terça-feira, 30 de junho de 2015

Encíclica Ambiental do Papa Francisco: uma revolução cultural

Zildo Gallo


Enfim um grande documento da Igreja Católica sobre a questão ambiental, a encíclica do Papa Francisco: Lettera Enciclica Laudato Si' del Santo Padre Francesco sulla Cura della Casa Comune (Carta Encíclica Laudato Si' do Papa Francisco sobre o Cuidado da Casa Comum). O grande avanço desse documento é a adoção do conceito de ecologia integral, que avança para além do discurso antropocêntrico predominante na maioria dos meios de comunicação e nos discursos dos governos e de instituições internacionais como a ONU, por exemplo.
A visão da ecologia integral é o que ela tem que ser, de fato: sistêmica. Isto significa que ela vê todas as coisas participando de um mesmo todo, dentro do qual tudo existe e tudo se movimenta, todos os seres, humanos e não humanos, indistintamente. A visão antropocêntrica afasta o ser humano da natureza e, pior ainda, coloca-o como um ser dominador sobre os demais, não como um convivente. Esta visão biocêntrica inerente à concepção de ecologia integral coloca para os homens, por conta da sua atual situação privilegiada nos ecossistemas planetários, um novo papel, o de cuidadores.
Os papas anteriores abordavam a ecologia de forma fragmentada, pontual, não muito diferente das abordagens não religiosas predominantes. Com Francisco a abordagem tornou-se sistêmica, encaixando-se dentro de um novo paradigma, que vem sendo construído há mais ou menos um século, a partir da biologia, da física quântica e da filosofia. Ele colocou a Igreja Católica definitivamente dentro do debate urgente e necessário, mais que necessário, sobre a questão sobrevivência da humanidade e de todas as formas de vida, que se encontram ameaçadas pelas mazelas provocadas pela forma predatória de exploração econômica do planeta Terra, que tem produzido desastres ambientais e sociais de grande monta.
Um ponto tem que ser destacado na Encíclica: a afirmação da verdade científica sobre o aquecimento global, que vive sendo negada por agentes da ciência a serviço do grande capital. O grande capital já sentiu o golpe e está reagindo, principalmente nos Estados Unidos, mas agora estão diante de um agente que tem alcance global, como as suas corporações; um gigante entrou no combate por um planeta melhor dos pontos de vista social e ambiental. Como um minúsculo combatente das causa socioambientais, sinto-me fortalecido com a entrada do Papa na arena e acho que muitos outros (opositores ao tipo de economia que destrói o ambiente e cria exclusão social quando produz riqueza) sentiram o mesmo.
Agora, para fazer justiça à Igreja Católica, há que se mostrar aqui que a sua defesa das questões ambientais é bem antiga. Como professor do Curso de Pós-Graduação em Desenvolvimento Territorial e Meio Ambiente (Mestrado e Doutorado) do Centro Universitário de Araraquara (UNIARA), orientei o Padre Jorge João Aparecido Nahra na sua dissertação de mestrado que tem o seguinte título: Ética e meio ambiente: considerações sobre os textos-base das campanhas da fraternidade de 1979 e 2011, defendida em 2012. Uma versão resumida da pesquisa elaborada e defendida por Padre Jorge foi publicada na  Revista UNIARA, v. 17, n. 2, dez/2014, com o título: A Igreja Católica e o meio ambiente: considerações sobre os textos-base da Campanha da Fraternidade a Partir do Concílio Vaticano II. Tanto a dissertação como o artigo estão disponíveis online nos endereços apontados no rodapé deste artigo.
No artigo da revista, está ressaltado que, devido à tarefa central da Igreja (evangelização), ela quer oferecer através de suas campanhas contribuições para que a sociedade possa viver uma vida melhor. No Brasil, ela se faz presente na Campanha da Fraternidade, organizada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que propõe reflexões para despertar as consciências dos homens sobre os temas abordados a cada ano. As questões ambientais foram abordadas de formas diretas e indiretas em várias campanhas, que serão elencadas a seguir.
