domingo, 30 de abril de 2017

BATIZADO DOS BICHOS

Zildo Gallo


Lá vem o papa-léguas
Um galinho bom corredor
E o papa-figos
E o papa-capim
Gulosos passarinhos
Também vem o papagaio
Bicho bom de conversa
E o lindo e delicado
E incansável beija-flor
Vem a paca
O tatu que vira bola
E a cotia também vem
Vem até o sapo cururu
Lá da beira do rio
Aquele que canta muito no frio
Não tão bonito como o cântico
Do sabiá da minha terra com palmeiras
Vêm chegando...
Vêm chegando...
Todos os bichinhos
E o Papa sorridente a todos abençoa
Em nome de São Francisco
O bom Chiquinho
O santo da bicharada
Aqui na terra dos bichos humanos.


Zildo Gallo
Campinas, SP, 30 de abril de 2017.


sábado, 29 de abril de 2017

ÁGUAS DE OUTUBRO (via crucis)

Zildo Gallo


Voltaram as chuvas...
Caem as águas do céu cinzento
e escorrem... escorrem...
arrastando lixo e lama na negritude
do asfalto esburacado
e levam também consigo destroços
da minha carcaça exterior.

Em solitário recolhimento
isolado
silencioso
ouço os ruídos contínuos
das grossas gotas na vidraça
e o zunir do vento
que encobrem o barulho
do meu confuso pensar.

A chuva forte me põe só
na companhia de minh'alma
que das profundezas emerge
e sinto a sua dor pungente
o penar do seu confinamento
e o peso da sua missão
a sua via crucis
a difícil tarefa de me carregar pela vida.



Zildo Gallo - Piracicaba, SP, 08 de outubro de 2001


sexta-feira, 28 de abril de 2017

BIG BANG: (re)nascimento

Zildo Gallo



EXPLODIR...
silenciosa explosão
somatória de todos os barulhos
explosão obscura
portadora de toda luz
fiat lux!
explosão longínqua
e presente
sempre presente
contínua
continua... continua...
sem testemunhas
e testemunhos
saindo do nada
que é tudo
fazendo ecoar no vácuo
entre existências
um não sonoro grito
a dor do espírito
a dor do parto
do espírito universal
o Uno e o Verso
essência e existência
em (re)criação
em exposição à vida
vida que continua
EXPANDIR...
rumo ao (in)finito
e formar
em tempestuoso silêncio
em ciclos
de morte-vida
de vida-morte
ciclos transcendentais
o imenso
imensurável
e também diminuto
imensurável também
espaço da minha alma
transcendental
incidental
RETRAIR...
EXPLODIR...
EXPANDIR...
RETRAIR...



segunda-feira, 24 de abril de 2017

VENTO (passa o tempo)

Zildo Gallo


A menina corre ao vento
cabelos soltos
aéreos
gira-rodopia
salta-canta-grita
e subitamente para
e, sozinha, vê-se:
ridículo!
o vento passou...

O tempo...
implacável...
levou a brisa para longe...
muito longe...
da menina que rodopiava
de alegrias
muitas alegrias
sem qualquer motivo.

Zildo Gallo - Americana, 26 de outubro de 1975


Haicais de 4 (quatro) - Yoga

Zildo Gallo




      1

Mente calada
Om Namah Shivaya
Trono divinal.

      2

Infinitudes
Nada entre dois pontos
Uni(ci)dade?

      3

Só silêncios
Ânfora esperando
Águas vívidas.

      4   

Transcendência
Reconexão ao Todo
Pausa na trilha...


quinta-feira, 20 de abril de 2017

SONHOS (melancolia juvenil)

Zildo Gallo



Sonhos de suicida melancolia,
A vida na nuvem mágica.
Longe dos tempos, miserável,
Vivia uma mágica suicida.

Sonhos de vida mágica,
Suicida dos tempos.
Longe, nuvem de melancolia...
Miserável, vivia a mágica,
Melancolia dos tempos vindouros.

Sonhos de mágica, vida...
Nuvem dos tempos,
Melancolia suicida.
Longe vivia nos tempos,
Fora do tempo,
Miserável melancolia.

Sonho sobre sonhos,
Mágica nuvem,
Sonhos atemporais,
Sonhos de um suicida,
Atemporal,
Mágica de melancolia,
Sonhos... sonhos...

Zildo Gallo - Americana, SP, abril de 1975
Um poema perdido na noite dos tempos.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

ASTRONAUTA (POEMA SIDERAL)

Zildo Gallo




O homem na lua
levou o nosso medo
e carregou os nossos sonhos.

Maravilhados,
desgrudados da Terra,
sem a fome,
sem a espera,
sem o tempo
e os compromissos,
deixamos
a misturar,
desapercebidos,
o suor,
o cimento,
a fome,
a cachaça,
a sujeira,
a guerra
e a solidão.

Enquanto isso...
os edifícios em construção
procuram chegar aos céus,
modernas babéis...
incompreensíveis...

Zildo Gallo - Americana, SP, 31 de dezembro de 1981.


sábado, 15 de abril de 2017

PONTO DE MUTAÇÃO

Z|ildo Gallo




Caminhar às escuras,
Tateando... tateando...
Em direção ao nada?
Chegar no ponto de mutação,
Ponto de luz que nos levará às estrelas,
À transcendental virada ao todo (tudo),
Um primeiro passo rumo ao infinito,
Ou à "queda para baixo",
Inflexão aos subterrâneos infernais,
Um mergulho nas sombras interiores,
Inferiores...
Nossa (i)real condição.

