sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Sobre a crise do paradigma da civilização ocidental: uma introdução

Zildo Gallo


Para se compreender a crise por qual passa o planeta Terra neste momento da sua história, uma crise que se espraia pela economia, pela sociedade e pelo meio ambiente, é preciso também que se busque a compreensão da crise que se abateu sobre o mundo da ciência a partir da segunda metade do século XX. Assim, deve-se retroceder no tempo, voltando aos primórdios da Revolução Científica, a partir do século XVII, e verificar como nasceu e se formou o atual paradigma, a visão de mundo que serve de baliza ao conhecimento da civilização base­ada na tecnologia e na indústria.
Todavia, caso se queira fazer uma análise mais profunda da relação do ser humano  com a natureza, que é uma questão central no paradigma ocidental, há que se  recuar ainda mais no tempo, pois a separação homem-natureza é uma característica central na filosofia ocidental, cuja matriz localiza-se na Grécia e Roma clássicas. O ocidente  nem sempre foi assim; houve uma época em que o modo de pensar a natureza era antagônico ao da atualidade, pois o mundo dos filósofos pré-socráticos era bastante diferente. Para os gregos, até mesmo após os pré-socráticos, o psíquico também pertencia ao mundo das coisas naturais, fazia parte da physis. Na mitologia grega os deuses não são apenas entidades sobrenaturais, eles integram a natureza e tudo na natureza tem alma. A alma habita a physis, concedendo-lhe a sua inte­ligência, afastando-a, então, da anarquia e do caos. Esta concepção de que as divindades, nas suas mais variadas formas, perten­cem ao mundo natural caracteriza todo o pensa­mento pré-socrático.
Com os filósofos Platão e Aristóteles é que começa um menosprezo à natureza e um maior apreço ao homem e às ideias. Acontece, a partir daí, uma desqualificação dos antigos filósofos, que passam a representar a expres­são de um pen­samento “mítico” e não filosófico. Mais adiante, com a influência judaico-cristã, a oposição homem-natureza e espírito-matéria adquiriu outra dimensão. Para os cristãos, Deus criou o homem à sua imagem e seme­lhança e, assim, ele passou a ser dotado de um privilégio em relação aos demais seres da natureza. Também com o advento do cristianismo, o Deus ocidental subiu aos céus e, instalado em lugar privilegiado, apartado da natureza, atua soberano sobre o mundo material im­perfeito do dia-a-dia dos mortais.
Com o tempo, durante o transcorrer da Idade Média, ao assimilar as filo­sofias de Platão e Aristóteles, o cristianismo consolidou definitivamente a separação entre espírito e matéria. Platão discorria que apenas a “ideia” era per­feita, em oposição à imper­feição da realidade mundana. O cristianismo medievo fará a sua leitura particular de Platão e do platonismo, opondo a realidade divina à imperfeição do mundo material. Com a difusão e crescimento do cris­tianismo, eliminando as antigas reli­giões politeístas do território europeu, os seres divinos não mais habitam a matéria, como na concepção pré-socrática.
Contudo, foi com o filósofo francês René Descartes, em seu Discurso sobre o Método, no sé­culo XVII, que a oposição homem-natureza, espírito-matéria, sujeito-objeto (res cogitans versus res extensa) ficou mais completa, transformando-se no eixo do pensamento ocidental. Dois aspectos do pensar cartesiano marcam a modernidade: 1) o cará­ter pragmático do conhecimento em clara oposição à filosofia especulativa; 2) o antropocen­trismo, o homem é colocado no centro do mundo e torna-se sujeito em relação aos objetos exteriores, em relação à natureza. Estes aspectos provocam dois desdo­bramentos: 1) o cartesianismo passa a ver a natureza como um recurso, um meio para atingir um fim; 2) o homem, possuidor do método científico, pode mergulhar nos mistérios da natureza e, então, tornar-se senhor da natureza, à imagem e semelhança de Deus, que ele acredita ser.
Curiosamente, no mesmo século XVII, Baruch de Spinoza, um contemporâ­neo de René Descartes, desenvolveu concepções diferentes, antagônicas ao pensamento cartesiano. Para ele Deus está em tudo e tudo está em Deus; o universo visível é corpo de Deus e a energia que move o universo é o Seu espí­rito. Spinoza traz Deus de volta ao mundo. Para o filósofo francês a vida consiste em três entidades separadas: um corpo mecânico, um espírito pensante e, acima dos dois, o espírito de Deus. Já Spi­noza combina as três entidades em uma única. Para ele, Deus não está acima do ser, mas dentro de cada ser. Então, o corpo, a inteligência e o espírito são três as­pectos de uma realidade única. O mundo material é o corpo de Deus, o pensamento que o contem­pla é a Sua inteligência e a energia que o move é o Seu espírito.
