quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Explicando o bom caminho do desenvolvimento sustentável

Zildo Gallo

Modelo da sustentabilidade
Social: social
Bearable: suportável
Equitable: equitativo
Environment: meio ambiente
Economic: econômico
Sustainable: sustentável
Viable: viável


Primeira afirmação: a atividade econômica real ocorre na natureza, a partir da natureza, naquilo que se convencionou chamar de meio ambiente, de onde se presume, de imediato, que a mera especulação financeira, por conta da sua clara autofagia e afastamento da economia real, está fora do modelo da sustentabilidade.
Segunda afirmação: o crescimento econômico por si só, envolvendo a atividade econômica e o meio ambiente (matérias primas, recursos energéticos etc.) não se justifica sem uma âncora social, uma função social abrangente.
Terceira afirmação: a sustentabilidade do ponto de vista ambiental implica em não ir além do ecologicamente suportável, o que significa não esgotamento dos recursos naturais e não produção de externalidades negativas com é o caso da poluição (águas, ar e solo) e da eliminação das áreas verdes; a capacidade de suporte varia de acordo com os diferentes meios naturais, existem ambientes mais frágeis e menos frágeis.
Quarta afirmação: o objetivo social do desenvolvimento deve ser a inclusão social, o que implica na busca incessante pela igualdade social; o crescimento econômico que não mira a igualdade e que concentra riquezas não pode se encaixar no modelo da sustentabilidade.
Quinta afirmação: os projetos e empreendimentos econômicos necessitam da sua viabilidade econômica para que evoluam no tempo e no espaço, caminhando no sentido da produção da riqueza, tanto material como cultural, para a geração de efeitos sociais benéficos a todos.
Sexta afirmação: para que o modelo da sustentabilidade se realize, economia, bem-estar social e preservação ambiental devem sempre ser inseparáveis.
Sétima afirmação: para que a sexta afirmação se confirme e a sustentabilidade se materialize, em todos os planos e projetos devem ser consideradas a capacidade de suporte (Bearable) de cada bioma, a viabilidade econômica (Viable), destacando a de longo prazo, e a satisfação social (Social) amplamente produzida e distribuída.
Considerações sintéticas
Do ponto de vista econômico, as sete afirmações acima chamam para a necessidade do planejamento, pelo motivo que segue: não é possível pensar a preservação do equilíbrio ambiental, o bem-estar social e a viabilidade econômica durável no curto prazo. O mercado enquanto alocador de recursos (capital e trabalho) atua no curto prazo, onde tem a sua eficiência, pois visa o retorno imediato dos investimentos individuais realizados e a imediata satisfação dos desejos dos consumidores. O Estado, por sua vez, tem que ir além dos retornos individuais e, assim, mirar os retornos coletivos de longo prazo, que são da sua verdadeira alçada. Então, pensar realmente a sustentabilidade do desenvolvimento econômico significa (implica em) recolocar a necessidade do PLANEJAMENTO. Só que doravante planejar tornou-se uma questão um pouco mais complexa, pois foi introduzida a variável ambiental. É preciso produzir riqueza (Economic), reparti-la (Social) e, ao mesmo tempo, garantir que a natureza (Environment) com um todo continue reproduzindo a vida no longuíssimo prazo com a qualidade adequada. Os resultados do planejamento só serão sustentáveis  (Sustainable) se ele for conduzido conforme o Modelo da Sustentabilidade aqui esmiuçado.
FUI CLARO?


segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

O MENINO, SEU PÉ DIREITO E A BONECA RUSSA

Zildo Gallo
Sempre tive boa memória e ela recua muito no tempo, aos primórdios da minha infância. Em 1958, nem tinha completado três anos de idade, e tinha me mudado com minha família da zona rural para a cidade de Itápolis (SP). Tenho lembranças de que não gostei disso, pois guardo algumas boas lembranças do sítio, em particular do Catolino. No meu português de dois anos era assim que me referia ao meu cachorro (catolino = cachorrinho), que era um bonito perdigueiro, bem maior que eu e que sempre estava em todos os lugares onde por ventura me encontrava. Catolino também mudou-se conosco para a cidade e isso foi bom, tenho um longínquo sentimento de segurança com a memória da sua presença.


