domingo, 28 de agosto de 2016

TARÔ DE MARSELHA EM POESIA: SÉRIE COMPLETA

ZILDO GALLO

O TARÔ É UM GRANDE ESPELHO DO PENSAMENTO INCONSCIENTE. CADA UMA DAS SUAS CARTAS É UMA FIGURA ARQUETÍPICA, POUCO COMPREENSÍVEL AO HOMEM MODERNO, QUE PERDEU CONTATO COM O MUNDO MÍTICO (INTERIOR) E MERGULHOU NO MUNDO DA RACIONALIDADE PURA. INICIAR UM ESTUDO DE TARÔ PODE SER UMA RETOMADA DE CONTATO COM O MUNDO INTERIOR, COM OS SEUS SÍMBOLOS, IMAGENS IMEMORIAIS DO INCONSCIENTE COLETIVO DA HUMANIDADE.

O TARÔ TAMBÉM É CONHECIDO COMO UM SISTEMA DE ADIVINHAÇÃO, UM ORÁCULO. DELE SURGIRAM AS CARTAS DE JOGAR (ARCANOS MENORES), QUE TAMBÉM SERVEM À ADIVINHAÇÃO. HOJE ELE É CONSIDERADO UM DOS MAIS BEM ELABORADOS MÉTODOS QUE INTEGRAM O VASTO CAMPO DA SIMBOLOMANCIA (ADIVINHAÇÃO ATRAVÉS DOS SÍMBOLOS).

Como uma forma de introduzir o leitor ao universo do Tarô, em 26 de abril 2016, eu iniciei uma série de poemas em homenagem aos arcanos maiores do Tarô de Marselha conforme a minha percepção. Em 26 de agosto de 2016, eu conclui a série de poemas. Nesta publicação eu juntei todos em ordem decrescente de numeração, começando pelo "O MUNDO" (21) e terminando em "O LOUCO" (zero). Senhores e senhoras apreciadores do Tarô, boa leitura!


OS ARCANOS MAIORES DO TARÔ EM POEMAS: O MUNDO
26 de agosto de 2016

Zildo Gallo

Continuando o proposto em 26 de abril de 2016, um dia outonal nublado, eu publico hoje, 26 de agosto de 2016, num um pouco frio de inverno, um poema sobre a minha percepção da carta número 21 (vinte e um) do Tarô de Marselha, o Mundo. Relembrando, desde 1990 eu estudo as mais diferentes versões do Tarô, desde a mais antiga, Tarô de Marselha, até as mais contemporâneas, como o Tarô dos Orixás, por exemplo. O Julgamento é a vigésima primeira e última carta da jornada arquetípica do Tarô. Com este poema eu encerro a série dedicada aos arcanos maiores do Tarô.


O MUNDO

A vida-mundo vem em ciclos,
Em círculos grandes e pequenos,
Que começam e terminam
E recomeçam e terminam...

Na sua circunscrita circularidade,
O mundo-vida tem quatro cantos
E cada metafórico canto está assinalado
Por seu elementar sagrado guardião.

Encimado à esquerda está o anjo,
Guardião da airosa mente racional,
Que se posta a serviço de cada ego
Que se vê em separada trajetória.

Encimada à direita está a águia,
Guardiã das águas envolventes,
Que suavemente acalentam cada ser
Ante as agruras do mundo perecível.

À esquerda, no rés do chão, está o boi,
Chefe do solo pisado, da tangível  matéria,
De onde retira sua carnal sustentação,
Para caminhar sobre as suas patas firmes.

À direita, no rés do chão, posta-se o leão,
Guardião da pira do fogo do espírito,
Com sua juba vermelha a nos lembrar
Que somos fagulhas da eterna luz divina.

O Mundo gira no equilibrado compasso
Dos seus quatro marcos elementais:
Água, Terra, Fogo e Ar,
Escorpião, Touro, Leão e Aquário.

O Mundo gira-gira-gira para nos ensinar
Que a vida sempre vem em ondas,
Como o imenso, profundo e sagrado mar
De onde toda vida um dia de repente veio.


OS ARCANOS MAIORES DO TARÔ EM POEMAS: O JULGAMENTO
18 de agosto de 2016

Zildo Gallo

Continuando o proposto em 26 de abril de 2016, um dia outonal nublado, eu publico hoje, 18 de agosto de 2016, numa noite quente e seca de inverno, um poema sobre a minha percepção da carta número 20 (vinte) do Tarô de Marselha, o Julgamento. Relembrando, desde 1990 eu estudo as mais diferentes versões do Tarô, desde a mais antiga, Tarô de Marselha, até as mais contemporâneas, como o Tarô dos Orixás, por exemplo. O Julgamento é a vigésima e penúltima carta da jornada arquetípica do Tarô e na próxima semana, com a publicação da carta “O Mundo”, encerrarei esta série de poemas em homenagem aos arcanos maiores do Tarô.



O JULGAMENTO

Esperar em paz até o soar da trombeta,
Para renascer do sono profundo
E acordar em pele e pelos,
Liberto de indumentárias e ornamentos
Que escondem quem realmente sou.
Quem sou eu?

Renascer das cinzas feito fênix
Pois, de verdade, sou como esta ave
Que sempre renasce a partir do pó largado ao chão,
Do pó que antes, muito antes, veio das estrelas,
Pois, neste mundo, somos todos estrelas.
Sou só mais uma estrela entre todas as estrelas?

Não há porque temer o Juízo Final,
Porque, ao bem da divina verdade, somos todos
Fragmentos do imenso todo que se estende
Rumo ao infinito dos infinitos e além.
Na verdade, eu e tu somos esta infinitude.
Como compreender esta infinitude?

Não há que temer a hora da remissão dos pecados,
Já que o grande e imensurável pecado
É a ilusão de que não somos a centelha divina
Que brilha dentro e brilha fora,
Pois somos muito mais que pó das estrelas;
Somos, eu e tu, esta incompreensível infinitude.

OS ARCANOS MAIORES DO TARÔ EM POEMAS: O SOL
12 de agosto de 2016


Zildo Gallo



Dando continuidade ao proposto em 26 de abril de 2016, um dia outonal nublado, eu publico hoje, 12 de agosto de 2016, num dia invernal, muito seco e frio, um poema sobre a minha percepção da carta número 19 (dezenove) do Tarô de Marselha, o Sol. Relembrando, desde 1990 eu estudo as diferentes versões do Tarô, desde a mais antiga, Tarô de Marselha, até as mais novas, como o Tarô dos Orixás, por exemplo. O Sol é a décima nona carta da jornada arquetípica do Tarô e, após ela, faltam apenas duas cartas a serem contempladas com seus respectivos poemas. Em breve, a série estará completa, é só aguardar.



O SOL

Senhor da luz incandescente,
Senhor do ouro alquímico
Que transmuta toda noite em dia,
Clareia a escuridão da minh'alma
Que chafurda no escuro pântano
Da egocêntrica solidão.