Por que as concepções de Spinoza não tiveram a mesma projeção que as concepções cartesianas? Por que o ocidente aceitou sem resistências a ideia da separação? Alguns fatores podem ter influen­ciado nessa preferên­cia. Baruch de Spinoza era filho de judeus portugueses num mundo majoritariamente cristão. Sua família saiu de Portugal, fugindo da persegui­ção católica, e fixou residência na Holanda. Esse país foi palco de uma grande ironia: Baruch que significa abençoado em hebraico foi excomungado pela sina­goga de Amsterdã pelas mesmas razões, as suas ideias, que o fariam vítima do Santo Ofício caso fosse católico como era René Descartes, que não chegou a sofrer grandes perseguições. Spinoza ficou sem lugar no mundo. Além disso, o pensamento cartesiano  estava em pleno acordo com o mundo que emergia da Idade Média, marcadamente pragmático e fundamentado na ciência e na técnica, o mundo da burguesia florescente. A filo­sofia do Movimento Iluminista, do século XVIII, consagrará em definitivo o filósofo fran­cês e limpará o pensamento renascentista dos seus últimos traços reli­giosos.
Definitivamente, o antropocentrismo vitorioso legitimará a capacidade hu­mana de dominar a natureza. Por sua vez, a natureza despovoada de deuses, trans­formou-se em objeto e, como objeto, pode ser cortada, dividida, modificada e até destruída. Com o ad­vento da Revolução Industrial essa concepção será levada aos extremos. O século XIX assistirá a vitória do racionalismo e do pragmatismo; a ciência e a tecnologia assumirão, a partir daí, um papel central na existência hu­mana, o que acabará criando, com o correr do tempo separa­ções problemáticas no próprio mundo científico. Num primeiro momento, as ciências da natureza separaram-se das humanidades, criando,desse modo,um abismo entre uma e outra. Hoje, a ecologia enquanto saber e o movimento ecológico denunciam os malefícios dessa divisão.
Outra consequência importante da separação entre homem e natureza, pro­movida pela Revolução Científica é a excessiva fragmentação das ciências. A pri­meira grande divisão que ocorreu foi entre as ciências naturais e as humanas. A partir daí os dois grupos seguem, cada um do seu lado, subdividindo-se continua­mente e produzindo, com esse movimento, um amontoado de especialidades. As especializações, se por um lado estimu­lam um maior conhecimento sobre questões específicas, por outro lado limitam a visão do todo.
As ciências organizaram-se mantendo uma forte separação entre o ser humano e a natureza. Na Zoologia, e parte da Medicina, por exemplo, considera-se o homem como ser natural, desconsiderando a sua sociabilidade. Nas humanidades o homem social é estudado na an­tropologia, na sociologia, na economia, na história, na psicologia, mas  separando-o da natureza. Por sua vez, as ciências naturais desconsideram o poder do homem para transformar e destruir a Natu­reza.
A economia, por exemplo, que teria grande facilidade para promover a integração entre homem e natureza, tampouco o faz. A teoria econômica concen­tra-se em enxergar o mundo apenas pelo lado social, estudando as relações sociais de produção e de troca. Ela se rela­ciona com a natureza considerando-a apenas como uma base de recursos, os chamados recursos naturais. Falta à teoria econômica uma visão mais ampla do processo natural. Não é por acaso que as intervenções econômicas sobre a natureza têm provocado muitos problemas ambientais.
Contribuiu muito para todo este processo de fragmentação do saber a arrogância com que o ocidente vive o seu sonho de poder, a ideia de que o homem é, efetivamente, a imagem e seme­lhança de Deus. O conhecimento tem sido utilizado para justificar as suas ações, desconsiderando as críti­cas e, muitas vezes, dando o caráter de verdade absoluta a certas crenças. Na cultura ocidental, as ciências e as religiões são vistas como saberes concluí­dos, fechados, e isto lhes proporciona uma arrogância própria. O conhecimento disciplinar e a educação têm priorizado os saberes concluídos, ini­bindo a criação de novos saberes. O mundo ocidental, por conta da sua peculiar arrogância intelectual, também tem sido imper­meável à penetração de conheci­mentos de outra origem, no caso os do mundo oriental.
Contudo, alguns avanços já estão acontecendo nos espaços con­sagrados ao conhecimento, os templos da modernidade, as escolas tradicionais, as academias. A disciplinaridade evoluiu para a multidisciplinaridade e tem evoluído com dificuldade para a interdisciplinaridade, que é o diálogo permanente entre os saberes. Todavia, o avanço real, que abre novas possibilidades para o saber, é a transdisciplinaridade, onde os limites de cada ciência são rompidos e elas se interpenetram. Isto só é possível com o fim da arrogância científica. A transdisciplinaridade, ao assumir a incompletude  dos seres humanos, acaba por rejeitar a arro­gância do saber concluído e das certezas pré-estabelecidas e, então, pode propor a humildade da busca permanente. Isto posto, há que se concluir que uma ampla revi­são das ciências é necessária; um olhar-se para dentro de cada um dos cientistas é mais que bem-vindo para o bem da humanidade e da Terra.