A Campanha da Fraternidade enfocou diretamente a questão ambiental nos seguintes anos com os seguintes temas: 1979, Por um mundo mais humano - Preserve o que é de todos; 2004, Água, Fonte de vida; 2007, Vida e missão neste chão; 2011, Fraternidade e a vida no Planeta. Especialmente em 2011 ela apresentou também um lema: A criação geme em dores de parto (RM 8,22).
Comparativamente, é possível afirmar que a Campanha de 2011 foi a que trabalhou com maior profundidade o tema meio ambiente, pois seu texto-base apresentou o seguinte objetivo geral: "Contribuir para a conscientização das comunidades cristãs e pessoas de boa vontade sobre a gravidade do aquecimento global e das mudanças climáticas e motivá-las a participar dos debates e ações que visam enfrentar o problema e preservar as condições de vida no planeta". Pode-se dizer que a Campanha de 2011 é um prenúncio da Encíclica do Papa Francisco pela atualidade das questões abordadas.
Outras Campanhas da Fraternidade trataram de forma indireta o meio ambiente: 1984, Para que todos tenham vida; 1985, Pão para quem tem fome; 1986, Terra de Deus, Terra de irmãos; 1991, Solidários na dignidade do trabalho; 1993, Onde moras?; 1998, A serviço da vida e da esperança; 2000, Dignidade humana e paz; 2002, Por uma terra sem males; 2005, Felizes os que promovem a paz; 2008, Escolhe, pois a vida (Dt 30, 19); 2009, A paz é fruto da justiça; 2010, Vocês não podem servir a Deus e ao Dinheiro. Todos os textos dessas Campanhas tocaram em alguns aspectos da questão ambiental. Por exemplo, a de 2010 falou da transformação da água em mercadoria e sobre a degradação do meio ambiente. As referências bibliográficas completas sobre os textos das Campanhas estão disponíveis na dissertação de mestrado e no artigo publicado na Revista UNIARA (links no rodapé).
As Campanhas da Fraternidade não se fundamentam em cima do nada e nem apenas na vontade dos membros da CNBB. Os documentos do Vaticano e as Encíclicas papais são as âncoras onde eles se firmam. Neste sentido, há um acúmulo de informações e contribuições que remontam ao Concílio Vaticano II. A partir dele, a preocupação social da Igreja avançou e também teve início uma preocupação de caráter ambiental. Na Gaudim et Spes (1965), por exemplo, já constou que é preciso "prever o futuro, estabelecendo justo equilíbrio entre as necessidades atuais de consumo, individual e coletivo, e as exigências de inversão de bens para as gerações futuras" (GS 70); eis o prenúncio do conceito de "desenvolvimento sustentável", cujo fundamento está na preservação dos recursos naturais para as futuras gerações.
A partir do Concílio Vaticano II, todos os papas (Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI) expressarão suas preocupações sobre as questões ambientais. Neste sentido, aconteceu um acúmulo importante de informações e intenções, sem quebras de continuidade. Os documentos citados neste pequeno artigo estão todos disponíveis em publicações de editoras católicas brasileiras e no site do Vaticano (www.vatican.va). Só para se ter uma ideia da riqueza de ideias acumuladas, transcreve-se aqui um trecho da fala do Papa Paulo VI para a Conferência sobre Meio Ambiente de Estocolmo, de 1972:
"Mas como se hão de ignorar os desequilíbrios provocados na biosfera, devidos à exploração desordenada das reservas físicas do planeta, até com o propósito de produzir bens úteis, como, por exemplo, o desperdício dos recursos naturais não renováveis, a poluição do solo, da água, do ar e do espaço, com os consequentes atentados contra a vida vegetal e animal?" (Paulo VI, 1972).
A construção de caminhos para uma cultura de preservação e recuperação do meio ambiente degradado é tarefa que deve ser feita por muitas mãos. As famílias, as escolas, os governos, as empresas, as organizações da sociedade civil etc. têm importantes papéis a cumprir neste processo. A Igreja Católica já vinha fazendo a sua parte, mas com a Encíclica do Papa Francisco ela foi além, deu um salto quântico. Se os milhões de católicos abraçarem a causa, mudanças importantes poderão ocorrer. O Papa argentino tem surpreendido positivamente o mundo. Há pouco tempo ele mediou o encontro histórico entre o presidente de Cuba, Raul Castro, e o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama; só para lembrar de um feito nada pequeno. Que ele tenha muita saúde e uma longa vida!