Caminhar... caminhar...
Seguir a estrada que mergulha
Na linha do horizonte,
Encontro de céu e terra,
O zênite inatingível,
Sempre à frente,
Utopia sempre posta à frente,
Farol a guiar nossa trajetória
Até um fim de jornada.
Sempre assalta-nos a pergunta:
Terá fim a jornada?

Ao final, resta-nos a memória
Do caminho andado,
Salpicado de alegrias e tristezas,
E o vislumbre de uma inebriante luz,
Belamente imaginada.
Resta a clara compreensão da importância
Do eterno caminhar e das histórias
Construídas no caminho.
Caminhos, partidas, chegadas, caminhos...
O que conta é o movimento
Rumo aos pontos de mutação,
Por enquanto...

Piracicaba, SP, 05 de março de 2002 e Campinas, SP, 15 de abril de 2017.


sexta-feira, 14 de abril de 2017

DESESPERO-ESPERANÇA (O GRITO)

Zildo Gallo


Querer... e não ver estrelas,
ponto de luz nas trevas,
cacos incertos de vida acima do asfalto,
enigma do eterno
e da esperança.

Olhar a rua que passa
e ver o mundo caminhar
do outro lado da calçada.
Andar à beira do asfalto,
andar à beira de si,
chutar a lata de lixo
e espalhar sentimentos.

Trancar-se na escuridão do quarto,
devorando incertezas.
Esperar que o peito,
dilacerado,
possa levar aos caminhos,
ao coração.
Em luta, relutar...

Sonhar, não sonhar,
viver, não viver,
se tudo acabar,
nada a perder.

Abrir porta e janela,
deixar entrar a brisa
e esperar... esperar...
Só resta o grito,
como aquele de Munch,
muito bem gritado.

Zildo Gallo - Americana, SP, 25 de setembro de 1983.
Homenagem a Edvard Munch (1863-1944), pintor norueguês.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

FEITO MENINO

Zildo Gallo




Caem gotas no telhado,
gotas tristes,
sonolentas,
que me molham por dentro
e me trancam em casa
ouvindo... só ouvindo...

Um imenso desejo
de, num assalto,
feito menino,
sair pela rua
dançando, cantando...
conquistando o mundo.

Deixar suor e água
a beijarem o rosto,
ver descer a enxurrada no meio-fio,
carregando o medo e a vergonha,
toda vergonha,
de viver feito menino.


Zildo Gallo - Americana, SP, 08 de janeiro de 1984

quarta-feira, 12 de abril de 2017

MALDIÇÃO

Zildo Gallo




Vi a borboleta
já não lembro
vermelha... amarela...
era linda
parece já tão longe
corri... corri...
no afã de apanhá-la
sem querer
estonteado
dei-lhe um tapa
ela caiu no chão
asa quebrada
mexendo-se
lentamente
convulsa
vieram as formigas...
amaldiçoei minhas mãos.

Zildo Gallo – Americana, SP, 13 de agosto de 1975


terça-feira, 11 de abril de 2017

FOTOGRAFIA ANTIGA

Zildo Gallo


Passam-se as horas e os dias
e a caminhada distancia
o presente do passado
e o futuro já se foi
sempre se vai
mas a fotografia na minha mente parece
atemporal
uma imagem imóvel
imperturbável
irremovível
a perturbar a minha jornada
sempre
a minha fuga para o esquecimento
para o fim da estrada
para o baú das memórias empoeiradas
dos retratos esmaecidos
que ousam aparecer
quando ouso penetrar
sozinho
a escuridão do meu sótão interior.

Zildo Gallo - Piracicaba, SP, 08 de outubro de 2001


domingo, 9 de abril de 2017

Haicais de 4 (quatro) - tempo presente

Zildo Gallo


      1

O tempo segue
Trajetória bem reta
Em vidas curvas.

      2

Sempre ao tempo
A vida ondula-se
Em vivas águas.

      3

Por bem ou por mal
Toda vez tudo passa
Tudo vem na vez.

      4   

Vai-se em frente
A hora é agora
Em boa hora.


quinta-feira, 6 de abril de 2017

RIO E SOMBRAS

Zildo Gallo


Homem à beira do rio...
No seu trajeto o rio agradece
Em beleza e paz ao ser que o contempla
Em silêncio.
Sossego, sombras, frescor...
Árvores pendem em abraços
Sobre as águas vivas.
O rio sempre passa... passa...
O rio apenas passa
E se deixa abraçar,
Autonavega-se...
Na quietude, o homem consegue
Absorver a consciência do rio
Que sempre passa
Mas que não precisa saber que passa
E porque (porquê) passa.
Apenas passa...
O rio passa e permanece,
Sempre...


domingo, 2 de abril de 2017

Haicais de 4 (quatro) - caminhos

Zildo Gallo


      1

Vá ao beleléu
Beleléu é bem ali
Segue-se ao léu.

      2

Lá muito longe
Judas perdeu as botas
Bem boquirrotas.

      3

Todo caminho
Leva a algum lugar
É só caminhar...

      4   

Só se caminha
Sentindo os caminhos
Veias pulsantes...