quinta-feira, 25 de junho de 2015

Lapidaram a menina do Candomblé: os fariseus estão de volta!

Zildo Gallo


Leio hoje, dia 24 de junho de 2015, no portal G1, pertencente à Rede Globo, a seguinte matéria: Menina vítima de intolerância religiosa diz que vai ser difícil esquecer pedrada (1). Transcrevo abaixo o conteúdo da matéria e a seguir alguns comentários postados por leitores, sobre os quais já adianto um parecer: são minimamente muito lamentáveis. Muitas vezes eu tenho a impressão de que estamos vivendo um novo tempo de trevas, de muita ignorância, em pleno século XXI, quando já se vão quase cinco décadas da caminhada dos astronautas americanos sobre o solo da Lua e quando os cientistas conseguiram observar, em 2014, o Bóson de Higgs, a partícula responsável pela massa da matéria. À matéria do G1, depois tecerei alguns comentários sobre o assunto.
A marca da violência está na cabeça da menina de 11 anos que foi agredida no Subúrbio do Rio por intolerância religiosa, mas esta não é a maior cicatriz. “Achei que ia morrer. Eu sei que vai ser difícil. Toda vez que eu fecho o olho eu vejo tudo de novo. Isso vai ser difícil de tirar da memória”, afirmou Kailane Campos, que é candomblecista e foi apedrejada na saída de um culto. Ela deu a declaração em entrevista ao RJTV desta terça-feira (16).
A garota foi agredida no último domingo (14) e, segundo a avó, que é mãe de santo, todos estavam vestidos de branco, porque tinham acabado de sair do culto. Eles caminhavam para casa, na Vila da Penha, quando dois homens começaram a insultar o grupo. Um deles jogou uma pedra, que bateu num poste e depois atingiu a menina.
“O que chamou a atenção foi que eles começaram a levantar a Bíblia e a chamar todo mundo de ‘diabo’, ‘vai para o inferno’, ‘Jesus está voltando’", afirmou a avó da menina, Káthia Marinho.
Na delegacia, o caso foi registrado como preconceito de raça, cor, etnia ou religião e também como lesão corporal, provocada por pedrada. Os agressores fugiram num ônibus que passava pela Avenida Meriti, no mesmo bairro. A polícia, agora, busca imagens das câmeras de segurança do veículo para tentar identificar os dois homens.
A avó da criança lançou uma campanha na internet e tirou fotos segurando um cartaz com as frases: “Eu visto branco, branco da paz. Sou do candomblé, e você?”. A campanha recebeu o apoio de amigos e pessoas que defendem a liberdade religiosa. Uma delas escreveu: "Mãe Kátia, estamos juntos nessa".
Iniciada no candomblé há mais de 30 anos, a avó da garota diz que nunca havia passado por uma situação como essa.
Transcrevo a seguir alguns comentários, exatamente como foram escritos, cheios de erros de português, sobre a matéria do portal G1, que considero, inclusive, bem difícil de serem comentados por conta da profunda ignorância existente na densa matéria de suas feituras:
·      Sei que isso que fizeram com a menina foi errado. Mas eu não consigo ter pena de gente que frequenta uma droga de ceita [seita com c?] onde sacrificam animais.
·      PELO QUE EU TO VENDO AQUI NOS COMENTÁRIOS, ESSE SITE DA GLOBO TA CHEIO DE PARÇAS DO DEMÔNIO EM SÓ DA NEGO APOIANDO OS SATANISTAS!!! JESUS TA VENDO ISSO EM, NO DIA DO JUIZO FINAL NÃO VAI ADIANTAR PEDIR CLEMENCIA NÃO EM NEGADA!
·      É muito fácil criticar o rapaz que atirou a pedra, ninguém aqui sabe se a menina mereceu levar a pedrada!
·      Não é só eles não os LGBT e esse Jean Wiliam [Jean Wyllis?] tem culpa também violência gera violência.
·      A maioria dos pais de santo é gay.
·      Ninguém leva uma pedrada de graça, é preciso ver o que essa menina fez para merecer isso.
É óbvio que a cada um desses comentários, surgiram outros no sentido contrário e, repetindo o que já se tornou algo comum, o site virou um palco de guerra. É uma pena, mas é difícil não reagir a tanta sandice. Pelo que tenho observado em várias matérias com teor parecido, o preconceituoso não o é em apenas um assunto, mas em vários, geralmente em todos. A mesma pessoa que não tolera as religiões de origem africana, não toleram os homossexuais, são a favor da diminuição da maioridade penal, a favor da pena de morte etc. etc. etc. O comentário "A maioria dos pais de santo é gay" dispensa qualquer comentário e exemplifica o que estou dizendo. Como comentar isso?
Durante as eleições de 2014, todo esse detrito veio à tona, trazido pela maré da suprema ignorância. No Estado de São Paulo a coisa ganhou dimensões mais absurdas ainda, pois surgiu com muita força um ódio aos pobres e aos nordestinos como nunca tinha sido visto antes. Assim, aos preconceitos por conta da religião, da raça e da sexualidade, somam-se os preconceitos sociais. Neste sentido, transcrevo aqui um comentário sobre o que agora escrevo, que foi postado nessa matéria do G1: "Parabéns Aécio, Malafaia, Bolsonaro, Felicciano e Olavo de Carvalho pela campanha de ódio disseminada, estão colhendo os resultados... Brasil de paz e respeito entre as demais religiões é pedir muito?" Será que o comentarista tem alguma razão?