Referências

NAHRA, J.J.A. Ética e meio ambiente: considerações sobre os textos-base das campanhas da fraternidade de 1979 e 2011. Dissertação (Mestrado). Programa de Mestrado em Desenvolvimento Regional e Meio Ambiente, Centro Universitário de Araraquara - UNIARA, 2012.
<http://www.uniara.com.br/arquivos/file/cursos/mestrado/desenvolvimento_regional_meio_ambiente/dissertacoes/2012/jorge-joao-aparecido-nahra.pdf>

NAHRA, J.J.A; GALLO, Z.; SOSSAE, F.C.; BAPTISTA, K.A. A Igreja Católica e o meio ambiente: considerações sobre os textos-base da Campanha da Fraternidade a partir do Concílio Vaticano II. Revista UNIARA, v. 17, n. 2, dezembro/2014.
<http://www.uniara.com.br/legado/revistauniara/pdf/33/artigo_05.pdf>

PAULO VI. Mensagem à Conferência sobre Meio Ambiente de Stockolm: As preocupações ecológicas e as exigências do desenvolvimento. Roma: Osservatore Romano, 18/06/1972.

PS.: Dois dias depois de escrever este artigo, quando cheguei na secretaria do Curso de Pós-Graduação em Desenvolvimento Territorial e Meio Ambiente em Araraquara, encontrei no meu escaninho uma correspondência endereçada a mim. Tratava-se de um livro: Carta Encíclica Laudato Si" - Sobre o Cuidado da Casa Comum, do Papa Francisco, uma edição em português, da Paulinas. Foi um presente enviado pelo meu ex-orientando, Padre Jorge. Fiquei muito contente, é óbvio, pela agradável sincronicidade. Tive acesso anteriormente a uma edição italiana que baixei pela internet e, a partir dela e da leitura de alguns comentaristas, escrevi o presente artigo. Transcrevo aqui a gentil missiva do Padre Jorge:

Matão, 29 de junho de 2015
Estimado Prof. Dr. Zildo Gallo
Quando o Papa Francisco manifestou o desejo de escrever uma Carta Encíclica sobre o meio ambiente, o meu pensamento voltou-se para o Mestrado em Desenvolvimento Regional e Meio Ambiente do qual participei.
Assim, tomei a liberdade de enviar um exemplar da Carta Encíclica do Papa Francisco - Sobre o Cuidado da Casa Comum.
Espero que esse documento possa colaborar com os objetivos do curso, bem como para o seu conhecimento.
Mais uma vez agradeço toda a atenção e colaboração recebida durante o curso. Muito obrigado!
Abraço fraterno,
Jorge João Ap. Nahra

Transcrevo aqui também o primeiro parágrafo da Carta Encíclica, apenas para registrar o seu singelo e, ao mesmo tempo, majestoso início:

1. "Laudato si', mi' Signori - Louvado sejas, meu Senhor", cantava São Francisco de Assis. Neste gracioso cântico, recordava-nos que a nossa casa comum se pode comparar ora a uma irmão, com quem partilhamos a existência, ora a uma boa mãe, que nos acolhe nos seus braços: Louvado sejas, meu Senhor, pela nossa irmã, a mãe terra, que nos sustenta e governa e produz variados frutos com flores coloridas e verduras" (Cantico delle creature).

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Lapidaram a menina do Candomblé: os fariseus estão de volta!