Assim que nos estabelecemos na nova moradia que ficava nos fundos de uma grande mercearia, logo depois casa da família do comerciante que com ela estava conjugada, a minha sorte mudou para pior. Era um lugar agradável, que tinha um grande quintal e uma frondosa mangueira, mas coisas ruins podem acontecer em lugares agradáveis. De imediato, apenas alguns dias depois da nossa chegada, fui informado que roubaram o Catolino, que ele tinha sido levado por um sitiante em cima da carroceria de um trator, foi o que me disseram... A lembrança da minha tristeza daquele dia distante ainda hoje dá sinais, como uma imagem fantasmagórica.
Havia um menino, um pouco mais velho que eu, que vivia me agredindo. Não tenho lembranças de ter sido agredido antes, muito menos com tanta frequência. Parece-me que o garoto era neto do dono do armazém. A história tinha lá suas complicações já que a minha mãe fazia alguns serviços domésticos para a sua família. Vem-me a memória que, além de apanhar, eu tinha que ficar quieto. Às vezes, o que está ruim pode piorar e assim aconteceu.
Naquele ano, aconteceu uma eleição para governador do Estado de São Paulo. Os principais contendores eram Jânio Quadros e Ademar de Barros. Parece que meu pai votaria em Ademar, não tenho certeza. Um dia, quando eu me encontrava  próximo do portão que dava para a rua, alguém me deu um folheto com uma foto grande do candidato Ademar. Saí correndo em direção à minha casa para mostrá-lo à minha mãe. Corria sem olhar para o caminho com o panfleto levantado pelas duas mãos à frente do meu rosto e não vi o perigo logo adiante. Havia uma lata com água sobre uma fogueira acesa, cercada por tijolos onde a lata se sustentava, nela minha mãe fervia as roupas encardidas por meu pai no seu trabalho na terra. Apressado e distraído, enfiei o meu pé direito na lata com água fervente.


A queimadura foi instantânea e a dor incalculável. Fui levado às pressas ao médico, que me untou o pé com pomada e, em seguida, voltamos para casa. Mas com o passar dos dias o ferimento infeccionou e, dessa vez, fui levado a hospital da cidade. Ali a situação ficou macabra. Acho que a anestesia  não pegou direito e, a cada pedaço de pele que o médico arrancava, eu urrava. Do alto dos meus sessenta anos ainda ouço aqueles gritos. A recuperação foi bem lenta e, após a cura, uma mancha escura instalou-se sobre o meu pé e ali permaneceu durante muitos anos da minha vida, por décadas e, aos poucos foi diminuindo. Só agora me dei conta de que ela quase desapareceu. Acho que por isso ficou fácil escrever sobre esse episódio doloroso. Ah! ia me esquecendo: Jânio Quadros foi eleito governador e o derrotado Ademar de Barros reassumiu a Prefeitura de São Paulo, onde era o mandatário.
As memórias que carrego há muitíssimos anos daquela casa na cidade de Itápolis não são agradáveis. Ainda bem que as coisas podem mudar. Mudamo-nos para um pequeno sítio que ficava colado ao meio urbano de Itápolis. Uma prima do meu pai morava lá e, com o seu marido, cuidava da propriedade para uma família muito rica da cidade de São Paulo. No sítio eram criadas vacas leiteiras e porcos e havia um grande pomar com muitas árvores frutíferas, com destaque para as mangueiras. Meu pai foi contratado para cuidar dos porcos. Lá a história foi outra.
Fiquei muito amigo da filha menor do casal, que devia ter a mesma idade que a minha. Passávamos muito tempo juntos, brincando sob a sombra das mangueiras. Lembro-me que, numa das vezes que os proprietários paulistanos vieram visitar a propriedade, no amplo gramado que havia diante da casa da prima do meu pai foi esticado um pano branco entre dois paus, formando uma tela e nela foram projetados filmes. A família paulistana gostava de cinema e dividia esse gosto com os seus empregados. Pela primeira vez na minha vida vi um filme e lembro-me de um desenho animado. Foi um alumbramento...
Todavia, não ficamos muito tempo naquele lugar, pois novos compromissos de trabalho levariam a minha família à cidade de Borborema (SP), só que a família estava maior, pois tinha nascido a minha irmã. A tempo: a prima do meu pai e seu marido tornaram-se meus padrinhos de crisma. Tenho boas lembranças deles.
Acredito que, desses dois episódios que aqui narrei, retirei os meus ensinamentos primeiros. Acho que comecei a compreender que a vida é mesmo assim, com momentos bons e ruins, às vezes muito bons e às vezes muito ruins. Olhando hoje para os idos de 1958 e 1959, observo que aquele menino com o pé direito machucado ainda vive, ele vive dentro de mim com todo seu vigor. Vive, assim como vive o menino que ia para a escola primária no Centro Educacional SESI 101, em Americana (SP), e o adolescente rebelde do final dos anos sessenta e dos anos setenta do século passado. Diante desta curta história, a imagem que me vem é a de uma boneca russa. Ela se constitui de uma série de bonecas, feitas geralmente de madeira, colocadas umas dentro das outras, da maior (exterior) até a menor (a única que não é oca). Assim, o menino do pé direito queimado é a boneca menor e cada boneca, uma após a outra, em sucessivas camadas, tem a memória do seu tamanho, do seu tempo,. Cada camada (cada boneca) é como um capítulo de um livro que pode ser relido aleatoriamente a qualquer momento.



sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

O Imperador, a Vila Americana, a estação ferroviária, a "Cascavel da Geórgia" e a rainha do rock

Zildo Gallo


Nos idos de 1875, um apaixonado pela ainda relativamente recente arte da fotografia discursava e se deixava fotografar na pequena Vila Americana, um lugarejo que pertencia ao  pequeno município de Santa Bár­bara, na Pro­víncia de São Paulo. Era Dom Pedro II, o Imperador do Brasil. Alguns dos ouvintes talvez nem entendiam as suas palavras, mas, com toda certeza, sabiam da sua importân­cia. Eram homens e mu­lheres habituados à língua inglesa, chegados a pouco no Brasil, moradores da Vila, com seus tro­les, carroças e roupas de fe­riado, acompanhando a inauguração da estação ferroviária de Santa Bárbara D'Oeste, que foi edificada às margens do rio Quilombo, à época um córrego de águas límpidas, abundantes e repleto de peixes. Foi uma efeméride marcante, que contou com a presença da então autoridade máxima do Brasil de então: Dom Pedro II, o Imperador.


A inauguração da estação ferroviária da Companhia Paulista de Estrada de Ferro trazia esperanças e possibilidades de bons negócios a essas pessoas que vi­viam do trabalho na terra. O plantio do algodão, já há alguns anos, não garantia os melhores resultados financeiros aos colonos ameri­canos, refugiados sulistas, outrora confederados, que começaram a se ins­talar na região nos últimos anos da década de sessenta do século XIX. A ferrovia serviria como escoadouro veloz – a rapidez era necessária – de um novo produto, um produto perecível, uma variedade de melancia ainda desconhecida no Brasil, a “cascavel da Geórgia”.


A agricultura canavieira para a fabricação de aguardente, que também era uma atividade econômica muito lu­crativa na­quela época, foi uma alterna­tiva abandonada por várias famílias americanas, já que não era condizente com os seus valores protestantes. Outros imigrantes americanos, por seu turno, imbuídos de um pragmatismo mercantil, também característico às populações praticantes das religiões oriundas da reforma protestante, descon­sideraram as restrições religiosas, construíram seus enge­nhos e também foram bem sucedidos, ainda que sem as necessárias e reconfortantes bên­çãos do Senhor. Não importa a nacionalidade e nem os valores religiosos, os seres humanos costumam ser incoerentes e "negócio é negócio". Com o trem, muitas vezes mais veloz que as velhas carroças, a "cascavel da Geórgia" tornar-se-ia uma boa alternativa de negócio.
O imigrante norte-americano tinha bons motivos para comparecer à inauguração da estação, pois Dom Pedro II foi um grande incentivador da sua vinda ao Brasil, tratava-se um tipo de retribuição. Além disso, pouco tempo depois da sua chegada, ele recebeu de presente uma estação de trens bem na porta da sua casa. Um baita presente para ajudar no esquecimento das agruras da Guerra de Secessão. Em retribuição ao acolhimento da nova pátria, os americanos sulistas introduziram as sementes dessa deliciosa melancia, que se esparramou por todo o território nacional.
Apesar do seu nome assustador, a cascavel enquanto melancia, trata-se de um saboroso presente, sem dúvida alguma. Muitos anos depois, no período republicano, no século XX, os descendentes dos norte-americanos presentearam os brasileiros com outro excelente presente: Rita Lee, a nossa Rainha do Rock. As coincidências da vida: o rock surgiu nos EUA e a nossa maior roqueira descende dos americanos sulistas; não acredito em coincidências, mas, seguindo as pegadas do Doutor Carl Gustav Jüng, acredito em sincronicidades; este é um bom exemplo de sincronicidade, ao meu ver.