Majestade do meu sistema planetário,
Imensa pedra filosofal sempre pronta
Para transformar o menor dos átomos
No mais puro e cobiçado ouro,
Transforma toda a minha pungente dor
Na mais pura e irradiante alegria.

Senhor da grande juba dourada,
Rei de todas as criaturas terrestres,
As quais ilumina em igualdade perfeita,
Ensina-me a humildade de ser igual,
De ser apenas o que sou:
Pó das estrelas.


OS ARCANOS MAIORES DO TARÔ EM POEMAS: A LUA
7 de agosto de 2016


Zildo Gallo

Dando continuidade ao proposto em 26 de abril de 2016, um dia outonal nublado, eu publico hoje, 7 de agosto de 2016, numa noite invernal, seca e pouco fria, um poema sobre a minha percepção da carta número 18 (dezoito) do Tarô de Marselha, a Lua. Relembrando, desde 1990 eu estudo as diferentes versões do Tarô, desde a mais antiga, Tarô de Marselha, até as mais novas, como o Tarô dos Orixás, por exemplo. A Lua é a décima oitava carta da jornada arquetípica do Tarô e, após ela, faltam apenas três cartas a serem contempladas com seus respectivos poemas. Em breve, a série estará completa, é só aguardar.


A LUA

Oh! misteriosa Hécate, Deusa das três faces,
Peço-Te que ilumines com a suavidade da Tua prateada luz
O mundo que comandas nas profundezas
Dos subterrâneos da minha alma velha
Que clama por Tua imemorial e materna luz.

Dama das noites a refletir com carinhosa suavidade
A ofuscante luz solar para caridosamente permitir
Que as minhas sombras interiores apareçam
E comigo dialoguem sem o defensivo medo
De serem calcinadas aos certeiros raios de Hélio.

Tu, matriarcal divindade, primitiva senhora, vem desvelar
Os meus sonhos mais guardados, mais escondidos,
Para que eu me lembre da Tua tão esquecida governança
E relembre que a vida vem em ciclos,
Que tudo nasce, cresce, morre e renasce...

Os velhos patriarcas trapacearam-na com muitas falsas histórias,
Transformando-a na Senhora de homens-lobos e de bruxas más,
Quando, na verdade, és a Senhora que comanda todas as marés
Para sempre lembrar a nós humanos que da água toda vida veio
E que da profundeza das águas uterinas todos (re)nascemos.


OS ARCANOS MAIORES DO TARÔ EM POEMAS: A ESTRELA
1º de agosto de 2016

Zildo Gallo

Dando continuidade ao proposto em 26 de abril de 2016, um dia outonal nublado, eu publico hoje, 1º de agosto de 2016, num dia invernal ensolarado, seco e um pouco frio, um poema sobre a minha percepção da carta número 17 (dezessete) do Tarô de Marselha, a Estrela. Relembrando, desde 1990 eu estudo as diferentes versões do Tarô, desde a mais antiga, Tarô de Marselha, até as mais novas, como o Tarô dos Orixás, por exemplo. A Estrela é a décima sétima carta da jornada arquetípica do Tarô e, após ela, continuarei publicando pelo menos um poema por semana e, ao cabo de mais ou menos 20 semanas, com início em abril de 2016, terei passado uma visão completa em forma de poesia sobre todos os arcanos maiores.


A ESTRELA

Querer... e não ver as estrelas,
Ponto de luz nas trevas,
Cacos incertos de vida acima do asfalto,
Enigma do eterno
E da airosa esperança.
Olhar a rua que passa
E ver um mundo obscuro caminhar
Do outro lado da calçada.

Trancar-me na escuridão do quarto,
devorando incertezas.
Esperar que o peito dilacerado me leve
Aos caminhos do coração.
Em luta, reluto...

Sonhar, não sonhar,
Viver, não viver,
Se tudo acabar,
Nada a perder.
Abrir porta e janela,
Deixar entrar a brisa
E esperar...

Haverá um tempo
Em que colocarei o olhar
Na linha do horizonte e não sentirei
O peito apertar-se,
Sem ansiedade e sem temor...

Haverá um tempo do dever cumprido,
Do contemplar o edifício acabado,
A casa do espírito em paz,
Serena paz,
O coração tranquilo.

Haverá um tempo para contemplar
As águas mansas do regato
Que, lentamente, lentamente...
Caminham para seu destino maior,
Rumo ao distante oceano,
Carregando as más águas
Dos meus cântaros esvaziados.

Haverá um tempo
Em que olharei para trás
E sentirei,
Aproximando-me do imenso oceano,
A certeza de ter feito o melhor
No sinuoso e acidentado caminhar.


OS ARCANOS MAIORES DO TARÔ EM POEMAS: A TORRE
25 de julho de 2016


Zildo Gallo

Continuando o proposto em 26 de abril de 2016, um dia outonal nublado, eu publico hoje, 25 de julho de 2016, num dia invernal ensolarado, seco e não muito frio, um poema sobre a minha percepção da carta número 16 (dezesseis) do Tarô de Marselha, a Torre. Relembrando, desde 1990 eu estudo as mais diferentes versões do Tarô, desde a mais antiga, Tarô de Marselha, até as mais novas, como o Tarô dos Orixás, por exemplo. A Torre é a décima sexta carta da jornada arquetípica do Tarô e, após ela, continuarei publicando pelo menos um poema por semana e, ao cabo de mais ou menos 20 semanas, com início em abril de 2016, terei passado uma visão completa em forma de poesia sobre todos os arcanos maiores.


A TORRE

Com o brilho da mente astuta ergui
O mais sólido de todos os castelos,
Pedra sobre pedra, pedra sobre pedra,
E no ponto mais alto do mais alto
Suspendi a inexpugnável torre,
De onde, orgulhoso, comando os batalhões.

Nada de baixo pode atingir-me
E lá fora estão todos os outros
E cá no mais dentro de dentro estou eu,
Bem protegido pelo jogo das guerras mentais,
Que me defende de tudo aquilo
Que não quero e nem desejo ver.

Isto posto, chega-me uma dura verdade:
Neste mundo nada é inabalável
E, inevitavelmente, tudo se move.
Ao bem da minha verdade eu tenho que me dizer:
A minha fortaleza tem a imaginária solidez
Dos castelos erguidos com lâminas de baralho.

Em verdade, também tenho que me dizer:
O meu castelo foi engendrado para ruir,
Para que eu experimente o desapego em liberdade,
Da liberdade de viver a vida longe dos muros
Que separam meu quintal imaginado
Do mundo verdadeiro que lá fora viceja.


