sábado, 20 de fevereiro de 2016

Futebol de meninos: o caso do goleiro indispensável

Zildo Gallo

A minha adoração pelo futebol vem de longe, desde a primeira infância, mas foi na adolescência que ela de fato se consolidou. Como todo boleiro que se preze, tenho muitas histórias para contar, muitas mesmo, mas vou relembrar da minha experiência como goleiro, esta função que poucos desejam; todos querem ser atacantes e se imaginam marcando muitos gols. Ninguém quer ser goleiro. Como muitos, eu sempre achei que todo goleiro tem que ser um pouco louco.


Nos anos sessenta do século passado, nas brincadeiras infantis, quando dividíamos os times nos campinhos, conseguir goleiros sempre gerava alguma discussão, ou melhor, muita discussão. O revezamento era uma boa saída para a questão e geralmente era o que acontecia.

Como todos os outros meninos da minha convivência, eu preferia jogar no ataque, mas um dia isso mudou. Foi bem por acaso. Num dia, no ano de 1969, quando estudava no segundo ano do ginásio no Kennedy (Instituto Estadual de Educação Presidente Kennedy - IEEPK) em Americana (SP), numa aula de educação física, fui colocado no gol contra a minha vontade, é claro, para disputar uma partida de futebol de salão contra outra classe do segundo ano também.

O tempo regulamentar da partida terminou e o jogo estava empatado (não me lembro do placar). Fomos à disputa de pênaltis. Não costumávamos bater os pênaltis alternadamente. Em primeiro lugar um time finalizava a sua série de três e em seguida o outro iniciava a sua série. Caso houvesse empate, iniciava-se uma série alternada.

O time adversário iniciaria a sua série e, então, postei-me debaixo da trave. Não sei até hoje como aquilo se deu, foi pura magia e também um pouco de loucura, acho... Atirei-me ao encontro das bolas como que se estivesse sendo teleguiado pelos deuses do futebol e defendi os três chutes. Não me perguntem como, eu não sei. Lembro-me que os chutes foram bem dados, não foi sorte e nem erro dos adversários, juro!. A cada gol impedido comemorávamos, é óbvio... Hoje eu acredito que todo goleiro precisa ser bastante intuitivo, naquela época, como toda criança, não pensava a respeito disso. Logo depois o nosso primeiro batedor acertou o seu chute e, naquele dia e nos seguintes, virei assunto na roda dos meninos. Então, tornei-me goleiro, acabei pegando gosto pela coisa.

Fora da escola, nos campinhos da cidade, também jogava no gol. Vivia esfolado, mas ser reconhecido como bom goleiro era muito gratificante. Eu e vários meninos da classe resolvemos montar um time para competir com outros times juvenis espalhados pela cidade. Aí tem mais histórias, vou contar uma. Um garoto da minha sala de aula, que morava no bairro São Manoel, distante do centro da cidade e do Kennedy, e que não participava do nosso time, pois já tinha o seu onde residia, convidou-nos para uma partida.

Os jogadores do meu time moravam em bairros diferentes e distantes uns dos outros. Íamos aos jogos a pé, não importava a distância. Tudo pelo futebol... Também tínhamos todo o tempo do mundo No dia do jogo no São Manoel eu me perdi e não consegui encontrar o campo. No dia seguinte tive a noticia, uma má notícia: o nosso time perdeu. Todos me culparam pelo resultado negativo, mas marcaram uma revanche. Então, no dia marcado meus amigos tiveram o cuidado de passar na minha casa para seguirmos juntos até o local da partida, não queriam correr nenhum risco.

Hoje – nas alturas dos meus sessenta anos – lembro-me com nitidez do campinho do São Manoel. Era um terreno bem grande, não construído, é óbvio, e totalmente sem grama, um autêntico “rapadão”. Fechei o gol e ralei-me todo. Virei lenda... Aconteceram vários outros jogos, tanto na escola como nos campinhos da cidade, e isso durou até 1970, o ano em que o Brasil ficou tricampeão mundial de futebol no México.

Em 1971, transferi-me para o período noturno do Kennedy, pois tinha que trabalhar, e o nosso time acabou se desmanchando. As partidas de futebol tornaram-se esporádicas e eu encerrei a minha gloriosa carreira de goleiro, que não se encontra registrada em nenhuma revista, nenhum livro, nenhum filme e nenhuma fotografia. Ela está gravada apenas na minha memória e, a partir de agora, nesta humilde crônica.

PS.: a foto que ilustra o texto foi achada na internet e não lembra em nada os nossos campinhos (a trave tem rede!) que eram desprovidos de gramado. E o goleiro? Está usando luvas! Algo impensável na época.

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