terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

As sombras que assombram a humanidade

Zildo Gallo

A humanidade vive assombrada por muitas sombras milenares que a acompanham desde os primórdios da civilização. Neste artigo eu pretendo discursar sobre as três que considero mais importantes, pois elas são três elementos basilares do patriarcado: a exploração do trabalho alheio (escravatura, jornadas excessivas, baixas remunerações, trabalho infantil, insalubre etc.); a violência contra a mulher, nas suas mais diferentes manifestações (falta de liberdade, exploração sexual etc.) e; a apropriação privada do território por poucos em detrimento da maioria (propriedade privada do espaço de produção da existência).


Para entendermos esta questão e, sobretudo, a necessidade de se superar as três sombras, temos que, de antemão, compreender de que homens estamos falando. Que tipo de distorções levaram a humanidade a produzir, penetrar e perder-se nesta escuridão milenar? Para tanto, precisamos compreender três dimensões importantes que moldam o ser humano, que transformam o primata em homem. Estamos falando do homo economicus, do homo sapiens e do homo religiosus - o homem que transforma a natureza, o homem sábio que pensa a si e a natureza e o homem que transcende a sua própria natureza.

O homo economicus é a dimensão mais primitiva do ser humano e diz respeito à sua sobrevivência material. Imbuído da razão, o homo sapiens consegue pensar a sua sobrevivência material e, a partir deste pensar, elaborar estratégias diversificadas e criativas para ela. O homo religiosus deseja ir além da sua sobrevivência material e transcender a sua própria natureza humana ou, quem sabe, realizar-se efetivamente como homem, num patamar acima da sua animalidade.

Na pré-história, do paleolítico ao neolítico, os homens modernos (homo sapiens) tinham como preocupação central a luta pela sobrevivência num ambiente hostil. No paleolítico, o uso das primeiras ferramentas e das primeiras armas possibilitou uma convivência mais tranquila com o meio. A seguir, no neolítico, a introdução da agricultura sedentarizou os grupos humanos. Num primeiro momento, as relações sociais pareciam igualitárias, pois ainda não havia a apropriação do trabalho alheio e nem a dominação das mulheres pelos homens. Nos primórdios das cidades a situação se modifica, com o surgimento do trabalho escravo, do patriarcado, do casamento monogâmico, com a consequente limitação dos papéis femininos e com o assentamento da propriedade privada, os fragmentos do território dominados pelos patriarcas. Instalou-se a partir daí a trindade trevosa que comanda a humanidade desde então.

Numa situação indefesa, com conhecimentos limitados sobre o seu entorno, é bastante compreensível o surgimento da tríade obscura. Travou-se uma luta entre "fortes" e "fracos" que perdura até hoje e a questão central da luta passou a ser a sobrevivência das famílias dentro das cidades. Contudo, com o passar do tempo, a humanidade aumentou a sua capacidade de sobreviver a partir da expansão crescente do conhecimento sobre a natureza, mas, ao mesmo tempo, ela entrou num círculo vicioso, onde a oposição  entre proprietários e não proprietários, entre homens e mulheres e entre as nacionalidades tornou-se uma constante, tornou-se a forma de ser da civilização, embalada na ideia de que nem tudo dava para todos, embalada no medo permanente da escassez.

No correr da história, os povos também sonharam utopias, imaginaram mundos movidos pela abundância e onde houvesse abundância haveria paz. Imaginavam que a "providência divina", em algum momento os tiraria do sofrimento. Imaginavam uma transcendência dessa condição humana, dessa que pensam ser a condição humana, marcada pela dor e pela miséria. O desejo de transcender os limites da matéria, o círculo vicioso do sofrimento sem fim, acabou conduzindo, muitas vezes para a possibilidade de transcendê-lo numa vida post mortem. Isso ensejou a expansão das grandes religiões, que institucionalizaram a dimensão transcendental do ser humano. Para os cristãos, por exemplo, o princípio da igualdade é plenamente possível na outra vida e acreditou-se, durante muito tempo, que só ai ele seria possível. Somos todos iguais, mas neste mundo é muito difícil materializar tal principio; esta é uma crença muito arraigada ainda. Modernamente, a Teologia da Libertação enfrentou esta questão e colocou a igualdade como possibilidade no mundo material, mas ela enfrenta resistências no seio da própria Igreja Católica, de onde ela surgiu.

O ser humano, enquanto homo sapiens, imbuído da sua razão, também imagina sociedades, mundos, onde os flagelos produzidos pela ideia da escassez, que produz as diferenças entre os iguais, desapareça ou, minimamente, diminua; aí entra a política como um instrumento de uma transcendência no campo material. Então, a política é um campo aberto à utopia, ao desejo de um mundo de iguais. Todavia, ocorre que a ideia da diferença cristalizou-se entre os homens a ponto de muitos, senão grande a maioria, acreditarem-se efetivamente diferentes; são melhores nascidos, mais fortes, mais puros, adeptos da verdadeira religião, habitam o país mais civilizado etc., o que contribui para lançar água no moinho (moto contínuo) da separação e das guerras.


Ocorre ainda outra situação naturalmente adversa, porém mais sutil: por mais que a sociedade possa ser igualitária, a vida na matéria é frágil, perecível e finita e também sujeita a muitas intempéries e acidentes. Assim, o desejo latente por uma transcendência para além da matéria atua nos homens como um elemento estabilizador da sua personalidade, criando o espaço da espiritualidade, que está posto num local atemporal, acima das religiões, no inconsciente coletivo da humanidade. Então, o homo religiosus é um importante elemento constitutivo da psique humana. Reprimir tal aspecto da existência (intolerância religiosa), como muitas vezes aconteceu e como ainda acontece, basta observar o fundamentalismo religioso contemporâneo, é um ato pernicioso ao desenvolvimento pleno das potencialidades humanas.