OS ARCANOS MAIORES DO TARÔ EM POEMAS: O DIABO
20 de julho 2016


Zildo Gallo

Continuando o proposto em 26 de abril de 2016, um dia outonal nublado, eu publico hoje, 20 de julho de 2016, num dia invernal ensolarado, seco e com baixas temperaturas, um poema sobre a minha percepção da carta número 15 (quinze) do Tarô de Marselha, o Diabo. Relembrando, desde 1990 eu estudo as mais diferentes versões do Tarô, desde a mais antiga, Tarô de Marselha, até as mais novas, como o Tarô dos Orixás, por exemplo. O Diabo é a décima quinta carta da jornada arquetípica do Tarô e, após ela, continuarei publicando pelo menos um poema por semana e, ao cabo de mais ou menos 20 semanas, com início em abril de 2016, terei passado uma visão completa em forma de poesia sobre todos os arcanos maiores.


O DIABO

Olha bem para mim!
Não há nada para temer...
Não sei porquê te espantas,
Sou teu amigo velho e habito
Nos teus desejos mais secretos,
Nos teus impulsos mais reprimidos.

Montaram-me aos pedaços,
Com restos de bichos e de gente,
Mas sabes que não sou assim,
O teu falso medo deforma a minha real beleza;
De fato, sou o teu amigo mais secreto
E te sigo feito sombra por onde fores.

Tu te prendes a mim por magnética corrente,
Feita de alegrias delirantes e pungentes dores.
Estou nos prazeres que te levam por instantes às alturas
E também às profundezas das cavernas
Mais grudentas, sombrias e assombradas,
Que se enfiam na dureza da crosta terrestre.

Afirmo-te com a mais indelicada firmeza:
Não ascenderás aos reinos celestiais,
Se não conheceres os reinos carnais,
Onde comando como absoluto senhor que sou
E onde tudo é apenas uma distorção
Do que se apresenta nos outros.

Não adies o teu encontro comigo,
Pois é tolamente inútil fazê-lo.
Somente relaxe e assim de fato verás
Que sou apenas a tua caricatura,
O lado escuro da tua verdadeira luz,
Que eu até posso ajudar a (re)iluminar.


OS ARCANOS MAIORES DO TARÔ EM POEMAS: A TEMPERANÇA
15 de julho de 2016


Zildo Gallo

Continuando o proposto em 26 de abril de 2016, um dia outonal nublado, eu publico hoje, 15 de julho de 2016, num anoitecer invernal, muito seco e com temperatura anormalmente quente, um poema sobre a minha percepção da carta número 14 (quatorze) do Tarô de Marselha, a Temperança. Relembrando, desde 1990 eu estudo as mais diferentes versões do Tarô, desde a mais antiga, Tarô de Marselha, até as mais novas, como o Tarô dos Orixás, por exemplo. A Temperança é a décima quarta carta da jornada arquetípica do Tarô e, após ela, continuarei publicando pelo menos um poema por semana e, ao cabo de mais ou menos 20 semanas, com início em abril de 2016, terei passado uma visão completa em forma de poesia sobre todos os arcanos maiores.


A TEMPERANÇA

Apareço na tua vida feito um anjo alquímico
Preparando a tua sagrada bebida,
O vinho santo da tua Santa Ceia,
O sagrado Soma dos deuses do Oriente,
Prontos para te orientar.

Apareço como um guia celestial
Apto a conduzir-te no real caminho da luz,
Mas, com segurança, eu te asseguro:
Não verás a luz divina antes de iluminar
Os subterrâneos onde tuas sombras se alojam.

Asseguro-te, com toda minha divinal placidez:
A aterradora descida ao mundo sombrio
Não é tarefa alegre, fácil e tranquila,
Mas ela não te aniquilará, ao contrário,
Ela te ressuscitará da tua morte em vida.

Apenas te peço:
Muita calma e tranquilidade,
Nem te peço que te apresses,
Apenas que aceites que eu te guie,
Pois teu tempo se estende até o infinito.


OS ARCANOS MAIORES DO TARÔ EM POEMAS: A MORTE
12 de julho de 2016

Zildo Gallo

Continuando o proposto em 26 de abril de 2016, um dia outonal nublado, eu publico hoje, 12 de julho de 2016, num dia invernal ensolarado, muito seco e com temperaturas amenas, um poema sobre a minha percepção da carta número 13 (treze) do Tarô de Marselha, a Morte. Relembrando, desde 1990 eu estudo as mais diferentes versões do Tarô, desde a mais antiga, Tarô de Marselha, até as mais novas, como o Tarô dos Orixás, por exemplo. A Morte é a décima terceira carta da jornada arquetípica do Tarô e, após ela, continuarei publicando pelo menos um poema por semana e, ao cabo de mais ou menos 20 semanas, com início em abril de 2016, terei passado uma visão completa em forma de poesia sobre todos os arcanos maiores.


A MORTE

Chego, à vezes bem de mansinho,
Silenciosamente imperceptível,
Às vezes catastrófica, virulenta e assustadora,
Afirmando a todos o meu poder,
Sobre tudo que habita este mundo em carne viva.

Tudo que nasce e cresce neste plano
Um dia com certeza, recebe a minha visita certeira,
A minha indesejada e incompreensível chegada
E não há como não abrir as portas
Para impedir a minha gélida e triunfal entrada.

Chego à sua casa, às vezes sem prévio aviso,
Tanto para arrancá-lo para fora
Do seu já carcomido casulo material
Como para retirá-lo à força, dentro desta mesma vida,
Da sua modorrenta e pegajosa comodidade.

Bem-aventurados são todos aqueles
Que me recebem na sua medíocre morte-vida
E, renascidos, captam a minha clara mensagem
E com olhos e almas abertos, (re)iluminados,
Iniciam uma nova viajem neste mundo ainda...


OS ARCANOS MAIORES DO TARÔ EM POEMAS: O ENFORCADO
6 de julho de 2016


Zildo Gallo

Continuando o proposto em 26 de abril de 2016, um dia outonal nublado, eu publico hoje, 6 de julho de 2016, num dia invernal ensolarado e com temperaturas amenas, um poema sobre a minha percepção da carta número 12 (doze) do Tarô de Marselha, o Enforcado (Pendurado). Relembrando, desde 1990 eu estudo as mais diferentes versões do Tarô, desde a mais antiga, Tarô de Marselha, até as mais novas, como o Tarô dos Orixás, por exemplo. O Enforcado é a décima segunda carta da jornada arquetípica do Tarô e, após ela, continuarei publicando pelo menos um poema por semana e, ao cabo de mais ou menos 20 semanas, com início em abril de 2016, terei passado uma visão completa em forma de poesia sobre todos os arcanos maiores.


O ENFORCADO (PENDURADO)

Sigo dependurado de cabeça para baixo,
Amarrado apenas pelo meu pé direito,
Aguardando, à luz da Santa Paciência,
O momento da minha soltura possível.
Então, espero...

Sem desespero... não há como mover-me
Sem piorar minha indefinida permanência
Na imobilidade da minha situação,
Que clama por infinita paciência.
Então, pacifico-me...

A vida me pôs assim neste momento,
Mas muitos dizem que fui eu mesmo
Que assim me coloquei pelos caminhos
Que, obstinadamente, escolhi.
Então, aceito...