Zildo Gallo


Leio hoje, dia 24 de junho de 2015, no portal G1, pertencente à Rede Globo, a seguinte matéria: Menina vítima de intolerância religiosa diz que vai ser difícil esquecer pedrada (1). Transcrevo abaixo o conteúdo da matéria e a seguir alguns comentários postados por leitores, sobre os quais já adianto um parecer: são minimamente muito lamentáveis. Muitas vezes eu tenho a impressão de que estamos vivendo um novo tempo de trevas, de muita ignorância, em pleno século XXI, quando já se vão quase cinco décadas da caminhada dos astronautas americanos sobre o solo da Lua e quando os cientistas conseguiram observar, em 2014, o Bóson de Higgs, a partícula responsável pela massa da matéria. À matéria do G1, depois tecerei alguns comentários sobre o assunto.
A marca da violência está na cabeça da menina de 11 anos que foi agredida no Subúrbio do Rio por intolerância religiosa, mas esta não é a maior cicatriz. “Achei que ia morrer. Eu sei que vai ser difícil. Toda vez que eu fecho o olho eu vejo tudo de novo. Isso vai ser difícil de tirar da memória”, afirmou Kailane Campos, que é candomblecista e foi apedrejada na saída de um culto. Ela deu a declaração em entrevista ao RJTV desta terça-feira (16).
A garota foi agredida no último domingo (14) e, segundo a avó, que é mãe de santo, todos estavam vestidos de branco, porque tinham acabado de sair do culto. Eles caminhavam para casa, na Vila da Penha, quando dois homens começaram a insultar o grupo. Um deles jogou uma pedra, que bateu num poste e depois atingiu a menina.
“O que chamou a atenção foi que eles começaram a levantar a Bíblia e a chamar todo mundo de ‘diabo’, ‘vai para o inferno’, ‘Jesus está voltando’", afirmou a avó da menina, Káthia Marinho.
Na delegacia, o caso foi registrado como preconceito de raça, cor, etnia ou religião e também como lesão corporal, provocada por pedrada. Os agressores fugiram num ônibus que passava pela Avenida Meriti, no mesmo bairro. A polícia, agora, busca imagens das câmeras de segurança do veículo para tentar identificar os dois homens.
A avó da criança lançou uma campanha na internet e tirou fotos segurando um cartaz com as frases: “Eu visto branco, branco da paz. Sou do candomblé, e você?”. A campanha recebeu o apoio de amigos e pessoas que defendem a liberdade religiosa. Uma delas escreveu: "Mãe Kátia, estamos juntos nessa".
Iniciada no candomblé há mais de 30 anos, a avó da garota diz que nunca havia passado por uma situação como essa.
Transcrevo a seguir alguns comentários, exatamente como foram escritos, cheios de erros de português, sobre a matéria do portal G1, que considero, inclusive, bem difícil de serem comentados por conta da profunda ignorância existente na densa matéria de suas feituras:
·      Sei que isso que fizeram com a menina foi errado. Mas eu não consigo ter pena de gente que frequenta uma droga de ceita [seita com c?] onde sacrificam animais.
·      PELO QUE EU TO VENDO AQUI NOS COMENTÁRIOS, ESSE SITE DA GLOBO TA CHEIO DE PARÇAS DO DEMÔNIO EM SÓ DA NEGO APOIANDO OS SATANISTAS!!! JESUS TA VENDO ISSO EM, NO DIA DO JUIZO FINAL NÃO VAI ADIANTAR PEDIR CLEMENCIA NÃO EM NEGADA!
·      É muito fácil criticar o rapaz que atirou a pedra, ninguém aqui sabe se a menina mereceu levar a pedrada!
·      Não é só eles não os LGBT e esse Jean Wiliam [Jean Wyllis?] tem culpa também violência gera violência.
·      A maioria dos pais de santo é gay.
·      Ninguém leva uma pedrada de graça, é preciso ver o que essa menina fez para merecer isso.
É óbvio que a cada um desses comentários, surgiram outros no sentido contrário e, repetindo o que já se tornou algo comum, o site virou um palco de guerra. É uma pena, mas é difícil não reagir a tanta sandice. Pelo que tenho observado em várias matérias com teor parecido, o preconceituoso não o é em apenas um assunto, mas em vários, geralmente em todos. A mesma pessoa que não tolera as religiões de origem africana, não toleram os homossexuais, são a favor da diminuição da maioridade penal, a favor da pena de morte etc. etc. etc. O comentário "A maioria dos pais de santo é gay" dispensa qualquer comentário e exemplifica o que estou dizendo. Como comentar isso?
Durante as eleições de 2014, todo esse detrito veio à tona, trazido pela maré da suprema ignorância. No Estado de São Paulo a coisa ganhou dimensões mais absurdas ainda, pois surgiu com muita força um ódio aos pobres e aos nordestinos como nunca tinha sido visto antes. Assim, aos preconceitos por conta da religião, da raça e da sexualidade, somam-se os preconceitos sociais. Neste sentido, transcrevo aqui um comentário sobre o que agora escrevo, que foi postado nessa matéria do G1: "Parabéns Aécio, Malafaia, Bolsonaro, Felicciano e Olavo de Carvalho pela campanha de ódio disseminada, estão colhendo os resultados... Brasil de paz e respeito entre as demais religiões é pedir muito?" Será que o comentarista tem alguma razão?
