sexta-feira, 24 de julho de 2015

As abelhas de Gavião Peixoto: um holocausto ainda impune

Zildo Gallo


A mortandade de abelhas (imagem acima) tem se tornado coisa rotineira em Gavião Peixoto (SP) e, repetidas vezes, o município tem aparecido nas manchetes dos jornais como vítima dos agrotóxicos utilizados nas fazendas localizadas no seu território, com destaque para os da cana-de-açúcar, que costumam ser lançados por aviões sobre as plantações, numa exibição que lembra a Esquadrilha da Fumaça com seus voos rasantes, só que se trata, neste caso, de uma fumaça assassina a serviço de um imenso holocausto entomológico. Eis algumas notícias sobre o assunto em questão, existem várias outras:
·     Em 06/12/2013, o portal G1 da Rede Globo estampava a seguinte notícia: "Agrotóxico usado na cana mata dois milhões de abelhas, dizem apicultores" (1).
·   Em 18/02/2014, o mesmo portal noticiou: "2 agrotóxicos mataram 4 milhões de abelhas em Gavião Peixoto, diz laudo" (2).
·      Em 23/05/2015, o portal registrou: "Agrotóxico causou morte de abelhas em Gavião Peixoto, SP, aponta laudo" (3).
A cana-de-açúcar não é vilã solitária nesses crimes ambientais. A notícia de 18 de fevereiro de 2014 indicava que o uso de dois agrotóxicos lançados em lavouras de feijão, café e soja poderia ter sido o responsável pela morte de mais de quatro milhões de abelhas em Gavião Peixoto, conforme resultados de exames feitos nas abelhas por um laboratório. Ocorre que a presença da cana é muito mais ostensiva e muito mais visível, por conta das imensas extensões de terra ocupadas com o seu cultivo na região de Araraquara (SP), onde fica Gavião Peixoto. No meu artigo "Nada de venenos: um pouco sobre a agricultura orgânica", neste blog, eu registrei que muitos agricultores familiares também fazem uso de agrotóxicos, imitando esta prática nem um pouco recomendável do agronegócio, infelizmente...
Estou escrevendo sobre as abelhas de Gavião Peixoto, mas todas as abelhas, de todo o mundo, estão correndo risco de extinção, devido ao uso demasiado de defensivos agrícolas. Seria uma imensa tragédia para a vida na Terra, pois elas são fundamentais no processo de polinização no reino vegetal. Trata-se de imensa estupidez, uma espécie de suicídio indireto. Será que a ciência com os seus braços tecnológicos desenvolverão insetos mecânicos para o serviço da polinização? Ridículo! Será que os brasileiros farão como os chineses, que estão usando trabalhadores rurais, aos montes, para polinizarem manualmente as plantas, pelo fato de terem perdido as abelhas e muitos outros insetos polinizadores? Bem... a China tem muita gente no campo, muita gente mesmo, o que não é o nosso caso. A imagem abaixo mostra camponeses da China polinizando com as suas mãos uma plantação de frutas; um retrato que mostra até onde pode chegar a irresponsabilidade humana (4).