O meu consolo é com muita calma saber
Que nas regras deste jogo de cartas mágicas
A história nunca termina assim e aqui
E que, por ora, a espera imóvel e silenciosa
É o único e verdadeiro caminho a seguir.

Espero, pacifico-me e aceito.
Afinal, só posso fazer assim
E não tem nenhuma outra saída que não seja
Aceitar, ante o meu sagrado e livre arbítrio,
Os desígnios da Sacrossanta Providência.


OS ARCANOS MAIORES DO TARÔ EM POEMAS: A FORÇA
1º de julho de 2016


Zildo Gallo

Continuando o proposto em 26 de abril de 2016, um dia outonal nublado, eu publico hoje, primeiro de julho de 2016, num dia ensolarado de inverno e com temperaturas amenas, um poema sobre a minha percepção da carta número 11 (onze) do Tarô de Marselha, a Força. Relembrando, desde 1990 eu estudo as mais diferentes versões do Tarô, desde a mais antiga, Tarô de Marselha, até as mais novas, como o Tarô dos Orixás, por exemplo. A Força é a décima primeira carta da jornada arquetípica do Tarô e, após ela, continuarei publicando pelo menos um poema por semana e, ao cabo de mais ou menos 20 semanas, com início em abril de 2016, terei passado uma visão completa em forma de poesia sobre todos os arcanos maiores.


A FORÇA

Meu destino é domar a fera
Que vive escondida dentro de mim,
Reminiscências de eras esquecidas
Nas remotíssimas noites do tempo.

Meu destino é penetrar labirintos sombrios,
Mergulhados nas profundezas do chão lamacento,
À busca do cristal da verdadeira claridade
Que sozinho reflete a sua própria luz.

Dentro de mim habitam um anjo suave
E uma raivosa besta-fera,
Imagens invertidas num espelho mágico
Disputando a primazia do existir.

Sei que em algum dia me verei face-a-face,
Indo além do antigo espelho invertido,
E a suave força, imbatível força, imperecível força,
Irá mostrar-me a luz verdadeira que sou eu.


OS ARCANOS MAIORES DO TARÔ EM POEMAS: A RODA DA FORTUNA
23 de junho de 2016


Zildo Gallo

Continuando o proposto em 26 de abril de 2016, um dia outonal nublado, eu publico hoje, 23 de junho de 2016, num dia suavemente frio, ensolarado e sem os ventos outonais, no início do inverno do hemisfério sul, um poema sobre a minha percepção da carta número 10 (dez) do Tarô de Marselha, a Roda da Fortuna. Relembrando, desde 1990 eu estudo as mais diferentes versões do Tarô, desde a mais antiga, Tarô de Marselha, até as mais contemporâneas, como o Tarô dos Orixás, por exemplo. A Roda da Fortuna é a décima carta da jornada arquetípica do Tarô e, após ela, continuarei publicando pelo menos um poema por semana e, ao cabo de mais ou menos 20 semanas, que teve início em abril de 2016, terei passado uma visão completa em forma de poesia sobre todos os arcanos maiores.


A RODA DA FORTUNA

É um vir-a-ser intangível,
é o instante seguinte a nos esperar,
é o rodar da roca das Moiras
que, seguindo o girar do tempo,
o rodopiar azul da Terra,
vai fiando a linha da nossa vida.

São os movimentos de Gaia,
nossa mãe,
que gera a vida
em ciclos de nascimento e morte,
de morte e vida,
de partidas e retornos.

São processos invisíveis,
inacessíveis,
à nossa risível e humana condição,
envolta em névoa,
que limita e delimita
a visão do caminho à frente.

Movimentos imperceptíveis
que nos lançam
na supremacia
da surpresa permanente do viver,
Do eterno vir-a-ser.

Para entender melhor "A RODA DA FORTUNA", transcrevo aqui um poema escrito em 2001, onde falo da insegurança do porvir, da necessidade fóbica que temos de controlar o futuro e da mediocridade da vida sem as surpresas.

DESEJO E DESTINO

Desejar ter o minuto seguinte
preso entre as mãos
desejar a paralisia do tempo
para reorganizar o tabuleiro
do xadrez das nossas vidas
desejando ardentemente
a não existência do outro jogador
que move as suas peças
fora do nosso controle
desejar a construção de via reta
para o nosso caminhar
e perder a aventura da surpresa
e desejar
ainda
ser feliz.

Zildo Gallo - Piracicaba, SP, 24 de outubro de 2001


OS ARCANOS MAIORES DO TARÔ EM POEMAS: O EREMITA
23 de junho de 2016

Zildo Gallo

Continuando o proposto em 26 de abril de 2016, um dia outonal nublado, eu publico hoje, 23 de junho de 2016, num dia suavemente frio, ensolarado e sem os ventos outonais, no início do inverno do hemisfério sul, um poema sobre a minha percepção da carta número 9 (nove) do Tarô de Marselha, o Eremita. Relembrando, desde 1990 eu estudo as mais diferentes versões do Tarô, desde a mais antiga, Tarô de Marselha, até as mais contemporâneas, como o Tarô dos Orixás, por exemplo. O Eremita é a nona carta da jornada arquetípica do Tarô e, após ela, continuarei publicando pelo menos um poema por semana e, ao cabo de mais ou menos 20 semanas, que teve início em abril de 2016, terei passado uma visão completa em forma de poesia sobre todos os arcanos maiores.


O EREMITA

Minha sina é caminhar
E há muito... muito tempo caminho,
Como o grego Diógenes caminhava,
Levando como ele a minha lanterna,
Que ergo no alto e à frente
Como quem por algo procura,
Mas não procuro alhures,
Cinicamente,
Como ele procurava,
Por um homem que fosse de bem.

Caminho só,
Testando cada terreno com a firmeza
Do meu velho e sólido cajado,
Que comigo envelheceu na poeira das estradas
E que, por si só, como amigo e antigo aliado,
Já adivinha o meu próximo passo,
Cada próximo passo,
Um de cada vez,
Sem pressa,
Pois a pressa é inimiga da sabedoria.

A minha lanterna erguida à frente
Ilumina um caminho curto,
Um pouco maior que cada passo meu,
Limitando o alcance dos meus olhos exteriores,
Permitindo-me, enquanto traço meu caminhar,
A possível entrada,
A necessária entrada,
Nas estreitas e acidentadas trilhas
Do meu mundo interior,
Onde busco
Com os olhos do espírito
Um homem
Que seja verdadeiramente de bem.


OS ARCANOS MAIORES DO TARÔ EM POEMAS: A JUSTIÇA
17 de junho de 2016

Zildo Gallo

Continuando o proposto em 26 de abril de 2016, um dia outonal nublado, eu publico hoje, 17 de junho de 2016, num dia suavemente frio, ensolarado e ventoso de outono, um poema sobre a minha percepção da carta número 8 (oito) do Tarô de Marselha, a Justiça. Relembrando, desde 1990 eu estudo as mais diferentes versões do Tarô, desde a mais antiga, Tarô de Marselha, até as mais contemporâneas, como o Tarô dos Orixás, por exemplo. A Justiça é a oitava carta da jornada arquetípica do Tarô e, após ela, continuarei publicando um poema por semana e, ao cabo de 22 semanas, que teve início em abril de 2016, terei passado uma visão completa em forma de poesia sobre todos os arcanos maiores.


