quarta-feira, 17 de junho de 2015

Sobre carros e ônibus: porque sai mais barato viajar de carro

Zildo Gallo


No meu artigo "Transporte individual e crise ambiental: o caso da Grande São Paulo", publicado neste blog em 2 de junho de 2015, eu falei sobre os problemas causados pelos automóveis na capital paulista e nos municípios do seu entorno: poluição do ar e congestionamentos. Ocorre que os automóveis não são problemáticos só nas regiões metropolitanas, eles também estão congestionando muitas rodovias e, por decorrência, criando poluição do ar. É só observar a situação de rodovias como a Presidente Dutra, a Anhanguera, a Bandeirantes, a Regis Bittencourt, a Fernão Dias, a Castelo Branco, entre outras, que cortam as áreas mais industrializadas e urbanizadas do Brasil.
O mesmo remédio sugerido para a Grande São Paulo serve para as rodovias que estão sobrecarregadas com veículos de passeio e utilitários, que transportam no máximo cinco pessoas: aumento do uso de transporte coletivo. Acontece que no Brasil os meios coletivos de transporte foram desestimulados, enquanto que o transporte individual foi amplamente estimulado, principalmente pelos governantes do período da ditadura militar (os eleitos não mudaram a prioridade), com destaque para o modal ferroviário, que acabou sendo sucateado quando deveria ter sido modernizado, como aconteceu nos países europeus, por exemplo.
Retomar o transporte de pessoas pelas ferrovias não é algo que se faça da noite para o dia, pois implica em muito planejamento e investimento. Todavia, em algum momento, isso precisa acontecer, tem que acontecer. O que dá para se fazer mais rapidamente é estimular o transporte de passageiros por meio de ônibus. Isso já implicaria na retirada de muitos carros das estradas, pois os automóveis transportam no máximo cinco pessoas, enquanto os ônibus conduzem entre 46 e 50 passageiros por viajem. Simples, então é só dar início a uma campanha: "Viaje de ônibus e contribua com o meio ambiente". Não é bem assim, algumas barreiras econômicas precisam ser derrubadas. Muitas vezes, talvez na maioria das vezes, o transporte individual é mais barato que o coletivo. Que absurdo! Não tem absurdo nenhum, é o que mostrarei a seguir.
Resolvi comparar os gastos com viagens de automóvel e de ônibus a partir de Campinas (SP) para dez municípios selecionados: Rio de Janeiro (RJ), Presidente Prudente (SP), Araraquara (SP), Ribeirão Preto (SP), São José dos Campos (SP), Curitiba (PR), Belo Horizonte (MG), Santos (SP), Franca (SP) e São José do Rio Preto (SP).
Para realizar o meu estudo comparado percorri os seguintes passos: a) considerei a mesma distância percorrida para os dois meios de transporte (tabela 1); b) adotei o mês de junho de 2015 como base para os preços das passagens de ônibus (tabela 1); c) considerei a gasolina como combustível para os carros; d) assumi a média dos preços da gasolina levantada pela ANP (Agência Nacional do Petróleo) para Campinas na primeira dezena de junho de 2015, R$ 3,17; e) adotei o Fiat Pálio 1.6 como o veículo da pesquisa pelo fato de ter sido o Pálio o modelo de carro mais vendido no Brasil, no ano de 2014; f) considerei como quilometragem média na estrada a publicada pelo INMETRO (Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e tecnologia) para 2015, 11,8 km por litro de combustível e, por último; g) para o transporte por carro considerei as seguintes situações: um, dois, três e cinco passageiros.