Para se compreender a gravidade da questão em relação aos insetos polinizadores, em particular com as abelhas, é sabido hoje que as abelhas já existiam nas mesmas formas que as atuais há cerca de 42 milhões de anos e durante todo esse tempo elas fizeram o seu trabalho diário e incansável de polinizar e produzir mel. Quanto à apicultura, é provável que já no neolítico os homens praticavam alguma forma de apicultura, pois existem informações de que, um pouco mais adiante, nos primórdios da civilização, o povo sumério, que se estabeleceu na Mesopotâmia por volta de 5.000 a. C. e fundou as primeiras cidades do planeta, já usava o mel.
Os povos da antiguidade tinham grande consideração pelas abelhas e pelo seu produto, o mel. A consideração era tanta que o grande filósofo grego Aristóteles fez os primeiros estudos científicos a respeito das abelhas, utilizando uma colmeia cilíndrica feita com ramos de árvores entrelaçados com uma mistura de argila e estrume bovino. A criação de abelhas era tão importante na Grécia antiga que Sólon, o grande legislador ateniense, dedicou-lhe vários artigos no conjunto das suas leis. Por conta da poluição, depois de 42 milhões de anos, a humanidade pode estar arriscando a sobrevivência desses animaizinhos fantásticos e extremamente úteis à natureza e aos homens. Não é muita estupidez? Dá para imaginar a natureza sem esses bichinhos?
A agricultura da cana-de-açúcar está no topo das maldades praticadas ao meio ambiente no Estado de São Paulo. Além dos agrotóxicos, tem o desrespeito com a vegetação nativa e com os animais silvestres. Os recursos hídricos são superutilizados e há casos de destruição de nascentes e de contaminação dos recursos hídricos, tanto superficiais como subterrâneos. As relações trabalhistas sempre foram muito complicadas e há muito pouco tempo foram registrados casos de trabalho excessivo, inclusive com mortes. Ainda tem o agravante de que no estado mais populoso do Brasil a cana tem ocupado muitas terras de boa qualidade que poderiam estar produzindo alimentos. Pelo menos as queimadas estão diminuindo com o avanço da mecanização do corte. Como é possível considerar o etanol como um combustível ambientalmente correto, conforme propagam as usinas e os governos estaduais e federal, com tantas questões a serem resolvidas? O fato de ele ser uma energia renovável e não contribuir para o agravamento do aquecimento global (efeito estufa) não dá o direito aos produtores de abusarem das práticas ambientais inadequadas.
Em relação à cana-de-açúcar, uma das reclamações dos apicultores diz respeito à fumigação aérea, que esparrama veneno para todos os lados. Estou escrevendo sobre as abelhas de Gavião Peixoto e neste município está instalada uma fábrica da Embraer, que produz aviões, incluindo o Ipanema, sua aeronave agrícola, que está sendo produzido desde 1972. Atualmente ela fabrica, na sua unidade de Botucatu (SP), uma aeronave movida a etanol. Dizem que o álcool possibilita um melhor desempenho, além de apresentar baixos custos de manutenção e operação, acredito que sim. É óbvio que também cantam loas ao combustível correto do ponto de vista do meio ambiente, nem tanto, como já visto acima.
Assim, o combustível "ambientalmente correto" faz o Ipanema alçar voo e esparramar venenos aos quatro ventos, sobre os latifúndios monocultores do Brasil. No Estado de São Paulo ele sobrevoa os canaviais, fumigando-os, e eles, em retribuição, garantem a produção do combustível "limpo" do seu voo, num macabro círculo vicioso a serviço do gigantesco complexo agroindustrial energético-agroexportador.


Agora, falando aqui como advogado de defesa das nossas minúsculas e indefesas irmãzinhas, as abelhas: é muito sério, não dá mais! precisamos abolir os agrotóxicos da nossa agricultura, com destaque para a da cana-de-açúcar no Estado de São Paulo. É possível fazer isso? Será que os grandes produtores rurais podem adotar práticas ambientalmente corretas? A resposta é:  sim! Para prová-lo, vou relatar na sequência um caso de sucesso de agricultura orgânica ligado ao setor sucroalcooleiro, aqui mesmo, no nosso estado Trata-se de um caso que se inicia pela produção de açúcar orgânico e posteriormente se estende para outros produtos. Refiro-me ao caso da Native, que se tornou referência nacional e internacional em termos de produtos agrícolas amigáveis ao meio ambiente.


A marca Native está bastante visível no mercado, pois as cafeterias disponibilizam aos consumidores os saquinhos individuais com o açúcar orgânico da marca e as gôndolas dos supermercados sempre têm as embalagens de 1 kg do açúcar e vários outros produtos seus à mostra. Líder mundial na produção e comercialização de açúcar e álcool orgânicos, a Native adotou a causa da sustentabilidade e tem levado seus produtos para mais de 60 países de todos os continentes do planeta. As suas usinas, São Francisco e Santo Antônio, mantêm um viveiro com capacidade de gerar milhares de mudas de árvores nativas da flora brasileira. Mais de um milhão de árvores já foram plantadas em centenas de hectares. A implantação de um modelo agrícola de produção diferenciado resultou na formação de uma teia alimentar que permite a convivência do agronegócio com mais de 300 espécies de animais vertebrados, sendo que 244 são raras, como a onça parda, o tamanduá bandeira, o lobo guará, entre muitas outras (5).
A Native tem vários produtos saudáveis, elaborados conforme os regulamentos da agricultura orgânica, com processos que aliam tecnologia com respeito ao solo, às florestas e aos animais. Além do açúcar, que é produzido sem queimadas e livre dos agroquímicos, ela desenvolveu várias parcerias com produtores orgânicos brasileiros e estrangeiros para oferecer aos consumidores produtos que compartilham dos mesmos princípios de sustentabilidade. Assim, ela  também atua nos segmentos de cafés, sucos, achocolatados e barras de chocolates, utilizando o cacau orgânico da Bahia, etc. Ela produz orgânicos e incentiva a sua produção através das suas parcerias, provando que é possível ao grande produtor rural produzir sem os venenos que matam os nossos insetos polinizadores, em particular as nossas irmãs abelhas que, além de prestarem um serviço de valor inestimável à natureza, produzem um alimento que pode ser classificado, no mínimo, como fantástico pelas suas qualidades nutritivas, o DOCE MEL.
Para não pairar dúvidas sobre o compromisso da Native com a sustentabilidade e com a agricultura orgânica, informo aqui que ela tem divulgado no seu site a cartilha sobre o selo de produtos orgânicos do Ministério da Agricultura, aquela ilustrada pelo cartunista e escritor Ziraldo, que teve a sua edição impressa impedida de circular por uma ação judicial da Monsanto, a polêmica e gigantesca multinacional fabricante de venenos e sementes transgênicas (6). Eu tratei deste assunto no artigo "Guerrilha agroecológica", neste blog, onde também divulgo a cartilha. Considero que divulgá-la é um ato de desobediência civil a serviço da defesa da vida saudável para todos os seres do nosso planeta. Visitem o site da Native! Divulguem a cartilha do selo ORGÂNICO BRASIL!
Vida longa às abelhas!