Contei esta pequena história, recheada de alguma fantasia, para simplesmente homenagear os moradores (imigrantes do sul dos EUA) que deram o nome à cidade onde vivi, da minha infância até os meus trinta anos de idade, e também para agradecer-lhes pela melancia, que muito aprecio, e por Rita Lee, a quem aprendi a admirar desde o início da sua brilhante carreira.


terça-feira, 19 de janeiro de 2016

BREVE MANIFESTO DAS URGÊNCIAS URGENTÍSSIMAS DO SÉCULO XXI


ZILDO GALLO



A URGÊNCIA DE UMA ÉTICA PLANETÁRIA
É cada vez mais necessária e urgente a construção de uma ética planetária. É preciso fundar um novo ethos para garantir doravante o convívio entre os homens e destes com a natureza e todos os seres que nela vivem. O PLANETA TERRA NÃO É SÓ DOS HUMANOS e a almejada sustentabilidade deve abranger não só as gerações futuras dos humanos, mas também as de todos os demais seres que convivem com eles neste mundo (de imediato este aprendizado deve ser aceito e incorporado por todos).
A URGÊNCIA DE UMA ÉTICA PARA A ECONOMIA
A aproximação entre a ética e a economia é cada vez mais necessária, mais que necessária neste tempos onde o capitalismo financeiro transformou-se num verdadeiro cassino (vide a crise de 2008). Nas profundezas de sua essência, o objetivo primordial do sistema econômico deveria ser ético: o bem-estar, O BEM-ESTAR DE TODOS QUE VIVEM E CONVIVEM NO PLANETA TERRA (o sistema econômico precisa ser mais solidário e menos competitivo, o ser humano precisa ser mais solidário e menos competitivo).
A URGÊNCIA DO FIM DA POBREZA
Como ainda tem muita pobreza no mundo, podemos concluir que, por muitos anos ainda, o crescimento da economia deve continuar necessário. Contudo, ele não pode se dar nos antigos moldes, concentrando renda e destruindo o meio ambiente. DESCONCENTRAR RENDA E ELIMINAR A MISÉRIA DEVE SER O OBJETIVO PRIMEIRO DA ECONOMIA MUNDIAL (a liberdade, este bem essencial aos seres humanos, só é possível com a inclusão social).
A URGÊNCIA DE UMA ECONOMIA ECOLÓGICA
O compromisso da economia como ciência e como prática também deve ir além do exclusivo bem-estar dos homens, devendo considerar todos os demais seres que vivem na Terra. OS HUMANOS DEVEM ABANDONAR A ANTIGA E ULTRAPASSADA CONDIÇÃO DE PREDADORES E DEVEM ASSUMIR A CONDIÇÃO DE CUIDADORES (o novo paradigma da sociedade humana deve deslocar-se da conquista para o cuidado, que deve abranger toda a humanidade e todos os demais seres).
A URGÊNCIA DE UM NOVO TIPO DE GLOBALIZAÇÃO
As crises ambientais, econômicas e sociais que abalam o planeta Terra hoje, com consequências ainda não tão previsíveis (será que não são mesmo?), levam-nos a concluir que a morada humana não pode mais se limitar ao estado-nação, ela deve se estender por toda a Terra. O mundo globalizou-se e com ele os problemas. Cada questão de cada canto da Terra virou um problema de cada um de nós, que pensa, produz e consome. Hoje, como em nenhuma outra época, nossa casa global exige que estejamos sempre atentos às consequências dos nossos atos ao produzirmos e consumirmos. A NOVA GLOBALIZAÇÃO DEVE SER INCLUSIVA E ECOLÓGICA E NÃO APENAS MERCADOLÓGICA (não tem outra possibilidade, pois a competição e o consumismo desenfreados, características do atual estágio do capitalismo, estão conduzindo a humanidade e o meio ambiente a situações de colapso).
A URGÊNCIA DO FIM DAS INTOLERÂNCIAS
A não aceitação das diferenças como as raciais, culturais, de gênero, de religião etc. tem produzido muita violência, inclusive guerras. Efetivamente, o mundo é multicultural, multirracial, multirreligioso e muitos outros multi e essa é a grande beleza da humanidade. A HUMANIDADE PRECISA GLOBALIZAR A TOLERÂNCIA (a marca principal da nova ética planetária deve ser a aceitação, pois, ao mesmo tempo que somos todos iguais, também somos todos diferentes).
AS MUDANÇAS SÃO NECESSÁRIAS E, A CADA DIA QUE PASSA, MAIS URGENTES!


