sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Ética e moral são a mesma coisa? Por que pensar a respeito?

Zildo Gallo


As palavras ética e moral são a mesma coisa? Na maioria das vezes elas são usadas com o mesmo significado, como sinônimos. Geralmente são usadas para a emissão de juízos de valor sobre práticas pessoais ou coletivas. Entretanto, ao se buscar as origens e o real significado de cada pala­vra, chega-se à percepção de suas diferenças; ética e moral não são sinônimos, definitivamente.
A ética é parte constituinte da filosofia. Ela trata de concep­ções de fundo sobre a vida, o universo, a humanidade e sua trajetória existencial, estabelecendo valores e princípios fundamentais que norteiam os comportamentos dos indivíduos e dos grupos sociais. Já a moral faz parte do dia-a-dia das pessoas e das sociedades. Assim, ela cuida da prática concreta dos indivíduos com base em costumes e valo­res culturais estabelecidos.
Nem tudo que é moral é ético. Costumes e valores consagrados em determi­nados grupos sociais podem ser questionados pela ética. Algumas formas de trata­mento dado às mulheres, discriminatórias e muitas vezes violentas, que são aceitas em alguns grupos sociais podem exemplificar o exposto. A forma como alguns segmentos do islamismo agem em relação a elas encaixa-se como exemplo de valores morais questionáveis do ponto de vista ético.
Uma pessoa é ética quando se orienta por princípios e convicções; a convicção pressupõe a introjeção dos princípios pelo indivíduo. Os princípios têm um caráter universal. Por exemplo, agir pacificamente em relação aos demais é universalmente aceito como correto e as ações violentas são condenadas por ampla maioria nos dias de hoja. Por outro lado, uma pessoa moral é aquela que age em conformidade com os valores e costumes socialmente aceitos. Então, um indi­víduo pode ser moral, pois segue os costumes por conveniência, mas não necessa­riamente ético, pois não obedece a princípios convictos. Ele pode não ser violento, reprimindo a violência em si, porque a violência não é aceita socialmente, mas ele pode não estar plenamente convencido da não violência como um valor fundamental.
A palavra ética é oriunda da palavra grega ethos (com épsilon, e longo), que signi­fica morada. Todavia, não se tratava e não deve ser compreendida como a morada física, a casa material, mas como a casa existencial. A casa existencial significava para os gregos a teia de relações entre os membros da comunidade e destes com o meio físico. Hoje, recuperando a concepção grega, a morada não deve ser apenas a casa onde as pessoas habitam, deve ser também a cidade onde vivem, o país a que pertencem e o planeta Terra, que é a casa de todos. Leonardo Boff, em Ética e Moral: a Busca dos Fundamentos, consegue deixar a questão mais clara:
Mas para que a morada seja morada faz-se mister organizar o espaço fí­sico (quartos, sala, cozinha, o jardim) e o espaço humano (relações entre os moradores entre si e com os vizinhos), segundo critérios, valores e prin­cípios inspiradores, para que tudo flua e esteja a contento. A casa possui, então estilo, caráter e sua aura própria. Da mesma forma as pessoas que habitam e que sintonizam com o jeito próprio da casa assumem um caráter singular. Os gregos chamavam tanto os princípios inspiradores e as pes­soas, cujo caráter era moldado por eles, de ethos, escrito como casa (ethos com e longo) (BOFF, 2003, pp. 38-39).
E a palavra moral, de onde vem? Ela vem da palavra latina mores e significa cos­tumes e hábitos. Na morada, os seus habitantes têm costumes, tradições, manei­ras e jeitos de organizar as refeições, as reuniões, as festas etc. Os gregos também chamavam a isso de ethos, só que escrito com a letra eta (o e curto). Como observa Boff (2003, p. 40), os homens medie­vais não eram tão sutis como os gregos e usavam a pala­vra moral indiscriminada­mente tanto para os usos e costumes quanto para os prin­cípios que os moldavam. Con­tudo, eles faziam uma distinção entre uma filosofia moral e uma moral prática, ao molde dos gregos; os mais cultos assim o faziam.
A compreensão destas diferenças é de suma importância. O uso corriqueiro da pa­lavra pode esvaziar o seu real significado. O uso desmedido cria um tipo de abuso. O abuso acaba desgastando o que não pode ser desgastado, em nenhuma hipótese. Urgentemente, é preciso recuperar o sentido real da palavra ética, pois ela deve cumprir seu papel como fator de preservação da vida e da paz na Terra. Boff (2003, p. 41) dá um bom exemplo de um uso abusivo das pala­vras ética e moral:
A partir desta compreensão estaríamos habilitados a ajuizar as várias éti­cas e morais existentes nas culturas mundiais. Restringimo-nos à mais vi­gente e hege­mônica hoje, à ética e à moral capitalistas. A ética capitalista diz: bom é o que per­mite acumular mais com menos investimentos e em menos tempo possível. A mo­ral capitalista concreta reza: empregar menos gente possível, pagar menos salários e impostos e explorar melhor a natu­reza para acumular mais meios de vida e ri­queza.