Referências
(1) http://g1.globo.com/sp/sao-carlos-regiao/noticia/2013/12/agrotoxico-usado-na-cana-mata-dois-milhoes-de-abelhas-dizem-apicultores-gaviao-peixoto.html
(2) http://g1.globo.com/sp/sao-carlos-regiao/noticia/2014/02/2-agrotoxicos-mataram-4-milhoes-de-abelhas-em-gaviao-peixoto-diz-laudo.html
(3) http://g1.globo.com/sp/araraquara-regiao/noticia/2012/05/agrotoxico-causou-morte-de-abelhas-em-gaviao-peixoto-sp-aponta-laudo.html
(4) http://www.apinews.com/pt/noticias-de-apicultura/item/12780-china-polinizacao-com-a-mao
(5) http://www.nativeorganicos.com.br/
(6) http://www.nativeorganicos.com.br/media/uploads/paginas/arquivo/cartilha_org.pdf

terça-feira, 21 de julho de 2015

É de graça! Sobre a necessidade da refazenda.

Zildo Gallo


Lembro-me que, antes de me mudar com a minha família do meio rural do município de Borborema (SP) para a zona urbana de Americana (SP), no ano de 1963, eu nunca havia presenciado o comércio de frutas. Confesso que estranhei muito. Nos sítios, além das várias lavouras temporárias e dos cafezais, existiam pomares com grande variedade de frutas e, conforme cada época do ano, cada árvore frutífera oferecia a todos, de forma gratuita, os seus frutos. Trago na memória a época da jabuticaba, da goiaba e da manga, que eram as frutas que mais me atraiam. Por sua vez, mamões, bananas e melancias existiam o tempo todo, não eram frutas de época, não eram temporãs.

A partir do momento que passei a morar na cidade, a abundância frutífera e a gratuidade desapareceram. Demorou muito para me acostumar com o fato de que só comeria frutas se as comprasse na quitanda. Assim, por conta da pobreza, a minha alimentação piorou muito na cidade. Lembro-me nitidamente que havia no meio rural uma saudável troca de produtos entre os vizinhos, era uma troca permanente e rotineira. Até mesmo nas cidades pequenas tal fenômeno existia, pois era comum a existência de pomares e hortas nas residências urbanas. A gratuidade e a troca não mercantil ainda faziam parte do cotidiano das pessoas nos anos sessenta do século passado.

Hoje, quando a maioria esmagadora da população mora no meio urbano, as famílias perderam o hábito de cultivar pomares e hortas como antigamente se fazia e, por conta disso, o hábito da troca também desapareceu. Para muitos, esses hábitos chegam a parecer uma aberração, de tão comprometidos que estão com a ideia de que tudo tem um preço e que só é possível conseguir as coisas pagando com dinheiro por elas. A gratuidade parece algo pecaminoso, um pecado contra o mercado, contra a economia de mercado. Além disso, muitos se incomodam com a natureza no meio urbano; quem nunca ouviu alguém dizer que uma árvore frutífera suja a calçada? O afastamento da natureza é tal que muitas pessoas consideram folhas, flores e frutos como sujeira. Quem nunca viu uma senhora neurótica varrendo o tempo todo as folhas da calçada?