A JUSTIÇA

De qual justiça falamos?
A dos homens, permeada de incertezas duras,
Dura lex sed lex?
A divina que se coloca em planos distantes,
Longe da brutalidade da matéria,
Num futuro post mortem,
Aquela que muitas vezes mais tememos?

Não, nenhuma delas,
Falamos da outra justiça,
Daquela que nos liga às profundezas do ser,
Que nos fala dos objetivos e promessas,
Esquecidas promessas,
Da nossa velha alma em trânsito
Neste dorido mundo desigual.

Falamos da justiça que se faz a olhos descobertos,
Mas distante, muito longe, de injustas parcialidades.
Falamos da justiça severa na medida
E suportável ao aprendizado,
Desprovida da virulência infecciosa,
Desnecessária virulência,
Aquela que nos coloca em contato
Com as verdades que moram
Na câmara secreta do nosso coração,
Onde mora o santo e divino espírito.




OS ARCANOS MAIORES DO TARÔ EM POEMAS: O CARRO
10 de junho de 2016


Zildo Gallo

Continuando o proposto em 26 de abril de 2016, um dia outonal nublado, eu publico hoje, 10 de junho de 2016, num dia frio de outono, um poema sobre a minha percepção da carta número 7 (sete) do Tarô de Marselha, o Carro. Relembrando, desde 1990 eu estudo as mais diferentes versões do Tarô, desde a mais antiga, Tarô de Marselha, até as mais contemporâneas, como o Tarô dos Orixás, por exemplo. O Carro é a sétima carta da jornada arquetípica do Tarô e, após ela, continuarei publicando um poema por semana e, ao cabo de 22 semanas, que teve início em abril de 2016, terei passado uma visão completa em forma de poesia sobre todos os arcanos maiores.
  

O CARRO

Tenho que sair da exiguidade
Das quatro paredes da alcova,
Ir além do espaço semiaberto do quintal.
Preciso da amplitude do mundo novo,
Maior
E menos previsível,
Com suas montanhas e vales e mares
E extensas planícies.

Sufoca-me o ambiente
Acolhedor e protegido
Disso que chamam lar.
Necessito de novas atmosferas,
Do vento gelado a penetrar as minhas vestes
E da secura do deserto a encharcar-me de suor
Enquanto sigo no encalço da água cristalina
Da fonte da minha juventude.

O mundo está lá fora,
A vida corre lá fora,
A minha juventude está lá fora,
Tudo está lá fora
E tudo preciso buscar.
Dois corcéis conduzem meu carro veloz,
Disputando cada um deles
A primazia do caminho,
Ora sigo um
Ora o outro
E assim começo e recomeço,
Aos trancos e solavancos,
Nos acidentados caminhos,
A minha aventura
De venturas e desventuras.


OS ARCANOS MAIORES DO TARÔ EM POEMAS: OS ENAMORADOS
2 de junho de 2016


Zildo Gallo

Continuando o proposto em 26 de abril de 2016, um dia outonal nublado, eu publico hoje, 2 de junho de 2016, num dia frio e chuvoso de outono, um poema sobre a minha percepção da carta número 6 (seis) do Tarô de Marselha, os Enamorados. Relembrando, desde 1990 eu estudo as mais diferentes versões do Tarô, desde a mais antiga, Tarô de Marselha, até as mais contemporâneas, como o Tarô dos Orixás, por exemplo. Os Enamorados é a sexta carta da jornada arquetípica do Tarô e, após ela, continuarei publicando um poema por semana e, ao cabo de 22 semanas, que teve início em abril de 2016, terei passado uma visão completa em forma de poesia sobre todos os arcanos maiores.


OS ENAMORADOS

A hora da escolha chegou!
De repente chegou,
Inesperadamente chegou.
Chegou e como escolher?
Ou se recolher e tentar
paralisação do tempo?
Com os olhos postos
Na inebriante juventude da matéria,
A observar exteriores belezas?
Com a mente posta
Nos sutis acúmulos temporais
Das experiências vividas?
Olvidando olhos e mente e ouvindo
As razões secretas,
Desconhecidas,
Do imprevisível coração?

Não há como não escolher,
A não escolha só emperra
O continuar do caminho que se faz
No permanente caminhar.
A hesitação entrega o caminheiro
À roda incontrolável do destino
E, aí, há que se aprender
E apreender
A sábia aceitação de tudo que virá.

Na encruzilhada,
Olhando os dois caminhos adiante,
Não há como ficar parado.
Se não se escolhe e qualquer um segue,
Há o risco de ver a sorte lançada,
Feito flecha de Cupido zombador,
Sem rumo,
A esmo,
Às tortas,
E o caminho seguirá ausente
De verdadeiro coração
E daí, com a ilusão instalada,
Por um momento,
Longo e modorrento momento,
A verdade se esconde
E a ilusão vira verdade
À espera de uma nova encruzilhada.


OS ARCANOS MAIORES DO TARÔ EM POEMAS: O PAPA
26 de maio de 2016


Zildo Gallo

Continuando o proposto em 26 de abril de 2016, um dia outonal nublado, eu publico hoje, 26 de maio de 2016, num dia frio de outono, um poema sobre a minha percepção da carta número 5 (cinco) do Tarô de Marselha, o Papa. Relembrando, desde 1990 eu estudo as mais diferentes versões do Tarô, desde a mais antiga, Tarô de Marselha, até as mais contemporâneas, como o Tarô dos Orixás, por exemplo. O Papa é a quinta carta da jornada arquetípica do Tarô e, após ela, continuarei publicando um poema por semana e, ao cabo de 22 semanas, que teve início em abril de 2016, terei passado uma visão completa em forma de poesia sobre todos os arcanos maiores.


O PAPA

Senhor que liga os mundos
Celestial e terreno
E que, com sua mão direita, nos entrega
As bênçãos divinas que passam pelo seu cetro,
Sustentado em sua mão esquerda
Como uma antena apontada para o alto,
Ao infinito,
A captar as vibrações mais sutis,
Ainda imperceptíveis
Aos nossos sentidos comuns de mortais,
Humildemente, com os joelhos ao chão,
Pedimos:

Traga-nos o Reino de Deus
À nossa Terra,
Às nossas moradas,
Aos nossos corações,
Câmaras secretas onde se encontram
Os tronos divinos
Da diamantina e indivisível Unidade,
Para que seja feita a Sua vontade.