Um rápido exercício de imaginação: como seria a residência de pessoas, que tives­sem costumes (mores) tão mesquinhos? Um microcosmo com tais características tem tudo para produzir caracteres humanos (ethos) do mesmo tipo. Não tem? Essa casa teria imensas dificuldades para sobreviver por muito tempo e o tempo da sobrevivência seria um tempo de guerra. Como é possível imaginar que no macrocosmo, o nosso planeta Terra, a sobrevivência pacífica da huma­nidade pode acontecer com essa “ética” e essa “mo­ral”? A realidade, ao que tudo indica, parece corroborar tal impossibilidade. Boff (2003, p. 41) considera essa “uma das razões, nada irrelevante, da grave crise atual, crise de valores, crise de uma visão mais humanitária e generosa da vida, crise de ótica que gera uma crise de ética”. A mesquinhez é a marca do nosso tempo, é só observar como se divide a da riqueza em todos os países, incluindo o Brasil.
Ervin Laslo (2006, p. 45) discorre sobre a necessidade de se construir uma ética planetá­ria; “trata-se de um imperativo do nosso tempo”. Para ele, além da moralidade particular (ética pessoal) e da moralidade pública (ética compartilhada no grupo étnico ou nação), existe ainda uma moralidade universal (ética planetária). Ele avalia que chegou a hora de dedi­car atenção especial à construção de uma ética que possa ser adotada por indivíduos de todas as religiões, raças, sexos e convicções, e pontua as dificuldades dessa nova cons­trução:
Como, nos países comunistas, os ideais igualitários de Marx, Lênin e Mao fa­lharam na prática, a mais alta expressão da ética no dia-a-dia, para a maior parte da humanidade, vem sendo o liberalismo – herança conceitual de Bentham, Locke, Hume e da escola clássica de filósofos britânicos. Aqui, ética e moralidade não têm base objetiva: as ações humanas são funda­mentadas no interesse próprio, no má­ximo moderadas pela solidariedade altruísta (...) “Viva e deixe viver” é o princípio li­beral. Você pode viver como quiser, desde que não infrinja a lei (Laslo, 2006, pp. 47-48).
Ele considera que, nos dias de hoje, o liberalismo contribui para um tipo complicado de tolerância. Deixar que cada pessoa viva como quiser, desde que seguindo a lei, pode apresentar grandes riscos. Os ricos podem, por exemplo, cor­retamente dentro da lei, con­sumir um pedaço desproporcional de recursos aos quais os pobres também têm direito, criando com isso danos irreversíveis ao meio am­biente, o que, de fato, já está ocorrendo. A observância da lei não pode ser o único parâmetro para a humanidade. Então, tentando resolver esta questão, Laslo ( 2006, p. 48) propõe o seguinte:
Em vez de “viver e deixar viver”, precisamos de uma ética planetária que seja tão intuitivamente significativa e instintivamente atraente quanto à ética do libera­lismo, porém mais bem adaptada às condições do planeta. Tal ética substituiria o “Viva e deixe viver”, do liberalismo, pelo “Viva mais simplesmente, para que outros possam simplesmente viver”, de Ghandi (...) Não deve ser excedida a capacidade que tem o planeta de su­prir as necessidades de seus habitantes. Então, a ética planetária de que precisamos é mais bem definida assim: Viva de modo que os outros tam­bém possam viver.
A necessidade de construir uma ética para o planeta Terra é de extrema impor­tância e sua relevância para a própria sobrevivência da humanidade é in­questionável. A busca desenfreada por riqueza e poder, numa tentativa torta e míope de se diferenciar no meio dos seres humanos, dificulta a convivência harmoniosa entre todos os homens e destes com os demais seres do planeta. A humanidade, acompanhada por todos os outros seres, já não pode se dar ao luxo de esperar pelo futuro, pois a humanidade e a vida na Terra estão em grande risco. O aquecimento global é apenas um dos exemplos da tragédia contemporânea. Neste momento, a tarefa de corrigir os rumos cabe a toda humanidade e não apenas àqueles que têm poder.
Também como Laslo, Boff defende, em Saber Cuidar: Ética do Humano – Compai­xão pela Terra, a construção de uma ética planetária. Para ele, a casa hu­mana não é mais o estado-nação, mas toda a Terra e “urge modelá-la de tal forma que tenha sustentabili­dade para modelar um novo sonho civilizacional”. Há que se fundar um novo ethos para permitir uma convivência nova entre os homens e destes com todos os demais seres. A nova ética deverá nascer da essência, da natu­reza mais profunda do ser humano. Ocorre que a essência do homem está mais no cuidado, na compaixão, do que na razão e na vontade. Há que se resgatar a essên­cia do humano.

Referências
BOFF, Leonardo. Ética e moral: a busca os fundamentos. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2003.
______. Saber cuidar: ética do humano – compaixão pela terra. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 1999.
GALLO, Zildo. Ethos, a grande morada humana: economia, ecologia e ética. Itu, SP: Ottoni Editora, 2007.
LASLO, Ervin. A necessidade de uma ética planetária. In: MAGALHÃES, Dulce (org.). A paz como caminho. Rio de Janeiro: Qualitymark Editora, 2006.


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