Tabela 1 - Viagens de ônibus a partir de Campinas/SP
Destino a partir de Campinas
Distância por rodovias - Km
Preço da passagem ônibus convencional*
Rio de Janeiro/RJ
495
R$ 92,30
Presidente Prudente/SP
544
R$ 123,95
Araraquara/SP
185
R$ 43,30
Ribeirão Preto/SP
224
R$ 55,44
São José dos Campos/SP
148
R$ 41,50
Curitiba/PR
479
R$ 122,23
Belo Horizonte/MG
585
R$ 103,16
Santos/SP
175
R$ 49,30
Franca/SP
306
R$ 77,44
São José do Rio Preto/SP
349
R$ 80,00
* Preços de junho de 2015 - Rodoviária de Campinas

Para chegar aos gastos totais com as viagens para cada um dos destinos eu fiz o seguinte percurso:  1) precifiquei o consumo de gasolina a partir do total de quilômetros rodados em rodovias, considerando a quilometragem informada pelo INMETRO e o preço médio levantado pela ANP; 2) levantei os valores dos pedágios para cada destino; 3) somei os gastos com gasolina com os gastos com pedágios e; 4) dividi a soma dos gastos por um, dois, três e cinco viajantes. Assim, montei a tabela 2, abaixo.

Tabela 2 - Viagens de carro (Pálio 1.6) a partir de campinas/SP
Destino a partir de Campinas
Km
*Gasto gasolina
Gasto pedágio
**Um viajante
**Dois viajantes
**Três viajantes
**Cinco viajantes
Rio de Janeiro/RJ
495
132,98
57,40
190,38
95,19
63,46
38,08
Presidente Prudente/SP
544
146,14
78,80
224,94
112,47
74,98
44,99
Araraquara/SP
185
49,70
31,10
80,80
40,40
26,93
16,16
Ribeirão Preto/SP
224
60,18
36,90
97,08
48,54
32,36
19,42
São José dos Campos/SP
148
39,76
24,70
64,46
32,23
21,49
12,89
Curitiba/PR
479
128,68
28,90
157,58
78,79
52,53
31,52
Belo Horizonte/MG
585
157,16
23,90
181,06
90,53
60,35
36,21
Santos/SP
175
47,01
41,60
88,61
44,31
29,54
17,72
Franca/SP
306
82,21
52,50
134,71
67,35
44,90
26,94
São José do Rio Preto/SP
349
93,76
36,90
130,66
65,33
43,55
26,13
* Quilometragem média: 11,8 Km/l  (INMETRO - 2015) - Preço médio: R$ 3,17 (ANP - jun/2015)
** Gasto médio por passageiro (R$)

Pela tabela 2, observa-se que só é vantagem viajar de ônibus quando o passageiro segue sozinho, pois, a partir de dois, a vantagem desaparece e, quando o carro completa a sua lotação (cinco), os gastos de cada um representam uma fração pequena dos preços das passagens individuais para cada um dos destinos escolhidos. Para se compreender melhor o que pretendo dizer, montei a tabela 3, onde comparo os gastos com as viagens de ônibus e de carro.

Tabela 3 - Gastos comparados: viajem de ônibus versus viajem de carro (R$)*
Destino a partir de Campinas
Viajem de ônibus
Carro: um viajante
Carro: dois viajantes
Carro: três viajantes
Carro: cinco viajantes
Rio de Janeiro/RJ
92,30
190,38
95,19
63,46
38,08
Presidente Prudente/SP
123,95
224,94
112,47
74,98
44,99
Araraquara/SP
43,30
80,80
40,40
26,93
16,16
Ribeirão Preto/SP
55,44
97,08
48,54
32,36
19,42
São José dos Campos/SP
41,50
64,46
32,23
21,49
12,89
Curitiba/PR
122,23
157,58
78,79
52,53
31,52
Belo Horizonte/MG
103,16
181,06
90,53
60,35
36,21
Santos/SP
49,30
88,61
44,31
29,54
17,72
Franca/SP
77,44
134,71
67,35
44,90
26,94
São José do Rio Preto/SP
80,00
130,66
65,33
43,55
26,13
* Montada a partir das tabelas 1 e 2.