A vontade divina é que mereçamos
E tenhamos todos,
Grandes e pequenos,
O pão nosso de cada dia,
Que nos alimenta a carne,
E o pão do Espírito Santo,
Que nos dá força
Para transcendermos a nossa condição
De simples humanos,
Nascidos do húmus,
Humildemente,
Do solo (colo) fértil de Gaia,
A nossa mãe Terra.


OS ARCANOS MAIORES DO TARÔ EM POEMAS: O IMPERADOR
20 de maio de 2016


Zildo Gallo

Continuando o proposto em 26 de abril de 2016, um dia outonal nublado, eu publico hoje, 20 de maio de 2016, num dia um pouco frio de outono, um poema sobre a minha percepção da carta número 4 (quatro) do Tarô de Marselha, o Imperador. Relembrando, desde 1990 eu estudo as mais diferentes versões do Tarô, desde a mais antiga, Tarô de Marselha, até as mais contemporâneas, como o Tarô dos Orixás, por exemplo. O Imperador é a quarta carta da jornada arquetípica do Tarô e, após ela, continuarei publicando um poema por semana e, ao cabo de 22 semanas, que teve início em abril de 2016, terei passado uma visão completa em forma de poesia sobre todos os arcanos maiores.


O IMPERADOR

Senhor do poder
Deste mundo material,
Dimensão masculina do Divino
Aqui na Terra,
Consorte da Grande Mãe da criação,
Com o seu olhar posto à esquerda,
A perscrutar o passado,
Que presente se faz na longínqua
Construção do seu Império,
Que no presente rege com seu cetro
Ereto na sua mão direita,
Ligando o Céu (Urano)
Com a Terra (Gaia),
União simbolizada na cruz
Que o encima,
Guie-nos em paz!

Pai terreno,
Que descansa seu escudo ao lado,
Mas sempre ao seu pronto alcance,
Enquanto reina a paz,
A necessária paz,
A desejada paz,
Garantida pela força
Do espírito livre da águia do seu escudo
Que voa alto e do alto tudo vê,
Desde as montanhas
Até os vales,
Para assim assegurar,
Com sua onipresença e força,
Que as sementes lançadas ao solo
Pelas mãos generosas e férteis
Da sua Imperatriz
Vicejem e produzam frutos,
Garanta-nos a segurança do “pão nosso de cada dia”
E dai-nos a paz.


OS ARCANOS MAIORES DO TARÔ EM POEMAS: A IMPERATRIZ
13 de maio de 2016


Zildo Gallo

Continuando o proposto em 26 de abril de 2016, um dia outonal nublado, eu publico hoje, 13 de maio de 2016, num dia frio de outono, um poema sobre a minha percepção da carta número 3 (três) do Tarô de Marselha, a Imperatriz. Relembrando, desde 1990 eu estudo as mais diferentes versões do Tarô, desde a mais antiga, Tarô de Marselha, até as mais contemporâneas, como o Tarô dos Orixás, por exemplo. A Imperatriz é a terceira carta da jornada arquetípica do Tarô e, após ela, continuarei publicando um poema por semana e, ao cabo de 22 semanas, que teve início em abril de 2016, terei passado uma visão completa em forma de poesia sobre todos os arcanos maiores.


A IMPERATRIZ

Senhora do mundo material,
Senhora da prosperidade,
Da abundância
E do alimento.
Senhora de tudo que nasce e cresce.
Só a Senhora,
No seu recolhimento alquímico,
Constrói a vida,
Partindo da minúscula semente,
E, ao término da sua tarefa,
Lança-a à luz do sol,
Como um arqueiro que atira flechas
No vazio do espaço,
Esperando que ele seja preenchido.

Grande Mãe,
A Grande Mãe
Dos nossos remotos ancestrais,
Que souberam reconhecê-la
Em cada ser vivente
Neste solo por onde caminhamos,
Este solo que é seu colo
Que nos acolhe,
Sem que disso demos conta,
Hoje,
Como filhos ingratos que nos tornamos.

Como mãe dos deuses e de todos os seres,
O seu desejo mais profundo
E verdadeiro
É que todos tenham em abundância
Tudo aquilo que é de verdade necessário,
O verdadeiramente necessário
À Caminhada de cada um
Neste planeta que leva seu nome:
Terra, Gaia, Gayatri...

Como toda mãe,
A Senhora sofre ante o sofrimento
E ante os tropeços enganosos de cada filho seu,
Mas sabe que eles foram atirados
Como flechas ao mundo,
Ao livre arbítrio,
Para que façam o seu próprio caminho
Ao caminhar.
Muitas delas pousam em terrenos hostis
E acabam por se perder
E seu desejo é que elas encontrem
Um bom caminho
Ao caminhar.

Seus filhos já não lhe reconhecem
E ferem o seu colo
Acolhedor
E, não satisfeitos,
Escavam as feridas que sangram
Como lágrimas escorrendo,
Mas nem mesmo assim os abandona,
Pois, no seu derradeiro momento,
Acolhe cada um,
Em seu substrato material,
No seu generoso colo,
No seu útero cósmico.


COMPLEMENTO
Em complemento ao poema, reproduzo aqui o artigo "Saber Cuidar: a Essência do Humano", que publiquei em 8 de dezembro de 2014, neste blog, onde aparece a mãe Terra (Gaia) na fábula-mito do Cuidado, que trata da criação do ser humano e da sua profunda ligação com a Grande Mãe que, no Tarô de Marselha, eu a reconheço na carta da Imperatriz.