Todavia, para provar que nem tudo está perdido, na contramão da ideia de que a humanidade é um projeto que não deu certo, no meio de todos os comentários, eis que surge um de um cristão adventista que merece ser citado: "Sou adventista do sétimo dia e quero manifestar a minha profunda tristeza e indignação para com a agressão sofrida pela menina Kailane Campos. Essa ação merece repúdio e prisão. Essas não são pessoas cristãs. Não merecem essa denominação. Cristo assentou-se junto aos desvalidos e não impôs Seu pensamento. Deixou a cada um a escolha. O Deus que conheço é de amor, tolerância, respeito ao livre arbítrio e não da perseguição covarde, da imposição do pensamento, da tirania. Apesar da escolha dela ser diferente da minha, não cabe a ninguém impor a sua religião em detrimento da dos outros".
"Não cabe a ninguém impor a sua religião em detrimento da dos outros", eis a essência da tolerância religiosa e todos já sabem que ela é fundamental para a boa convivência social. Muito violência já aconteceu e ainda acontece no mundo por conta da falta de tolerância religiosa. Tudo está registrado nos livros de história, numa infinidade deles. Aos religiosos fica uma sugestão: busquem outras leituras, indo além da Bíblia, do Corão e da Torá (textos sagrados para as religiões de origem abraâmicas).
Eles não precisam ir muito longe atrás de escritos. A literatura cristã está repleta de informações sobre as diferentes formas de intolerância. Se o evangélico apedrejador tivesse alguma informação sobre o primitivismo do seu ato à luz do cristianismo, ele deveria cair de joelhos aos pés de Kailane e pedir-lhe perdão.
O apedrejamento, também conhecido como lapidação, conforme se deduz da leitura do Levítico (24:15,16), era uma forma de aplicar a pena de morte pelos hebreus. Para os olhos de hoje, os procedimentos tendem a ser considerados bárbaros para a maioria dos povos: arrancavam todas as roupas do condenado à lapidação, exceto uma faixa, que lhe cingia os rins; um primeiro apedrejador lançava uma primeira pedra para atingi-lo no peito, acima do coração; se esta primeira pedrada não lhe desse a morte, as outras pessoas ali presentes o cobririam de pedradas, até o momento da sua morte. Fecho os olhos e consigo visualizar a fúria e a satisfação mórbida da turba enfurecida, um horror!
O apedrejador carioca deveria saber que no Novo Testamento é revisto o uso da lapidação, ou melhor, da pena capital. É por demais conhecida a passagem do evangelho onde Jesus rejeitou o apedrejamento de uma mulher adúltera. No judaísmo da época o adultério era um crime gravíssimo e deveria ser punido com a morte. Que eu saiba, não existe nenhuma passagem no Novo Testamento que indique a lapidação como pena a ser adotada para os não cristãos. O comentário do cristão adventista, acima, serve para confirmar o que escrevo aqui.
Parece que o carioca atirador de pedras tentou ressuscitar o espírito das leis farisaicas, anteriores à ascensão do cristianismo, que hoje não são mais praticadas pelo judaísmo. Desconheço a existência de casos de judeus atirando pedras nos pecadores hoje em dia. Se alguém souber de algum, conte para mim.
Neste momento, é bem vinda a lembrança de que muitos cristãos dos primeiros tempos foram lapidados e que São Paulo comandava aquelas execuções, pois era um fariseu poderoso e zeloso das tradições do judaísmo, que estava incumbido de perseguir, prender e matar a pedradas os seguidores de Jesus. O caso mais famoso de lapidação foi o de Santo Estevão, o primeiro mártir da cristandade. Estevão fazia parte da primeira comunidade cristã de Jerusalém e era um dos judeus helenistas (dominava a língua grega) provenientes da diáspora, que foram os primeiros a se afastar da cidade para difundir o Evangelho.
Não vou relatar aqui porque é por demais conhecido o episódio da conversão de Paulo ao cristianismo, mas é importante lembrar que, a partir dela, ele se arrependeu de verdade do seu papel de verdugo dos cristãos. Então, ele se tornou um pacifista, assim como todo bom cristão. O cristianismo nasceu e cresceu nos seus primeiros tempos sob a bandeira da paz. É sempre bom lembrar disso, pois na sua longa trajetória ele acabou cometendo o mesmo pecado da intolerância dos fariseus, inclusive com o mesmo nível de violência. Em pleno século XXI, assistir episódios de intolerância, como este relatado aqui, é muito triste. Todavia, há que se ter muita compaixão pelos ignorantes: "perdoai-os Pai, eles não sabem o que fazem".