LEIA TAMBÉM NESTE BLOG:
Que tal mudar de rumo em 2016?
http://zildo-gallo.blogspot.com.br/2016/01/que-tal-mudar-de-rumo-em-2016.html

O necessário retorno à natureza: nova cultura e nova economia


terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Que tal mudar de rumo em 2016?

Zildo Gallo



Passadas as comemorações da passagem de ano, regadas em larguíssima escala com bebidas alcoólicas e, em alguns casos, com drogas dos mais variados tipos, não esquecendo também da memorável e nababesca orgia gastronômica, iniciamos o ano de 2016 DC. Como todo fim de ano, como já tem sido há muito tempo, muito tempo mesmo, tratou-se de um ritual de passagem marcado pelos prazeres mais imediatos dos nossos sentidos. Tudo bem, já passou... Não sejamos falsos moralistas, mas o restante do ano não precisa ser assim. Alguma concordância?
Para o bem do planeta Terra e de toda a humanidade, faz-se mais que necessária alguma moderação ou, melhor, muita moderação. Trata-se de uma austeridade inteligente, já que o mundo ao nosso redor nos chama o tempo todo para que nos entreguemos ao "império dos sentidos". A indústria da propaganda insta-nos a que consumamos e ela aponta a forma e a intensidade do consumir. Os chamamentos são muito tentadores, quase irresistíveis. É preciso perseverança.
Isto posto, é preciso muita atenção, pois o chamado do imediatismo prazeroso é muito forte e movimenta volumes estratosféricos de recursos econômicos e naturais do nosso planeta. Além disso, mergulhar no mundo do consumo exagerado, supérfluo e ostentatório apenas serve para nos manter na superfície, impedindo que ganhemos profundidade, que enxerguemos além do mundo material/sensorial que nos rodeia. Trata-se de uma prisão sem grades, onde vivenciamos uma sensação de liberdade, mas onde, de fato, não somos verdadeiramente livres.
Quanto mais temos condições econômicas para consumir, mais nos sentimos "livres", pois passamos, a partir da consolidação da moderna "sociedade de consumo", a enxergar a liberdade, esse bem imaterial necessário à evolução do espírito, como mera capacidade de consumir. Trata-se de uma grosseira redução, um apequenamento da condição humana, da condição para que nos tornemos verdadeiramente humanos.
A orgia consumista continuará a fazer os seus estragos ambientais, sociais e espirituais enquanto não percebermos o quanto estamos perdidos neste labirinto hedonista, onde o que conta é o prazer imediato de cada dia. A saída do labirinto começa pela tomada de consciência do engano vivido e, a partir daí, pela prática da austeridade inteligente. Consumir o necessário, o que é saudável, o que não prejudica a natureza, não desperdiçar e, principalmente, não se deixar enganar pela gigantesca máquina da propaganda a serviço do capital predatório, este é o caminho da austeridade.
Pode parecer moralismo, mas não é. A mãe Terra já está sentindo as dores do nosso desregramento e ela já está reagindo. O nosso planeta é um sistema vivo, trata-se de uma imensa rede de relações e precisamos enxergar o nosso papel dentro desta rede, desta imensa "teia da vida". Enquanto seres humanos, do ponto de vista biológico, estamos no topo da cadeia alimentar e, por enquanto, agimos como predadores. Precisamos dar um salto qualitativo (trata-se de um salto de caráter marcadamente espiritual), migrando da condição de bárbaros predadores para a condição de conscientes cuidadores.