Neste começo do século XXI, dos pontos de vista da produtividade da economia e do conhecimento sobre a natureza, é possível afirmar que a pobreza extrema, a fome, a carência de moradias salubres, a falta de educação escolar entre outras questões mais afeitas ao homo economicus, já poderiam estar plenamente superadas. Em vez disso, o que temos? Ainda há fome, doenças de veiculação hídrica, analfabetismo, favelas etc. e, sobretudo, uma brutal e injustificável concentração de renda. A humanidade ainda se encontra enredada no círculo vicioso do medo primitivo da escassez, que continua engendrando diferenças sociais e alimentando a concepção do modo "natural" de ser da humanidade, muitas vezes justificado por estúpidas concepções sociais neodarwinistas, que separa os seres humanos em mais e menos aptos. Só muita falta de visão, provocada pelas brumas da ideologia liberal dominante, eivada de individualismo e utilitarismo, para conceber uma luta permanente por comida num mundo repleto de desperdícios injustificados e de crescente obesidade mórbida, não só a dos Estados Unidos, mas também a de países emergentes como o Brasil, por exemplo.

Outra questão incompreensível no estágio de desenvolvimento da economia no século XXI é a superexploração do trabalho ainda persistente. O estágio atual do acúmulo tecnológico já permitiria jornadas mais reduzidas e flexíveis de trabalho. Estaríamos já bem próximos da sociedade do ócio imaginada por Paul Lafarge, mas esta está longe de ser uma realidade. A exploração excessiva do trabalho humano ainda prevalece e se faz acompanhar das baixas remunerações que não garantem uma vida digna aos trabalhadores. Esta ainda é uma grande sombra que ainda assombra a humanidade, principalmente nos países pobres, com destaque para os africanos.


A inferiorização da mulher no século XXI ainda é muito presente e, em muitos países, ela chega à beira da irracionalidade. No oriente ela é mais visível e mais absoluta, abrangendo amplos aspectos da vida cotidiana. No ocidente ela é mais sutil e se encontra mais claramente no mundo do trabalho. A exploração do trabalho feminino é maior e a sua remuneração menor é a ponta do iceberg desta questão. Outra forma sutil de exploração da mulher no ocidente encontra-se no campo da sexualidade, onde o corpo feminino transforma-se em valiosa mercadoria. Por exemplo, as revistas eróticas são um grande negócio e as suas modelos são regiamente remuneradas, o inverso do que acontece com a remuneração das mulheres nas fábricas e nas fazendas. O mercado conseguiu uma grande façanha: transformou a liberdade sexual conquistada com muita luta a partir dos anos 60 do século passado em mercadoria com alto valor agregado. A condição feminina e a sexualidade humana continuam ainda hoje envoltas por uma grande sombra.


Diante do exposto, a questão central que se coloca é a seguinte: o ser humano para se desenvolver, para conseguir atingir o potencial inato imanente nas suas três dimensões (econômica, racional e transcendental) necessita de liberdade. A dimensão econômica serve como alicerce das outras duas. Contudo, conforme estudos de Thomas Piketty (O capital no século XXI), a renda nunca esteve tão concentrada como está agora e, consequentemente, a propriedade privada dos meios de produção. A concentração da riqueza permanece, no correr dos séculos, como uma grande sombra a obstar as luzes necessárias à expansão do espírito humano. Uma sociedade com distribuição da riqueza mais justa pode garantir maior acesso ao conhecimento e à cultura, liberando o ser racional especulador e criativo de cada membro seu, libertando-a da ignorância que agora funciona como um véu a encobrir as verdadeiras causas dos flagelos por ela vividos. Uma sociedade liberta da faina incessante pela sobrevivência e que garante a liberdade aos indivíduos de buscarem realizações além do mundo material pode contribuir para a expansão da sua dimensão transcendental.

Assim, a liberdade para criar é fundamental, pois a criação, com destaque para a criação artística, tem enorme potencial transformador. A arte costuma falar com uma linguagem que extrapola a razão e que coloca os seres humanos diante de outras possibilidades, possibilidades não materiais, mas, ao contrário, sensíveis, que se colocam mais nos campos intuitivo e afetivo e que podem tornar os homens mais sensíveis e compassivos.


E, falando de homens mais compassivos: a compaixão é a essência mais profunda do ser humano e ela se apresenta menos no campo material da existência e muito mais no campo do espírito, é um sair de si, um abandono positivo de si e um aproximar-se do outro, numa alteridade positiva, enxergando no outro um igual e, ao mesmo tempo, um diferente e, sobretudo, aceitando a sua diferença, vendo no outro você mesmo. Desaparece a separação e, extrapolando e extremando a dimensão da alteridade, quem é o outro? O outro são todos os seres que navegam na nave-mãe Terra. A partir daí, o homem abandona o seu papel de conquistador, de guerreiro, e assume o seu papel de cuidador, de jardineiro dos jardins da criação.



PS.: este texto foi produzido originalmente para o Grupo de Estudos de Ecologia Profunda do Curso de Pós-Graduação (mestrado e doutorado) do Centro Universitário de Araraquara, do qual eu participei entre os anos de 2011 e 2012.

Artigo publicado originalmente neste blog em 12 de maio de 2015 sob o título "A humanidade assombrada".


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