Vou contar uma história. Nos anos de 1988 e 1989, eu morei com minha família no bairro Santa Genebra em Campinas (SP). Ao lado da minha casa morava uma mulher neurótica por limpeza, que se incomodava demais com as folhas que caíam das árvores. Teve um dia que ele se irritou tanto e passou muito mal, tendo que ser internada num hospital. As folhas caíam e ela varria e, mal ela acabava de varrer, as folhas caíam de novo e ela retomava a varrição e assim sucessivamente... Ela não conseguia deixar a calçada livre das folhas e isso a deixava doente. A saída que sua família encontrou foi contratar um garoto que ficava atento o tempo todo às folhas cadentes para varrê-las de imediato. Parece loucura, mas foi assim mesmo que aconteceu.

Todavia, mesmo no meio urbano, é comum encontrar ruas ou áreas livres com árvores frutíferas plantadas. É provável que algum migrante saudoso do meio rural e do estilo de vida gratuito tenha generosamente plantado as árvores para que qualquer transeunte pudesse delas se beneficiar. Trata-se de altruísmo verdadeiro, pois o benefício atinge os desconhecidos, incluindo aí os passarinhos  e  outros animais que também aproveitam as frutas da época.

A natureza tornou-se estranha para muita gente, muita gente mesmo, e será preciso que elas retomem o contato com ela para  que, a partir daí, tornem-se suas defensoras.Muito do processo de destruição ambiental vem da ignorância das pessoas sobre a natureza e os fenômenos naturais. Fazer hortas domésticas e plantar árvores frutíferas nas casas, nas ruas e nos espaços públicos ajudam na interiorização do entendimento de que o alimento do nosso corpo vem da terra, da sua fertilidade, e que não tem nenhum problema ela nos oferecer os seus frutos gratuitamente, pois é assim que acontece na natureza selvagem, não controlada pelo mercado, pelo capital. Não é nenhum pecado apanhar uma fruta do pé e não pagar por ela. Meu Deus! colocamos preço em tudo...

Vou mais longe, pois considero que deveria ser uma política pública a disseminação de árvores frutíferas pelas praças, parques, ruas, avenidas escolas etc. Além disso, as prefeituras poderiam estimular nos habitantes o hábito do cultivo de hortas e pomares nas suas residências. Acho que a segurança alimentar dos cidadãos aumentaria bastante com isso e, mais importante ainda, esse poderia ser o começo da reconexão com a natureza, que é essencial no atual momento do planeta Terra. Estou sugerindo uma refazenda como aquela da belíssima canção de Gilberto Gil, que nos ensina que a vida vem em ciclos, nos moldes da natureza:

Refazenda

Abacateiro acataremos teu ato
Nós também somos do mato como o pato e o leão
Aguardaremos brincaremos no regato
Até que nos tragam frutos teu amor, teu coração
Abacateiro teu recolhimento é justamente
O significado da palavra temporão
Enquanto o tempo não trouxer teu abacate
Amanhecerá tomate e anoitecerá mamão
Abacateiro sabes ao que estou me referindo
Porque todo tamarindo tem o seu agosto azedo
Cedo, antes que o janeiro doce manga venha ser também
Abacateiro serás meu parceiro solitário
Nesse itinerário da leveza pelo ar
Abacateiro saiba que na refazenda
Tu me ensina a fazer renda que eu te ensino a namorar
Refazendo tudo
Refazenda
Refazenda toda
Guariroba

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Nada de venenos: um pouco sobre a agricultura orgânica