É preciso lembrar que os ônibus convencionais conduzem entre 46 e 50 passageiros e um automóvel de passeio conduz no máximo cinco. Quando os automóveis preenchem a carga máxima para os destinos considerados neste breve estudo, os viajantes pagarão as seguintes frações (%) das passagens de ônibus: Rio de Janeiro, 41,25%; Presidente Prudente, 36,29%; Araraquara, 37,32%; Ribeirão Preto, 35,02%; São José dos Campos, 31,06%; Curitiba, 25,78%; Belo Horizonte, 35,1%; Santos, 35,94%; Franca, 34,78% e; São José do Rio Preto, 32,66%. Com duas pessoas num carro só é desvantagem viajar para o Rio de Janeiro, pois os gastos estão 3,13% (só!) acima do preço da passagem de ônibus. Para os demais destinos a vantagem já começa com o segundo passageiro.
É muita desvantagem viajar em grupo no transporte coletivo pelas rodovias brasileiras, pelos menos nas dos estados da Região Sudeste, como demonstra este minúsculo ensaio de pesquisa, e, por conta disso, quando as pessoas decidem viajar juntas, como é o caso das famílias, não há consciência ambiental que suplante tamanha diferença de gastos. Então, não é fácil estimular o transporte coletivo nas rodovias, mas é necessário que tal aconteça; a questão ambiental justifica o estímulo. Eis aí um bom problema para as políticas públicas.
Simplificadamente, os preços das passagens (PP) representam a seguinte soma: gasto com combustível (C) + manutenção da frota (M) + salários (S) + impostos (I) + pedágios (Pd) + lucro (L). Simplificando: PP = C + M + S + I + Pd + L, esta seria a equação do valor das passagens. Ela dá parâmetros para se pensar formas de baratear o transporte coletivo através do modal rodoviário.
Analisando cada item do lado direito da equação. A princípio, todos os itens são passíveis de mudanças para baixo, no sentido do menor custo, mas uns são mais e outros menos. O combustível (C) é passível de mudanças para menores gastos através da prática de preços diferenciados para os transportes públicos, trata-se de uma decisão política; não é uma decisão fácil, pois, em tese, haveria a necessidade de compensar aumentando os preços dos combustíveis para os veículos particulares. Os gastos com manutenção (M) da frota têm pouca elasticidade, pois a sua diminuição pode implicar em riscos para os usuários. Um item importante na manutenção dos veículos é o pneu. As empresas têm a prática de recauchutar os pneus aptos a isso. Isso já é importante, mas, além disso, os governos federal e estaduais poderiam reduzir os impostos sobre os pneus destinados ao transporte coletivo. Como no caso do combustível, os governantes tentariam compensar as perdas tributando mais os pneus dos automóveis, é óbvio. De qualquer forma, sempre se deve privilegiar o transporte coletivo. A questão ambiental sempre solicitará um pensar coletivo, não tem como fugir disso.
Por sua vez, os salários (S) podem ser diminuídos, mas não é conveniente que isso aconteça, pois não é recomendável ter motoristas insatisfeitos, cansados, estressados etc., pois deles depende a segurança dos passageiros; melhor tê-los satisfeitos. Os impostos (I), tanto federais como estaduais, podem ser reduzidos, mas os governantes exigirão alguma compensação em outros tributos; nenhum governo gosta de ter a arrecadação diminuída. Os pedágios (Pd) também podem ser reduzidos, principalmente no Estado de São Paulo, onde os valores estão acima dos demais; trata-se de uma decisão política e as concessionárias oporão resistências, o que é normal. As margens de lucro (L) também podem ser alteradas, mas elas não podem baixar a ponto de diminuir os investimentos, principalmente caso eles sejam necessários para a modernização e a expansão da frota; há limites, mas é possível testá-los. Assim, as políticas públicas no sentido de estimular o transporte coletivo via ônibus podem atuar, considerando todas as dificuldades, sobre os combustíveis, impostos, preços de pneus, pedágios e, até mesmo, sobre o lucro dos investidores.
Finalizando: é preciso estimular o transporte público, não tem outra saída. Postergar isso só agravará mais a situação. Os habitantes das Região Sudeste, que transitam pelas rodovias congestionadas, andando devagar e poluindo muito, quando tiverem opções boas e economicamente mais acessíveis de transporte coletivo, poderão optar por elas. É necessário testar esta hipótese. Não tem outra saída, pois a frota de carros continuará aumentando e as rodovias ficarão cada vez mais entupidas. Alguém acha que não?


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