Podemos começar com fazeres aparentemente bem simples: preparar o próprio alimento, diminuindo o consumo de alimentos muito processados; adquirir produtos da agricultura orgânica, criando uma demanda firme para sustentar a pequena agricultura; usar os recursos hídricos com parcimônia; quando comer fora, procurar restaurantes que trabalhem com alimentos saudáveis, principalmente os que utilizam produtos da agroecologia etc.
Em 21 de setembro de 2016 eu postei neste blog o artigo "Mandamentos para o cidadão politicamente correto no século XXI" onde elenquei 37 sugestões aleatórias no sentido de que possamos produzir um mundo melhor para as gerações futuras. Adiantando: não são nada fáceis e algumas implicam em grandes mudanças pessoais e coletivas. Sobre algumas eu acho que pode não haver consenso, mas, no meu ponto de vista, muitas delas são extremamente necessárias neste momento de crise planetária. A crise é geral: econômica, social, ambiental e de valores. Sugiro estes "mandamentos" (outros podem ser incluídos, à vontade de cada um) no sentido de que possamos pensar, a partir de cada um deles, sobre o que estamos fazendo ou não fazendo para melhorar as condições de vida da humanidade e de todos os demais seres que vivem no colo de Gaia, da nossa mãe Terra, que, neste momento, chora e reage às dores ante tanto sofrimento produzido por seu filho mais rebelde, o homem. Reproduzo aqui as sugestões do artigo como indicações de possíveis austeridades inteligentes para o ano que se inicia:
1) Consumir preferencialmente produtos orgânicos, pois eles são amigáveis ao meio ambiente e à saúde;
2) Não consumir e não estimular o consumo de alimentos transgênicos, pois eles fazem mal à saúde e ao meio ambiente;
3) Não consumir madeira não certificada, pois ela pode provir de desmatamentos ilegais, como aqueles que acontecem na Amazônia;
4) Não comprar roupas, calçados e outros produtos de empresas que utilizam mão de obra similar à escrava;
5) Não consumir desnecessariamente e não estimular o consumismo na sua família;
6) Ajudar na coleta seletiva de resíduos, separando os recicláveis dos orgânicos e destinando-os corretamente;
7) Não desperdiçar e não poluir a água no seu dia-a-dia;
8) Não fumar e não estimular o consumo de tabaco;
9) Beber com moderação, muita moderação, e não estimular o consumo de bebidas alcoólicas;
10) Não usar drogas ilícitas e desestimular o seu consumo;
11) Não ver e não ouvir, nas TVs e nas rádios, programas que estimulem violência, pessimismo, preconceitos raciais, culturais, de gênero etc.;
12) Não estimular o pessimismo, repassando sem pensar, sem questionar, ideias pessimistas veiculadas pela maioria dos meios de comunicação do mundo, pois a imprensa ainda acredita que o que vende jornais é a desgraça;
13) Contribuir para a inclusão social, estimulando ONGs e governos (federal, estadual e municipal) que trabalham neste sentido;
14) Diminuir o consumo de fast foods e desestimular o consumo na sua família, com o objetivo de melhorar a saúde das pessoas;
15) Frequentar restaurantes e lanchonetes que privilegiam produtos naturais (pouco processados pela indústria) e orgânicos, preferencialmente;
16) Consumir açúcar moderadamente e buscar a moderação do consumo familiar;
17) Consumir menos carne, muito menos, em particular a bovina, que exerce pressão sobre as florestas, estimulando o desmatamento e expandindo a fronteira agrícola, como acontece hoje na Amazônia;
18) Andar menos de veículos automotores particulares, dando preferência ao transporte coletivo e às bicicletas, diminuindo o congestionamento e a poluição do ar;
19) Na limpeza doméstica, procurar produtos biodegradáveis, que não poluem os corpos d'água;
20) Buscar uma espiritualidade desinteressada e desprovida de quaisquer preconceitos, em particular em relação às diferentes religiões;