Zildo Gallo


Aqui no meu blog, eu escrevi dois artigos sobre agroecologia com os seguintes títulos: "Guerrilha agroecológica" e "Guerrilha agroecológica 2". Por que a expressão guerrilha agroecológica? Por um simples motivo: a população do planeta e toda a natureza estão sendo envenenadas e maltratadas pelo agronegócio, que tem buscado com exclusividade a maximização do seu lucro, seu principal objetivo, enquanto divulga a fala hipócrita de que está combatendo a fome no mundo. A fome no mundo persiste com muita força e a natureza, por sua vez, tem vivido um aumento expressivo do seu estado de deterioração. Como exemplo de deterioração, podemos citar  a destruição das florestas brasileiras (Mata Atlântica, Cerrado, Amazônia etc.) para a criação de gado e o plantio de commodities (soja, milho, cana-de-açúcar etc.) para a exportação. Para mudar esse quadro é preciso muita paciência e muito argumento e, assim, aos poucos, vai-se ganhando corações e mentes para as causas ambientais e da alimentação segura, como num processo de guerrilha, que começa num pequeno foco e a partir daí se expande até atingir a maioria.
Na verdade, quem produz alimentos para a população brasileira não é o agronegócio, mas a agricultura familiar, que se faz representar pela imensa quantidade de pequenas propriedades espalhadas por todo país. Ocorre que muitos pequenos produtores também acabaram por adotar a "revolução verde", por conta de políticas governamentais equivocadas, que remontam o período dos "anos de chumbo", da ditadura militar, e do assédio das grandes corporações internacionais de insumos agrícolas, com toda sua parafernália química (venenos e fertilizantes químicos), que propunha acabar com a fome do planeta, o que, de fato, não ocorreu, como já foi dito acima. Assim, a expressão "guerrilha ecológica" faz muito sentido, pois se trata de enfrentar inimigos poderosos com poucas armas, todavia poderosas, já que se fundamentam no conhecimento sobre a natureza, sobre a vida na Terra. A agroecologia assenta-se sobre os processos naturais (ecológicos) e não sobre os insumos artificiais produzidos pela agroindústria.
Então, de forma bem simples, pretendo neste artigo passar algumas informações bem rápidas sobre como o consumidor pode, pela sua opção por produtos orgânicos, contribuir para o avanço da agroecologia e para preservação e recuperação da natureza degradada. Alguns consumidores podem dizer que os produtos orgânicos são mais caros e, hoje, eles têm razão. A massificação do consumo e o aumento expressivo (tem que ser expressivo) do número de produtores implicarão na queda dos preços dos produtos agrícolas, com certeza, é uma questão de tempo apenas; precisa acontecer.
Para ser o mais claro e o mais simples possível, lancei mão das informações constantes na cartilha ilustrada pelo cartunista e escritor Ziraldo para o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. No ano de 2009, o Ministério produziu a cartilha "O olho do consumidor" para divulgar o novo selo para produtos orgânicos. Contudo, diante da possibilidade de ter os seus interesses contrariados, a empresa Monsanto, fabricante de agrotóxicos e de sementes transgênicas, conseguiu, através da justiça, embargar a sua distribuição, que seria naquele momento de 620 mil exemplares. Com a proibição, muitos defensores da agricultura orgânica passaram a divulgá-la pela internet. Acredito que, de lá até hoje, a divulgação pelo meio eletrônico tem sido eficiente, muito mais eficiente que a divulgação através das cartilhas impressas. No meu blog eu divulgo a cartilha no artigo "Guerrilha agroecológica". Então, comecemos do início, pelo entendimento do que são os produtos orgânicos:
·    Os produtos orgânicos são sempre produzidos com a preocupação primeira de não prejudicar o meio ambiente, pois ela acontece sem destruir os recursos naturais (água, solo e matas);
·   Os produtores valorizam as espécies de plantas e animais da nossa natureza, de cada um dos nossos ecossistemas (Mata Atlântica, Cerrado, Amazônia etc.);
·      Todos os trabalhadores que participam da sua produção devem ter condições dignas de trabalho e remuneração adequada que lhes garantam boas condições de vida em sociedade;