(1) http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2015/06/menina-vitima-de-intolerancia-religiosa-diz-que-vai-ser-dificil-esquecer-pedrada.html#


quarta-feira, 17 de junho de 2015

Sobre carros e ônibus: porque sai mais barato viajar de carro

Zildo Gallo


No meu artigo "Transporte individual e crise ambiental: o caso da Grande São Paulo", publicado neste blog em 2 de junho de 2015, eu falei sobre os problemas causados pelos automóveis na capital paulista e nos municípios do seu entorno: poluição do ar e congestionamentos. Ocorre que os automóveis não são problemáticos só nas regiões metropolitanas, eles também estão congestionando muitas rodovias e, por decorrência, criando poluição do ar. É só observar a situação de rodovias como a Presidente Dutra, a Anhanguera, a Bandeirantes, a Regis Bittencourt, a Fernão Dias, a Castelo Branco, entre outras, que cortam as áreas mais industrializadas e urbanizadas do Brasil.
O mesmo remédio sugerido para a Grande São Paulo serve para as rodovias que estão sobrecarregadas com veículos de passeio e utilitários, que transportam no máximo cinco pessoas: aumento do uso de transporte coletivo. Acontece que no Brasil os meios coletivos de transporte foram desestimulados, enquanto que o transporte individual foi amplamente estimulado, principalmente pelos governantes do período da ditadura militar (os eleitos não mudaram a prioridade), com destaque para o modal ferroviário, que acabou sendo sucateado quando deveria ter sido modernizado, como aconteceu nos países europeus, por exemplo.
Retomar o transporte de pessoas pelas ferrovias não é algo que se faça da noite para o dia, pois implica em muito planejamento e investimento. Todavia, em algum momento, isso precisa acontecer, tem que acontecer. O que dá para se fazer mais rapidamente é estimular o transporte de passageiros por meio de ônibus. Isso já implicaria na retirada de muitos carros das estradas, pois os automóveis transportam no máximo cinco pessoas, enquanto os ônibus conduzem entre 46 e 50 passageiros por viajem. Simples, então é só dar início a uma campanha: "Viaje de ônibus e contribua com o meio ambiente". Não é bem assim, algumas barreiras econômicas precisam ser derrubadas. Muitas vezes, talvez na maioria das vezes, o transporte individual é mais barato que o coletivo. Que absurdo! Não tem absurdo nenhum, é o que mostrarei a seguir.
Resolvi comparar os gastos com viagens de automóvel e de ônibus a partir de Campinas (SP) para dez municípios selecionados: Rio de Janeiro (RJ), Presidente Prudente (SP), Araraquara (SP), Ribeirão Preto (SP), São José dos Campos (SP), Curitiba (PR), Belo Horizonte (MG), Santos (SP), Franca (SP) e São José do Rio Preto (SP).
Para realizar o meu estudo comparado percorri os seguintes passos: a) considerei a mesma distância percorrida para os dois meios de transporte (tabela 1); b) adotei o mês de junho de 2015 como base para os preços das passagens de ônibus (tabela 1); c) considerei a gasolina como combustível para os carros; d) assumi a média dos preços da gasolina levantada pela ANP (Agência Nacional do Petróleo) para Campinas na primeira dezena de junho de 2015, R$ 3,17; e) adotei o Fiat Pálio 1.6 como o veículo da pesquisa pelo fato de ter sido o Pálio o modelo de carro mais vendido no Brasil, no ano de 2014; f) considerei como quilometragem média na estrada a publicada pelo INMETRO (Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e tecnologia) para 2015, 11,8 km por litro de combustível e, por último; g) para o transporte por carro considerei as seguintes situações: um, dois, três e cinco passageiros.

