do tempo
(Time is money)
que move o mundo,
que me esmaga e me coloca diminuto,
frágil sobrevivente,
ao menos por hoje,
enquanto sigo vivendo,
meramente vivente,
nesta nave que erra pelos céus
na franja da Via Láctea.

Será que sou
e apenas consigo ser
apenas mais um impotente espectador,
mera vítima-testemunha
da (in)humana insensatez,
que (sobre)vive para encurtar o tempo,
reduzindo-o a frações de frações de segundo,
para colocá-lo num perpetuum mobile,
continuamente a serviço da grande ilusão
da riqueza que sempre está por vir,
num permanente porvir?

Será que não tenho como abandonar
este insano trabalho de Sísifo?
Sísifo, um condenado como eu,
empurrando eternamente a pedra morro acima
e ela, teimosamente,
depois do insano esforço,
sempre teimando em rolar morro abaixo.

É JUSTO? (7)

Garimpar imagens na imensidão da internet e observá-las pode ser um bom exercício para compreender o mundo nos dias de hoje. Muitas vezes as imagens falam por si mesmas, como nas fotografias de Sebastião Salgado, mas elas podem (servem) para ilustrar crônicas e poemas como é o caso do meu poema Fashion. Uma imagem pode ajudar na compreensão de textos, pode? Ela pode falar mais que os textos. Às imagens e ao poema!

NA MINHA MENINICE INOCENTEMENTE COLHO O MAIS ALVO ALGODÃO.

NA NOSSA JUVENTUDE DESFILAMOS O ALGODÃO DA INFÂNCIA DOS MENINOS.


FASHION

De que riem os meninos que colhem algodão?
Só pode ser da sua própria inocência.
Não pode ser da infância roubada,
Vendida a preços módicos,
Nas negociatas do capital globalizado.

De que riem as garotas elegantes?
Não... não pode ser dos meninos inocentes
Que vendem a sua infância pobre
Para embelezá-las a preços ricos.
Estariam elas enfeitiçadas no mundo fashion?

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