·     O solo deve ser protegido dos desgastes infringidos pela produção contínua e sempre deve manter as suas condições sanitárias preservadas; a biodiversidade de insetos e micro-organismos é um bom sinal da sanidade do solo (solo saudável produz plantas saudáveis);
·    O produtor que opta pela agricultura orgânica também não pode cultivar transgênicos, pois eles sempre põem em risco a enorme diversidade de variedades existentes na natureza (transgênicos são plantas e animas que sofreram a introdução de genes retirados de outras espécies por cientistas a serviço das corporações internacionais do agronegócio).
Quanto aos transgênicos, para confirmar a questão da divulgação da agricultura orgânica como uma guerra de guerrilha (cultural) eu relatei, no artigo "Guerrilha agroecológica 2: o império transgênico contra-ataca", que a Câmara dos Deputados aprovou em 28 de abril de 2015 o Projeto de Lei 4.148/08  do deputado Luis Carlos Heinze (PP-RS), que acaba com a obrigatoriedade de se estampar o símbolo de transgenia nos rótulos de produtos que contém organismos geneticamente modificados (OGM) destinados ao consumo humano. O texto modificou a Lei 11.105/2005 que determinava a obrigação de exibir o selo, que é representado pela letra T maiúscula dentro de um triângulo. Parte significativa do Congresso Brasileiro está a serviço do agronegócio, com seus venenos e seus transgênicos, e só um combate constante e crescente no campo das ideias para reverter essa desvantagem contra a agricultura saudável. Neste momento, o PL 4.148/08 encontra-se no Senado e é para ele que devemos dirigir o nosso embate ideológico. Caso o PL seja definitivamente aprovado, a única garantia de que não estaremos consumindo transgênicos será pelo selo de produto orgânico. Efetivamente, a sua aprovação é uma violência contra a liberdade de escolha do cidadão.
No artigo citado acima eu faço alguns questionamentos, que considero pertinentes e por isso repito-os aqui: "As informações aos consumidores têm que ser as mais fáceis e visíveis possíveis, pois a sua autonomia no processo de escolha deve ser preservada durante todo o tempo. Por que os representantes do agronegócio se arvoram no direito de dificultar as informações aos consumidores? Do que eles têm medo? Não confiam na qualidade dos OGM? Ao contrário deles, os defensores dos produtos orgânicos fazem questão de estampar o selo Produto Orgânico Brasil, por que será?"
Só para exemplificar a seriedade da questão, relato aqui uma experiência vivida por mim há poucos dias no Makro Atacadista, em Campinas (SP). Enquanto procurava óleo de cozinha, notei que todas as embalagens, de todas as marcas, de óleo de soja estampavam com o triângulo da transgenia. Pensei: "olha a gravidade de se retirar o selo!" Comprei óleo de canola, como já havia planejado anteriormente. Só compro derivados de soja que sejam orgânicos (com selo), pois o risco de que sejam transgênicos é muito alto, o mesmo acontece com o milho e seus derivados, nos dias de hoje.
Para um produto ser efetivamente orgânico, é expressamente proibido o uso de agrotóxicos de qualquer tipo que possam contaminar os alimentos e o meio ambiente. Dessa maneira, os venenos não passarão para os organismos das pessoas que produzem e consomem produtos orgânicos, como acontece no caso da agricultura convencional, aquela praticada com maior ênfase pelo agronegócio, com o incentivo das grandes empresas agroquímicas. Alguns produtos são muito contaminados por venenos, como nos casos do tomate e do morango (veja meu artigo "O sapo e os morangos", neste blog).
Os consumidores quando optam pelos orgânicos contribuem para manter a sua saúde e a dos agricultores, para preservar o meio ambiente e para melhorar a qualidade de vida dos pequenos produtores rurais, que terão seus produtos valorizados numa prática de comércio justo, onde todos ganham (consumidores e produtores) e não só os grandes atravessadores, como geralmente acontece na agricultura convencional, aquela baseada nos insumos agroquímicos (venenos e fertilizantes).
Para que os consumidores saibam se os produtos são orgânicos ou não, o governo federal criou um sistema oficial de controle. A partir de 2010, todo produto orgânico, exceto aqueles vendidos diretamente pelos agricultores familiares estão sendo vendidos com o selo SISORG - Sistema Brasileiro de Avaliação da Conformidade Orgânica. Veja o selo abaixo.