Tabela 1 - Viagens de ônibus a partir de Campinas/SP
Destino a partir de Campinas
Distância por rodovias - Km
Preço da passagem ônibus convencional*
Rio de Janeiro/RJ
495
R$ 92,30
Presidente Prudente/SP
544
R$ 123,95
Araraquara/SP
185
R$ 43,30
Ribeirão Preto/SP
224
R$ 55,44
São José dos Campos/SP
148
R$ 41,50
Curitiba/PR
479
R$ 122,23
Belo Horizonte/MG
585
R$ 103,16
Santos/SP
175
R$ 49,30
Franca/SP
306
R$ 77,44
São José do Rio Preto/SP
349
R$ 80,00
* Preços de junho de 2015 - Rodoviária de Campinas

Para chegar aos gastos totais com as viagens para cada um dos destinos eu fiz o seguinte percurso:  1) precifiquei o consumo de gasolina a partir do total de quilômetros rodados em rodovias, considerando a quilometragem informada pelo INMETRO e o preço médio levantado pela ANP; 2) levantei os valores dos pedágios para cada destino; 3) somei os gastos com gasolina com os gastos com pedágios e; 4) dividi a soma dos gastos por um, dois, três e cinco viajantes. Assim, montei a tabela 2, abaixo.

Tabela 2 - Viagens de carro (Pálio 1.6) a partir de campinas/SP
Destino a partir de Campinas
Km
*Gasto gasolina
Gasto pedágio
**Um viajante
**Dois viajantes
**Três viajantes
**Cinco viajantes
Rio de Janeiro/RJ
495
132,98
57,40
190,38
95,19
63,46
38,08
Presidente Prudente/SP
544
146,14
78,80
224,94
112,47
74,98
44,99
Araraquara/SP
185
49,70
31,10
80,80
40,40
26,93
16,16
Ribeirão Preto/SP
224
60,18
36,90
97,08
48,54
32,36
19,42
São José dos Campos/SP
148
39,76
24,70
64,46
32,23
21,49
12,89
Curitiba/PR
479
128,68
28,90
157,58
78,79
52,53
31,52
Belo Horizonte/MG
585
157,16
23,90
181,06
90,53
60,35
36,21
Santos/SP
175
47,01
41,60
88,61
44,31
29,54
17,72
Franca/SP
306
82,21
52,50
134,71
67,35
44,90
26,94
São José do Rio Preto/SP
349
93,76
36,90
130,66
65,33
43,55
26,13
* Quilometragem média: 11,8 Km/l  (INMETRO - 2015) - Preço médio: R$ 3,17 (ANP - jun/2015)
** Gasto médio por passageiro (R$)

Pela tabela 2, observa-se que só é vantagem viajar de ônibus quando o passageiro segue sozinho, pois, a partir de dois, a vantagem desaparece e, quando o carro completa a sua lotação (cinco), os gastos de cada um representam uma fração pequena dos preços das passagens individuais para cada um dos destinos escolhidos. Para se compreender melhor o que pretendo dizer, montei a tabela 3, onde comparo os gastos com as viagens de ônibus e de carro.

Tabela 3 - Gastos comparados: viajem de ônibus versus viajem de carro (R$)*
Destino a partir de Campinas
Viajem de ônibus
Carro: um viajante
Carro: dois viajantes
Carro: três viajantes
Carro: cinco viajantes
Rio de Janeiro/RJ
92,30
190,38
95,19
63,46
38,08
Presidente Prudente/SP
123,95
224,94
112,47
74,98
44,99
Araraquara/SP
43,30
80,80
40,40
26,93
16,16
Ribeirão Preto/SP
55,44
97,08
48,54
32,36
19,42
São José dos Campos/SP
41,50
64,46
32,23
21,49
12,89
Curitiba/PR
122,23
157,58
78,79
52,53
31,52
Belo Horizonte/MG
103,16
181,06
90,53
60,35
36,21
Santos/SP
49,30
88,61
44,31
29,54
17,72
Franca/SP
77,44
134,71
67,35
44,90
26,94
São José do Rio Preto/SP
80,00
130,66
65,33
43,55
26,13
* Montada a partir das tabelas 1 e 2.