SABER CUIDAR: A ESSÊNCIA DO HUMANO

Zildo Gallo

Cuidado é o tema principal do livro Saber Cuidar: Ética do Humano – Compaixão pela Terra, de Leonardo Boff, onde ele resgata a fábula-mito do Cuidado ou Fábula de Higino. Caio Júlio Higino, em latim Gaius Julius Higinus, foi um escritor da Roma Antiga (primeiro século a.C.)Sua principal obra chama-se Fábulas ou Genealogias. Trata-se da recompilação de 300 lendas, histórias e mitos da tradição greco-latina. Eis a fábula:
Certa vez, depois de atravessar um rio, o deus Cuidado viu uma porção de barro. Então, teve uma inspiração. Tomou um pouco de barro e deu-lhe uma forma. Enquanto contemplava a sua obra, apareceu Júpiter, o senhor de todos os deuses. Cuidado pediu-lhe que soprasse espírito nele, o que Júpiter fez com satisfação. Todavia, quando Cuidado quis dar um nome a sua  criatura, Júpiter o proibiu, exigindo que fosse imposto o seu nome. Enquanto Júpiter e  Cuidado discutiam, surgiu a deusa Terra. Ela quis também dar o seu nome à criatura, pois fora feita de barro, que era material do seu próprio corpo, provocando com isso uma discussão generalizada. Como não chegavam a um acordo, chamaram Saturno para que funcionasse como árbitro da questão. Procurando ser justo, Saturno tomou a sua decisão: "Você, Júpiter, deu-lhe o espírito e, por isso, recebê-lo-á de volta quando a criatura morrer. Você, Terra, deu-lhe o corpo e recebê-lo-á de volta quando da sua morte. Cuidado, como você foi quem moldou tal criatura, ela deverá ficar sob seus cuidados enquanto viver. E, já que vocês não chegam a um acordo sobre o seu nome, decido eu: esta criatura será chamada Homem, isto é, feita de húmus, que significa terra fértil”.
O ser humano nasceu, assim como todos os seres, do corpo da Terra. Conforme a lenda, nasceu de uma terra fértil, do húmus da terra, que foi trabalhada com esmero e muito cuidado pelo deus Cuidado. A palavra humilde também deriva de húmus e, desta forma, ser humilde significaria reconhecer-se filho da Terra, da sua fertilidade, assim como todos as demais criaturas que também são filhas da mesma mãe, que também se formaram a partir do mesmo corpo, do mesmo barro.
A partir da fábula-mito do cuidado, podemos elaborar uma linha de raciocínio que pode levar-nos a entender o propósito maior da existência, o do cuidado necessário com o ser humano, que deve refletir-se no cuidado com a própria Terra, que é ao mesmo tempo nossa mãe e nossa casa, cuja maternidade e abrigo dividimos com todos os seres vivos, nossos irmãos. Reconhecer-se filho da mesma mãe significa compreender e respeitar a teia da vida que foi sendo  construída lentamente, durante milhões e milhões de anos no nosso planeta.
O mito do cuidado é mais que pertinente nos dias de hoje, pois faz com que nos relembremos da nossa íntima ligação com a Terra, o nosso planeta, instando-nos a que humildemente nos religuemos a ela, pois, neste momento, ela também necessita dos nossos cuidados. Trata-se, metaforicamente, da necessidade de uma volta para casa. Ele também pode servir como uma metáfora de caráter educativo, pois serve para despertar naquele que lê uma reflexão sobre a necessidade de cuidar dos seres humanos que sofrem e também de transformar o cuidado recebido pelo deus Cuidado, sob as ordens de Saturno, no cuidado com todos os outros seres viventes, com a própria Terra, por extensão.
O cuidado surge quando a situação de existir de alguém tem importância para outro alguém também existente, trata-se de uma relação, de um conjunto de relações. Alguém sai de si mesmo e conecta-se a outros, que, reciprocamente, também fazem o mesmo movimento. Por outro lado, a palavra cuidado significa preocupação, inquietação, sentido de responsabilidade, pois aquele que cuida sente-se envolvido e afetivamente ligado ao outro. Então, o cuidado é algo que se liga àquilo que é a essência primitiva, a essência primeira, do ser humano, que não é a razão, mas o afeto. O afeto antecede a razão; ele se encontra naquela situação de proteção que cada ser humano recebe nos primeiros dias da sua vida, naqueles momentos em que está totalmente dependente e indefeso em relação ao mundo que o cerca, naquele momento em que está totalmente dependente e indefeso em relação ao outro.
O cuidado é o modo de ser do humano. Sem cuidado ele deixa de ser humano e ele é cuidado e se cuida em grupo, sendo dessa maneira um ser social. Caso não receba cuidados, desde o nascimento até a morte, ele se desestrutura, definha e morre. Ele recebe cuidados para aprender a cuidar. Ele deve aprender a cuidar de si mesmo depois da sua infância, que é bem longa se comparada com a de outros animais, para em seguida aprender a cuidar dos outros humanos e dos demais seres vivos do planeta, pois tudo que vive precisa de cuidados para viver. Esta é a regra do jogo neste mundo
Conforme a fábula de Higino, o cuidado é fundamental para a existência e, neste sentido, antecede o espírito soprado por Júpiter e o corpo esculpido por Cuidado com o húmus fornecido pela deusa Terra. O Cuidado é a essência divina, é um a priori, ele pré-existe. É aquele Eros, o puro amor, aquele deus grego que já existia na noite dos tempos, antes mesmo da criação do universo.
Sem cuidados a vida e os humanos não existiriam. Então, há que se ter cuidado com tudo. É preciso ter compaixão com todos os seres que sofrem, humanos e não humanos,  obedecendo mais o coração, seguindo mais a lógica da cordialidade do que a da competição e do uso utilitário das coisas. Há que se ter cuidado com a Terra e com a sociedade, particularmente com os excluídos, com todos, enfim.
Neste momento, em desespero, tanto a Terra quanto a humanidade clamam por cuidados essenciais. A degradação ambiental, a pobreza de milhões de pessoas e as violências de todos os tipos precisam ser enfrentadas. Enfim, a grande crise pela qual passa o planeta Terra, só pode ser enfrentada com mais cuidado, o que resulta num clamor por um novo ordenamento ético para a humanidade e para o nosso planeta.
Contudo, as crises criam novas oportunidades e, neste momento, elas possibilitam mergulhos na instância onde, segundo Leonardo Boff (2003), os valores são continuamente forma­dos. Segundo ele, a nova ética planetária “deve brotar da base última da existência humana”. Ela não está na razão, como deseja o Ocidente. A razão não é a essência da existência e por isso não pode explicar e nem abranger tudo. A essên­cia do existir está em “algo mais elementar e ancestral: a afetividade”. Então, contrariando Descartes, que é o pilar do saber ocidental, a experiência basilar não é o seu “penso, logo existo”, mas, segundo Boff, é o “sinto, logo existo”.
Assim, para Boff (2003), na raiz de todas as coisas não está a razão (logos), mas a paixão (pathos). “Pela paixão captamos o valor das coisas (...) Só quando nos apaixonamos vivemos valores. E é por valores que nos move­mos e somos”. Neste ponto, Boff observa o surgimento de uma dramática dialética entre razão e paixão, já que ele em absoluto não menospreza o papel da razão:
Se a razão reprimir a paixão, triunfa a rigidez, a tirania da ordem e a ética uti­litária. Se a paixão dispensar a razão, vigora o delírio das pulsões e a ética hedo­nista, do puro gozo das coisas. Mas, se vigorar a justa medida, e a paixão se servir da razão para um autodesenvolvimento regrado, então emergem as duas forças que sustentam uma ética promissora: a ternura e o vigor.
Leonardo Boff (2003) considera que dessas premissas pode surgir uma ética que será ca­paz de incluir toda a humanidade. Essa nova ética deverá estruturar-se em torno de valo­res fundamentais ligados à vida, ao seu cuidado, ao fazer humano, às relações cooperati­vas e à cultura da não violência e da paz. “É um ethos que ama, que cuida, se responsabi­liza, se solidariza e se compadece”.

Referências
BOFF, Leonardo. Ética e moral: a busca os fundamentos. Petrópolis, RJ: Vozes, 2003.
______. Saber cuidar: ética do humano – compaixão pela terra. Petrópolis, RJ: Vozes 1999.