Na cartilha do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento são apresentados detalhes sobre as exigências para que um produto seja considerado orgânico e sobre os vários processos de certificação dos produtores. Não acho necessário registrar tais detalhes aqui. Para tanto acesse o endereço <http://www.redezero.org/cartilha-produtos-organicos.pdf>. Caso você encontre dificuldades para conseguir a cartilha, solicite-me pelo e-mail zildogallo@gmail.com, que prontamente enviarei.
É possível encontrar produtos orgânicos verdadeiros que são vendidos sem o selo SISORG. Produtores da agricultura familiar podem fornecê-los em feiras, pequenos mercados ou entregá-los nas residências. A garantia de que são verdadeiramente orgânicos dá-se pelo vínculo a uma Organização de Controle Social (OCS) cadastrada nos órgãos do governo. A OCS pode ser uma associação, uma cooperativa ou consórcio de produtores que seja capaz de cuidar do cumprimento das regras da produção orgânica. O consumidor, por sua vez, tem o direito de saber o que está comprando, quem produziu e a que OCS ele está ligado. Tais informações devem estar disponíveis ao consumidor.

Alimente-se bem! Nada de venenos!

sexta-feira, 10 de julho de 2015

A sonda New Horizons, o rebaixamento de Plutão, o rapto de Perséfone e o Tarô Mitológico

Zildo Gallo


Após quase uma década cruzando o espaço sideral, a sonda espacial New Horizons passará bem perto do planeta Plutão, a menos de 12.500 km. Desde que foi descoberto, em 1930, Plutão permanece bastante inacessível e pouco se sabe a seu respeito. O feito ocorrerá no de 14 de julho de 2015 e os cientistas sabem pouco do que poderá ser revelado nesse dia histórico.
Os que conhecem um pouco de astronomia podem estranhar porque me refiro a Plutão como um planeta e não como um planeta anão. Em 2006, os astrônomos resolveram rebaixá-lo da categoria de planeta por conta do seu tamanho, já que ele possui uma massa duas mil vezes menor que a da Terra. Na época considerei uma arbitrariedade e achei muita ignorância e desrespeito rebaixá-lo apenas pelo seu tamanho. Afinal de contas, determinar o que é pequeno e grande e instituir a grandeza como uma forma de avaliar se um corpo celeste é um planeta ou não trata-se de uma mera convenção.
No meu íntimo, acho que é um preconceito contra o que é pequeno. Seria assim como se a partir de um dado momento disséssemos aos nossos irmãos anões que eles não são mais humanos porque são pequenos e, doravante seriam considerados humanos anões. É uma comparação um tanto idiota, mas serve, vai lá... Todavia, não sou astrônomo e continuarei a tratá-lo como planeta e os meus irmãos anões sempre serão humanos, é óbvio. Na verdade, trata-se de uma violência do ponto de vista cultural. Lembro-me que no meu primeiro livro de geografia, de 1968, havia uma representação do sistema solar e lá estava o longínquo Plutão com sua órbita esquisita e sem os seus satélites, que só foram descobertos a partir de 1978, a partir da revelação de Caronte, que é o maior deles.
Plutão é pequeno mesmo, mas possui cinco satélites, enquanto que a Terra só tem a Lua, que, por sua vez, também é maior que ele. Seu maior satélite é Caronte (1), que possui quase a metade de seu tamanho. Sabemos muito pouco sobre Plutão, pois a distância é um obstáculo considerável e tamanha distância faz com que a sua órbita solar dure 248 anos terrestres. Pequeno, distante e misterioso, tudo isso justifica o seu nome: Plutão (Hades para os gregos), o deus do mundo dos mortos, que costuma aparecer com o rosto oculto por um elmo acinzentado. Será que ele se oculta para esconder a sua feiura? É claro que não, o elmo serve para torná-lo invisível aos mortais. Os gregos temiam Hades e acho que poucos seres humanos têm coragem para encarar face a face o senhor da morte. É bom que ele permaneça com o elmo sobre a cabeça.
A sonda New Horizons poderá desvendar segredos guardados à distância desde o seu descobrimento. No atual estágio da ciência na Terra, passar tão perto de Plutão, com tanta precisão, e enviar imagens e várias informações sobre a sua composição é um grande feito para a humanidade, para os reles mortais. Será que, devido à quantidade de conhecimentos já acumulados sobre o universo, os nossos astrônomos tornaram-se arrogantes ao ponto de acharem-se no direito de retirar um planeta do rol dos planetas, classificando-o como planeta anão, desconsiderando aspectos culturais importantes? Eles desrespeitaram a opinião de muita gente, inclusive de cientistas. A arrogância (hybris para os gregos) era considerada um grave desvio de comportamento na Grécia e era severamente punida por Nêmese, a deusa da justa medida para gregos e romanos.


Em 1930, quando o pequeno planeta foi descoberto pelo astrônomo Clyde Tombaugh, no Observatório Lowell, localizado no estado do Arizona (EUA), muitas cartas foram enviadas ao local com sugestões de nomes para o novo astro. Do outro lado do Oceano Atlântico, Venetia Burney, uma menina inglesa de 11 anos, sugeriu Plutão e, assim, em primeiro de maio de 1930 o planeta foi batizado como Plutão. Assim, manteve-se a tradição de nomear os planetas com nomes de deuses do panteão greco-romano. As crianças são mais intuitivas e, por isso, acabam por acertar mais que os adultos. Considero esse um caso de acerto.
Plutão faz parte da trindade greco-romana. Júpiter (Zeus para os gregos) é o senhor dos céus, Netuno (Posseidom) é o senhor dos mares e Plutão (Hades) é o senhor do mundo subterrâneo. Ocorre que, diferente dos seus irmãos e de vário outros deuses, que são muito belos, o que é normal entre os deuses, Hades era considerado bem feio e, além disso, deram-lhe a tarefa de cuidar do mundo dos mortos, nos subterrâneos da Terra. Entretanto, alguém tinha que cuidar das almas desencarnadas, não é nenhum demérito e o fato de ele ser feio é mera coincidência. Se os dois bonitões já tinham seus planetas, por que deixar Hades sem o seu? Venetia Burney fez justiça! Mesmo que seja pequeno e fique nos confins do sistema solar, fez-se justiça.
Apesar de sua feiura, Hades (Plutão), conseguiu casar-se com uma belíssima Deusa, Perséfone. Ela rivaliza em beleza com Afrodite (Vênus), a deusa do amor e da beleza. Perséfone é a deusa das ervas, flores, frutos e perfumes. É filha de Zeus e Deméter, a deusa da agricultura e das estações do ano. Criada no Olimpo, morada dos deuses, Ela foi sequestrada por seu tio Hades, que se apaixonou ao se deparar com tamanha beleza,  e mudou-se, a princípio a contragosto, para o mundo inferior, onde residem as almas dos humanos desencarnados.