21) Respeitar os que pensam diferente, mantendo um debate de alto nível e construtivo, não buscando desqualificar ou destruir os seus oponentes, como acontece hoje nas redes sociais;
22) Respeitar as crianças e os adolescentes, que precisam ser conduzidos por uma educação que estimule a criatividade e a liberdade e não por uma educação repressora do tipo "militar";
23) Defender o direito a todos à educação e à saúde e estimular instituições e governos que trabalhem neste sentido (educação e saúde são muito mais direitos que negócios);
24) Rejeitar toda forma de violência, desde a doméstica, passando pela policial, até a guerra, estimulando os movimentos pacifistas e os governos que atuam neste sentido;
25) Estimular e/ou praticar a boa arte, aquela que introduz valores (paz, beleza, igualdade, liberdade, fraternidade etc.) humanos e aquelas que denunciam as desumanidades;
26) Buscar o contato com a natureza e a prática de esportes saudáveis sempre e estimular isto na sua família;
27) Combater a violência em relação aos animais, como touradas, rodeios, brigas de galo etc.;
28) Festejar e celebrar mais e reunir mais os amigos;
29) Cultivar jardins e hortas nas suas residências, até em apartamentos (é possível), como exercício de contato com a natureza para os que moram nas cidades, principalmente;
30) Buscar fazer a sua própria comida, sempre que possível, evitando industrializados excessivamente processados, dando preferência aos produtos orgânicos;
31) Participar da vida comunitária para contribuir com a solução das questões coletivas, como educação, saúde, lazer, segurança etc.;
32) Preocupar-se com os seres humanos que moram de formas inadequadas (favelas, cortiços, na rua etc.) e apoiar instituições e governos que buscam soluções para esse problema (morar dignamente é um direito e não um privilégio);
33) Preocupar-se com as crianças e os idosos desamparados e apoiar instituições e governos que buscam ampará-los;
34) Compreender que as drogas são uma questão de saúde pública e não de polícia e apoiar instituições e governos que buscam enfrentar esse problema;
35) Defender o reflorestamento amplo do planeta, inclusive plantando árvores, pois ele abrandará a crise hídrica, ajudará a diminuir os efeitos do aquecimento global e possibilitará a sobrevivência das outras espécies animais que conosco dividem o planeta Terra (Plante árvores!);
36) Viajar mais para conhecer pessoas e povos diferentes, de diferentes culturas, para alargar seus horizontes pessoais e culturais (viajar não deve ser um privilégio);
37) Não ser preconceituoso e aceitar que a humanidade é multicultural e multirracial e que a beleza é caleidoscópica no seu sentido mais amplo.
Tentando finalizar: definitivamente, a beleza é caleidoscópica, pois ela se encontra em permanente movimento, em permanente transformação, como as pedrinhas brilhantes dentro de um caleidoscópio (nele as possibilidades são infinitas) que formam, a cada movimento, imagens novas, que nunca se repetem e que não podem ser previamente pensadas; não há como bater-se contra isso, como desejam os conservadores, não há como barrar o movimento do universo; refinando: o ser humano é caleidoscópico, pois se encontra em constante mutação e as suas possibilidades são infinitas, como as das pedrinhas coloridas no caleidoscópio.
A IDEIA É A SEGUINTE: AS MUDANÇAS SÃO NECESSÁRIAS; HÁ QUE SE COMEÇAR DE ALGUM LUGAR; INICIAR UMA RECONEXÃO COM A NATUREZA ATRAVÉS DE UMA HORTA DOMÉSTICA OU DE EXERCÍCIOS AO AR LIVRE, COMO ANDAR DE BICICLETA,  SÃO BONS COMEÇOS. É SÓ COMEÇAR... QUE TAL EM 2016?
FELIZ ANO NOVO!!!!!!!!!


sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

A origem mítica do nome da cidade de Atenas (Grécia): um tributo à agricultura

Zildo Gallo





A mitologia grega é muito rica e rivaliza em importância com a mitologia hindu, que também é muito rica e complexa e tem significativa influência na porção oriental do planeta, enquanto a grega age sobre todo o Ocidente. Ela está presente na literatura, no teatro, na psicologia, na filosofia, nas artes plásticas etc. Uma das divindades mais importantes do panteão helênico é Atena, a quem se atribui a invenção da flauta, do trompete, da arte cerâmica, do arado, da sela, da carruagem e do barco. Para os gregos ela foi a primeira divindade a ensinar a matemática e as artes femininas como cozinhar, tecer e fiar. Embora ela seja uma deusa da guerra, ela não sente prazer na batalha, como é o caso de Ares, pois prefere apaziguar os ânimos e resolver os conflitos por meios pacíficos. Na verdade, por conta dos seus atributos, ela pode ser considerada uma deusa da diplomacia muito mais do que da guerra. Abaixo segue um episódio que mostra a sua generosidade em relação aos seres humanos, à ele!

O nome da cidade de Atenas (capital da Grécia e berço da democracia) tem origem num mito, o mito que fala de uma disputa entre dois poderosos deuses do Olimpo: Atena e Poseidon (senhor do mar). O nome da cidade homenagearia quem presenteasse os habitantes com a dádiva mais preciosa.

Então, aconteceu uma disputa. Poseidon rasgou o chão com o seu tridente e dele emergiu um majestoso cavalo, um animal veloz e muito útil na guerra. Atena, por sua vez, bateu no chão com a sua lança e dele brotou uma planta de folhas prateadas, que imediatamente carregou-se de frutos, tratava-se da oliveira.

A oliveira é a mais nobre das plantas que crescem às margens do Mediterrâneo. É uma planta capaz de resistir às secas e de rebrotar depois de destruída pelo fogo. Sua madeira é muito forte e dos seus frutos é extraído o azeite, que era usado pelos povos antigos como alimento (ainda é largamente usado assim), como fortificante para os músculos dos atletas e dos guerreiros e como combustível para iluminar as casas e os templos.

O povo não teve dúvida e por decisão unânime considerou Atena a vencedora e ergueu em sua homenagem um santuário no ponto mais alto da cidade (akropolis). Quando temperavam com azeite a sua comida ou quando ungiam os seus corpos para enfrentar uma dura prova nos jogos olímpicos, os gregos experimentavam a sensação de entrar em comunhão com a deusa.

O que se ressalta desse mito é o fato de um povo tão patriarcal como os atenienses ser tão devoto de uma divindade feminina, uma deusa de origem muito antiga, que teria nascido na Líbia, no norte da África, e passado posteriormente por Creta, antes de ser adotada pelos gregos, que a colocaram no seu panteão como filha de Zeus. Nada disso é estranho, pois a mitologia grega guarda muitos elementos matriarcais oriundos dos povos que viviam no território grego antes dos gregos, trata-se de um tipo de sincretismo.

O mito além de homenagear a Deusa, lembra da importância da agricultura para o desenvolvimento das cidades, da civilização. As práticas agrícolas serviram para sedentarizar os seres humanos, fixá-los num determinado território e, a partir dele, produzir um processo cultural que os lançará numa aventura rumo ao universo, extrapolando os limites do próprio planeta Terra. A revolução neolítica (descoberta da agricultura) abriu um caminho que conduziu os humanos da simples luta pela comida de cada dia para uma situação cultural que os lançará à inimagináveis aventuras.

Há que se louvar a sabedoria dos moradores de Atenas, que não se impressionaram com a majestade do cavalo saído da terra, e compreenderam a importância da oliveira, uma simples árvore. Sem o cultivo das plantas, infinidades de plantas, de forma contínua, ano a ano, as cidades não teriam sido possíveis e nem todas as parafernálias materiais e imateriais produzidas no transcorrer da história da humanidade. Às vezes nos esquecemos disso...