Todavia, para provar que nem tudo está perdido, na contramão da ideia de que a humanidade é um projeto que não deu certo, no meio de todos os comentários, eis que surge um de um cristão adventista que merece ser citado: "Sou adventista do sétimo dia e quero manifestar a minha profunda tristeza e indignação para com a agressão sofrida pela menina Kailane Campos. Essa ação merece repúdio e prisão. Essas não são pessoas cristãs. Não merecem essa denominação. Cristo assentou-se junto aos desvalidos e não impôs Seu pensamento. Deixou a cada um a escolha. O Deus que conheço é de amor, tolerância, respeito ao livre arbítrio e não da perseguição covarde, da imposição do pensamento, da tirania. Apesar da escolha dela ser diferente da minha, não cabe a ninguém impor a sua religião em detrimento da dos outros".
"Não cabe a ninguém impor a sua religião em detrimento da dos outros", eis a essência da tolerância religiosa e todos já sabem que ela é fundamental para a boa convivência social. Muito violência já aconteceu e ainda acontece no mundo por conta da falta de tolerância religiosa. Tudo está registrado nos livros de história, numa infinidade deles. Aos religiosos fica uma sugestão: busquem outras leituras, indo além da Bíblia, do Corão e da Torá (textos sagrados para as religiões de origem abraâmicas).
Eles não precisam ir muito longe atrás de escritos. A literatura cristã está repleta de informações sobre as diferentes formas de intolerância. Se o evangélico apedrejador tivesse alguma informação sobre o primitivismo do seu ato à luz do cristianismo, ele deveria cair de joelhos aos pés de Kailane e pedir-lhe perdão.
O apedrejamento, também conhecido como lapidação, conforme se deduz da leitura do Levítico (24:15,16), era uma forma de aplicar a pena de morte pelos hebreus. Para os olhos de hoje, os procedimentos tendem a ser considerados bárbaros para a maioria dos povos: arrancavam todas as roupas do condenado à lapidação, exceto uma faixa, que lhe cingia os rins; um primeiro apedrejador lançava uma primeira pedra para atingi-lo no peito, acima do coração; se esta primeira pedrada não lhe desse a morte, as outras pessoas ali presentes o cobririam de pedradas, até o momento da sua morte. Fecho os olhos e consigo visualizar a fúria e a satisfação mórbida da turba enfurecida, um horror!
O apedrejador carioca deveria saber que no Novo Testamento é revisto o uso da lapidação, ou melhor, da pena capital. É por demais conhecida a passagem do evangelho onde Jesus rejeitou o apedrejamento de uma mulher adúltera. No judaísmo da época o adultério era um crime gravíssimo e deveria ser punido com a morte. Que eu saiba, não existe nenhuma passagem no Novo Testamento que indique a lapidação como pena a ser adotada para os não cristãos. O comentário do cristão adventista, acima, serve para confirmar o que escrevo aqui.
Parece que o carioca atirador de pedras tentou ressuscitar o espírito das leis farisaicas, anteriores à ascensão do cristianismo, que hoje não são mais praticadas pelo judaísmo. Desconheço a existência de casos de judeus atirando pedras nos pecadores hoje em dia. Se alguém souber de algum, conte para mim.
Neste momento, é bem vinda a lembrança de que muitos cristãos dos primeiros tempos foram lapidados e que São Paulo comandava aquelas execuções, pois era um fariseu poderoso e zeloso das tradições do judaísmo, que estava incumbido de perseguir, prender e matar a pedradas os seguidores de Jesus. O caso mais famoso de lapidação foi o de Santo Estevão, o primeiro mártir da cristandade. Estevão fazia parte da primeira comunidade cristã de Jerusalém e era um dos judeus helenistas (dominava a língua grega) provenientes da diáspora, que foram os primeiros a se afastar da cidade para difundir o Evangelho.
Não vou relatar aqui porque é por demais conhecido o episódio da conversão de Paulo ao cristianismo, mas é importante lembrar que, a partir dela, ele se arrependeu de verdade do seu papel de verdugo dos cristãos. Então, ele se tornou um pacifista, assim como todo bom cristão. O cristianismo nasceu e cresceu nos seus primeiros tempos sob a bandeira da paz. É sempre bom lembrar disso, pois na sua longa trajetória ele acabou cometendo o mesmo pecado da intolerância dos fariseus, inclusive com o mesmo nível de violência. Em pleno século XXI, assistir episódios de intolerância, como este relatado aqui, é muito triste. Todavia, há que se ter muita compaixão pelos ignorantes: "perdoai-os Pai, eles não sabem o que fazem".

(1) http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2015/06/menina-vitima-de-intolerancia-religiosa-diz-que-vai-ser-dificil-esquecer-pedrada.html#


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