Reza a lenda que Demeter ficou inconsolável e se descuidou de suas tarefas: as terras tornaram-se estéreis e houve escassez de alimentos. Demorou para ela descobrir o paradeiro da filha e quando isso aconteceu ficou claro que Perséfone não havia rejeitado o tio feioso, o que não era fácil de ser aceito pela mãe. O indivíduo devia ser muito feio mesmo. Então, para acalmar a mãe possessiva, estabeleceu-se uma acordo: a filha passaria metade do ano junto a seus pais, no Olimpo, e o restante com Hades, nas profundezas. Na primavera e no verão, a natureza se embeleza e assim permanece para receber a bela Perséfone e, a partir do outono, com a sua descida para o mundo inferior, a natureza começa a adormecer. No inverno ela estará totalmente adormecida e, na primavera seguinte, ela acordará em flores, pois Demeter se alegrará com o retorno da filha querida. Imagino a seguinte fala da possessiva mãe, quando da sua chegada: "Filhinha, você está cada vez mais linda. Não consigo entender como você continua casada com aquele traste horroroso, enfiada no fundo da terra como uma toupeira". Desconfio que é daí que vem a má fama das sogras.
Em 1990, quando iniciei meus estudos sobre o Tarô, o primeiro baralho que me caiu às mãos foi o Tarô Mitológico (2), que se baseia na mitologia grega. Neste baralho, a carta da Morte é representada pela figura estranha e sombria de Hades, envolta numa túnica negra e com o rosto oculto sob um elmo cinzento. Trata-se de um arquétipo, uma imagem primitiva que habita as profundezas do inconsciente dos seres humanos. A morte é o desconhecido e o desconhecido sempre amedronta. A morte é dada a todos os mortais, não tem escapatória, e eles a temem com todas as forças do seu temer. Neste sentido, dá para entender o tamanho da força de Hades (Plutão) e, assim, fica claro que não se trata em absoluto de uma divindade inferior. O Tarô Mitológico faz justiça ao deus menosprezado pelos humanos (medo) e pelos astrônomos (arrogância).


No nível psicológico, Hades configura-se como a finalização de ciclos, que pode ser, inclusive, o ciclo da vida. Na maioria das vezes, ele representa uma grande mudança, uma ruptura com velhos padrões e velhos caminhos. Todavia, para se iniciar um novo caminho, é necessário experimentar o luto, pois os términos sempre provocam alguma dor, às vezes muita dor. Hades, o Senhor da Morte, representa o estágio intermediário em que somos postos diante da irrevogabilidade da nossa perda antes de termos a percepção de que algo novo está para começar; ele é o momento exato do luto, aquele momento em que quase nada enxergamos, daí a sua invisibilidade.
No nível divinatório, enquanto jogo de tarô, a carta da Morte indica que algo precisa terminar. Se tal experiência será dolorosa ou não, dependerá dos recursos internos do indivíduo para aceitar e reconhecer términos. A carta pode sugerir a oportunidade de uma nova vida, desde que o indivíduo consiga abrir mão em definitivo da antiga; aí o livre arbítrio se coloca: abrir mão, não abrir mão... não é fácil desapegar.
As cartas não mentem jamais: mexer com Plutão (Hades) é coisa muito séria, os astrônomos deveriam (precisariam) saber disso. Aguardemos as notícias da New Horizons.

(1) Caronte trabalha para Hades como barqueiro, transportando as almas pelo rio Estige até o mundo inferior, mediante o pagamento em uma moeda de ouro. Nos funerais da velha Grécia, colocava-se uma moeda nos lábios do falecido para que ele pagasse a sua travessia, pois se tal não acontecesse, a sua alma ficaria vagando.

(2) SHARMAN-BURKE, J.; GREENE, L. O tarô mitológico: uma nova abordagem para a leitura do Tarô. São Paulo: Siciliano, 1988.