OS ARCANOS MAIORES DO TARÔ EM POEMAS: A PAPISA
6 de maio de 2016

Zildo Gallo

Continuando o proposto em 26 de abril de 2016, um dia outonal nublado, eu publico hoje, 6 de maio de 2016, numa noite já não tão fria de outono, um poema sobre a minha percepção da carta número 2 (dois) do Tarô de Marselha, a Papisa. Relembrando, desde 1990 eu estudo as mais diferentes versões do Tarô, desde a mais antiga, Tarô de Marselha, até as mais contemporâneas, como o Tarô dos Orixás, por exemplo. A Papisa é a segunda carta da jornada arquetípica do Tarô e, após ela, continuarei publicando um poema por semana e, ao cabo de 22 semanas, que teve início em abril de 2016, terei passado uma visão completa em forma de poesia sobre todos os arcanos maiores.


A PAPISA

Senhora das noites enluaradas,
Farol potente a alumiar
As noites do meu obtuso caminho,
O caminho ao meu mundo mais íntimo,
Profundo,
Interior.

Somente a força da face virginal
Da Grande Mãe,
A jovem feiticeira,
Pode abrir picadas
Nos emaranhados da minha alma,
Que desaparecem por completo
À luz do dia ensolarado.

Os emaranhados sombrios,
Todavia, continuam lá,
No mesmo lugar,
Embaraçando o meu caminho,
Mas eles só podem ser
Visivelmente iluminados
Pela sua pálida luz.

Senhora do livro de mistérios,
Que abre àqueles que se iniciam
No verdadeiro caminho,
Aquele que tem coração,
O único que nos leva
Ao verdadeiro Conhecimento.

Feiticeira que nos assusta,
Pois tem o poder de expor,
À sua pálida e prateada luz,
Os nossos medos
E os mais secretos desejos
E o mais secreto dos desejos
É que apenas queremos
Amar e ser amados.


OS  ARCANOS MAIORES DO TARÔ EM POEMAS: O MAGO
1º de maio de 2016

Zildo Gallo

Continuando o proposto em 26 de abril de 2016, um dia outonal nublado, eu publico hoje, 1º de maio de 2016, Dia Internacional do Trabalho, um dia frio e nublado de outono, um poema sobre a minha percepção da carta número 1 (um) do Tarô de Marselha, o Mago.  Relembrando, desde 1990 eu estudo as mais diferentes versões do Tarô, desde a mais antiga, Tarô de Marselha, até as mais contemporâneas, como o Tarô dos Orixás, por exemplo. O Mago é o início da jornada arquetípica do Tarô e, após ele, publicarei um poema por semana e ao cabo de 22 semanas, com início em abril de 2016, terei passado uma visão completa em forma de poesia sobre todos os arcanos maiores.


O MAGO
(Primeira versão: superfície)

Senhoras e senhores!
Nada nesta mão.
Nada na outra.
Ih! Sumiu...
Alguém achou a minha moeda?

Epa! Cadê o vinho do meu copo?
Quem bebeu o meu vinho?
Ih! Acho que eu mesmo derramei...
Ih! é água...
O vinho virou água?
Meleca!
Mil perdões...

Olhem para a varinha mágica!
Vapt-Vupt! Crec!
Quebrou?
As fadas me passaram a perna.
Que lixo de vara!

Agora vejam, uma adaga!
Ai! Ai! furei a mão.
Ai! sangue...
Vou desmaiar,
Brincadeira...
Quem amolou esta coisa?
Ah! fui eu... mesmo.

Chega por hoje.
Acabou o espetáculo!
Amanhã tem mais.
Acho que preciso de uma partner.
Amanhã tem mais e melhor.
Preciso de uma partner...
É muito trabalho para um mágico solitário,
Ah! quer dizer, mago.
Perdoem-me a confusão,
Mas tudo isto é muito sério,
Não posso dar-me ao luxo de errar.

O MAGO
(Segunda versão: profundidade)


Sobre a minha cabeça o meu chapéu,
Um guardião da luz,
Um Oito bem deitado (lemniscata camuflada),
Descansando o peso do infinito
Sobre os meus humanos ombros.

O infinito sobre mim
Convida-me a olhar para a pequenez
Das coisas aparentemente finitas
Postas a minha frente,
Todos os dias e todas as horas.

O infinito chama-me ao aprendizado
Do microcosmo aqui neste plano,
Do macrocosmo retrato fiel.
Água e fogo, terra e ar, elementos opostos
E cabalmente complementares.

O meu velho chapéu teima
Em me dizer que o aprendizado
Do que está acima, muito acima,
Está aqui embaixo, bem embaixo,
Na pequenez de cada célula.

A posse de um mágico bastão
Está a me dizer que o meu caminho a seguir
É transitar do “fácil” mundo da ilusão mágica
Ao mundo da magia verdadeira
Que se encontra na natureza do simples existir.
É o que preciso aprender
E muito mais...


OS  ARCANOS MAIORES DO TARÔ EM POEMAS: O LOUCO
26 de abril de 2016

Zildo Gallo



A partir de hoje, 26 de abril de 2016, um dia outonal nublado, eu comecei a postar poemas que retratam a minha visão sobre os arcanos maiores do Tarô. Desde 1990 eu venho estudando as mais diferentes versões do oráculo conhecido como Tarô, desde a mais antiga, Tarô de Marselha, até as mais contemporâneas, como o Tarô dos Orixás, por exemplo. Começo pela carta número 0 (zero), representada pela figura do louco, que no baralho de jogar (arcanos menores) equivale à figura do Curinga. Pretendo publicar um poema por semana e ao cabo de 22 semanas terei passado a minha visão sobre todos os arcanos maiores.




O LOUCO

Estou aqui
Ou ali
Ou acolá
Se me querem fico
Senão me vou
E fico
E vou
É bem assim que sou
Bem aqui aonde estou

Na minha trouxa carrego
Tudo de nada
Nada de tudo
Tudo de tudo carregar
A cabeça não me faz
Minha cabeça de vento
Leve ao vento
Leva o vento

Sempre pronto para dar
A minha mortal pirueta
E voltar
E ir
E voltar
E a minha própria sombra enganar

Não tenho rabo
Como meu cachorro tem o seu
Mas sempre atrás dele corro
Como ele atrás do seu
Suspeito que ele lá está
Sempre... sempre a me espreitar

Que me olhem
Que se espantem
Gargalho e sigo hoje
Como ontem
Em algum lugar posso parar
Mas gosto mesmo é de andar
Distraído... distraído...
Bambeando
Para lá e para cá
A beira do precipício
Sem medo do fundo vazio

Se caio
O corpo desce à terra
E o espírito alça voo
Rumo ao infinito e além
Nada ter
Nada a temer
O que perder?

Distinta plateia
Aplausos!
Aplausos!
Clap! Clap! Clap!
Senhoras e senhores
O espetáculo vai começar
E o palhaço o que é?
Ele é: é trelelé!
E chega de trololó!
Muitos me acham louco,
Outros muitos me têm como tolo,
Mas, na verdade,
Na verdade mais verdadeira,
Eu sou é um andarilho caminhado
À procura de um caminho.