quarta-feira, 30 de março de 2016

Sobre os tempos da ditadura militar e sobre a coragem de um jornalista brasileiro

Zildo Gallo
Corria o ano de 1976, eu tinha então 20 anos de idade, trabalhava numa multinacional em Americana (SP) e havia ingressado na universidade. Já me considerava um combatente de esquerda, pois ainda no colegial já me havia introduzido numa militância política possível e muito vigiada na UEA (União Estudantil Americanense) que, por descuido dos militares de plantão, não foi fechada como todas as outras entidades estudantis nos horripilantes anos de chumbo.
Naquela época, a disponibilidade de textos de esquerda, particularmente os marxistas, era muito rara. Eu e vários amigos éramos leitores do Pasquim que tentava, com bárbaras restrições, enfrentar a ditadura e o vazio cultural criado por ela,  e caçávamos leituras proibidas, o tempo todo. Lembro-me da emoção que senti e, ao mesmo tempo, do frio na espinha, quando caiu-me à mão um exemplar do Manifesto Comunista de Marx e Engels. A sua posse poderia levar-me a prestar depoimento na polícia local caso fosse descoberta. Parece absurdo mas era assim mesmo; só os que estavam lá sabem que isso é a mais pura verdade.
Naquele ano já distante, foi editado o livro-reportagem de Fernando Morais: A Ilha: um repórter brasileiro na ilha de Fidel Castro. O livro fala sobre Cuba e tornou-se um dos maiores sucessos editoriais brasileiros, transformando-se num ícone da esquerda nacional nos anos 70 do século passado. O livro aborda a Cuba pós-revolução sob diversos aspectos: cotidiano; cultura; relações com os outros países; racionamento de comida e outros bens; urbanização; educação; saúde; imprensa; mulher; eleições; justiça; reforma agrária; economia etc. Vale a pena ser lido nos dias de hoje, quando a Ilha está reatando as relações com os Estados Unidos.


Um detalhe importante a ser lembrado: o autor trabalhava naquela época na Revista Veja. Para os que os que só conhecem a versão de extrema direita da Veja de hoje, isso parece inimaginável, mas ela já foi diferente. Isso está lá, num passado já bem distante, mas é verdade, acreditem. Eu vi, eu li, sou testemunha ocular desta verdade.
A Veja mudou completamente, mas Fernando Morais não, continua coerente com os seus velhos princípios. Basta vê-lo no combate pela democracia no momento atual, quando as forças conservadoras e, inclusive, as de extrema direita colocam em risco a democracia. Alguns grupos até pedem a volta dos militares e isso me dá frios na espinha de novo. Entrei recentemente na faixa do 60 anos de idade e não gostaria de sair do meu país nestas alturas da minha existência. Bobagem... bobagem... deixa para lá...
Que droga! Desde jovenzinho dediquei anos da minha vida na luta pela democracia e pelo fim da ditadura militar e vejo agora alguns meninos e meninas exalando ódio, puro ódio, contra as esquerdas, contra os pobres, contra os homossexuais, contra tudo que é diferente do mundo deles, que é cheirosinho, riquinho e cheio de prazeres fugazes e de bens de consumo abundantes, mas totalmente desprovido de compaixão pelos que estão nos andares inferiores do edifício social, construído com o aço do poder econômico e com o cimento do egoísmo. O egoísmo cimenta alguma coisa? Acho que não. Aí está a contradição; um dia tudo isso cai...
Chega de lamentações, pois nestes tempos egocêntricos e ignorantes é preciso dizer em brados retumbantes: VIVA A DEMOCRACIA! NÃO VAI TER GOLPE! NÃO VAI TER GOLPE!
Caro Fernando Morais, Grato! Lá, nos idos de 1976 - lá se vão 40 anos - eu vivia com seu livro para cima e para baixo, indicando a todos que cruzavam o meu caminho.


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