É preciso lembrar que os ônibus convencionais conduzem entre 46 e 50 passageiros e um automóvel de passeio conduz no máximo cinco. Quando os automóveis preenchem a carga máxima para os destinos considerados neste breve estudo, os viajantes pagarão as seguintes frações (%) das passagens de ônibus: Rio de Janeiro, 41,25%; Presidente Prudente, 36,29%; Araraquara, 37,32%; Ribeirão Preto, 35,02%; São José dos Campos, 31,06%; Curitiba, 25,78%; Belo Horizonte, 35,1%; Santos, 35,94%; Franca, 34,78% e; São José do Rio Preto, 32,66%. Com duas pessoas num carro só é desvantagem viajar para o Rio de Janeiro, pois os gastos estão 3,13% (só!) acima do preço da passagem de ônibus. Para os demais destinos a vantagem já começa com o segundo passageiro.
É muita desvantagem viajar em grupo no transporte coletivo pelas rodovias brasileiras, pelos menos nas dos estados da Região Sudeste, como demonstra este minúsculo ensaio de pesquisa, e, por conta disso, quando as pessoas decidem viajar juntas, como é o caso das famílias, não há consciência ambiental que suplante tamanha diferença de gastos. Então, não é fácil estimular o transporte coletivo nas rodovias, mas é necessário que tal aconteça; a questão ambiental justifica o estímulo. Eis aí um bom problema para as políticas públicas.
Simplificadamente, os preços das passagens (PP) representam a seguinte soma: gasto com combustível (C) + manutenção da frota (M) + salários (S) + impostos (I) + pedágios (Pd) + lucro (L). Simplificando: PP = C + M + S + I + Pd + L, esta seria a equação do valor das passagens. Ela dá parâmetros para se pensar formas de baratear o transporte coletivo através do modal rodoviário.
Analisando cada item do lado direito da equação. A princípio, todos os itens são passíveis de mudanças para baixo, no sentido do menor custo, mas uns são mais e outros menos. O combustível (C) é passível de mudanças para menores gastos através da prática de preços diferenciados para os transportes públicos, trata-se de uma decisão política; não é uma decisão fácil, pois, em tese, haveria a necessidade de compensar aumentando os preços dos combustíveis para os veículos particulares. Os gastos com manutenção (M) da frota têm pouca elasticidade, pois a sua diminuição pode implicar em riscos para os usuários. Um item importante na manutenção dos veículos é o pneu. As empresas têm a prática de recauchutar os pneus aptos a isso. Isso já é importante, mas, além disso, os governos federal e estaduais poderiam reduzir os impostos sobre os pneus destinados ao transporte coletivo. Como no caso do combustível, os governantes tentariam compensar as perdas tributando mais os pneus dos automóveis, é óbvio. De qualquer forma, sempre se deve privilegiar o transporte coletivo. A questão ambiental sempre solicitará um pensar coletivo, não tem como fugir disso.
Por sua vez, os salários (S) podem ser diminuídos, mas não é conveniente que isso aconteça, pois não é recomendável ter motoristas insatisfeitos, cansados, estressados etc., pois deles depende a segurança dos passageiros; melhor tê-los satisfeitos. Os impostos (I), tanto federais como estaduais, podem ser reduzidos, mas os governantes exigirão alguma compensação em outros tributos; nenhum governo gosta de ter a arrecadação diminuída. Os pedágios (Pd) também podem ser reduzidos, principalmente no Estado de São Paulo, onde os valores estão acima dos demais; trata-se de uma decisão política e as concessionárias oporão resistências, o que é normal. As margens de lucro (L) também podem ser alteradas, mas elas não podem baixar a ponto de diminuir os investimentos, principalmente caso eles sejam necessários para a modernização e a expansão da frota; há limites, mas é possível testá-los. Assim, as políticas públicas no sentido de estimular o transporte coletivo via ônibus podem atuar, considerando todas as dificuldades, sobre os combustíveis, impostos, preços de pneus, pedágios e, até mesmo, sobre o lucro dos investidores.
Finalizando: é preciso estimular o transporte público, não tem outra saída. Postergar isso só agravará mais a situação. Os habitantes das Região Sudeste, que transitam pelas rodovias congestionadas, andando devagar e poluindo muito, quando tiverem opções boas e economicamente mais acessíveis de transporte coletivo, poderão optar por elas. É necessário testar esta hipótese. Não tem outra saída, pois a frota de carros continuará aumentando e as rodovias ficarão cada vez mais entupidas. Alguém acha que não?