Referência
GALLO, Zildo. Ethos, a grande morada humana: economia, ecologia e ética. Itu (SP): Ottoni Editora, 2007. 130 p.


terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Cadê o córrego do Gallo na vila Gallo?

Zildo Gallo

O título deste artigo não é nenhuma brincadeira, é sério. Havia um córrego do Gallo na vila Gallo no município de Americana/SP. É Gallo com dois eles mesmo. Não se trata do macho das galinhas, que se escreve com um ele só, aquela ave que canta no alvorecer de cada dia. Este Gallo que é grafado como o meu sobrenome significa gaulês (originário da Gália). Pelo jeito, sou um descendente de Asterix e de Obelix, como todos os demais cidadãos portadores do  mesmo sobrenome.
Os americanenses mais novos talvez nem imaginem onde se localiza o córrego em questão, mas, com certeza sabem onde fica a Avenida Prefeito Abdo Najar. O córrego fica em baixo dessa avenida. A nascente e todo o córrego estão soterrados. Estranho? Não, nem um pouco. Era e ainda é, em muitos lugares, uma prática comum a canalização de córregos. Trata-se de um atentado à natureza, um dos muitos atentados praticados contra ela no meio urbano. Ali, na avenida, deveria correr um regato com a sua mata ciliar, o que poderia ser uma bela imagem do ponto de vista paisagístico e as cidades carecem de áreas verdes e de belas paisagens para suavizarem a brutalidade da selva de concreto, Americana não foge ao caso.
O cronista carioca Stanislaw Ponte Preta escreveu a obra Febeapá (Festival de besteiras que assola o país), que foi muito lida nos anos setenta, nos tempos da minha adolescência. Toda cidade precisaria de um Stanislaw Ponte Preta para registrar as besteiras praticadas pela gestão municipal, com o apoio e o aplauso de muitos munícipes. A canalização dos córregos está no rol das besteiras de muitas cidades. O município de São Paulo é o campeão nesse tipo de asneira. Quem sabe que o Vale do Anhangabaú em São Paulo era o vale do rio Anhangabaú? Sobre esse corpo d'água passa uma larga avenida. Essa situação se repete em muitas cidades do Brasil. Não se trata, todavia, de uma exclusividade brasileira; muitos outros países também necessitam de cronistas que registrem os seus febeapás.
Por que se canalizaram os córregos? Por dois motivos: 1) com o asfaltamento das ruas, as águas das chuvas corriam rapidamente para os córregos e acabavam provocando inundações e; 2) o despejo do esgoto in natura nos corpos d'água provocavam mal cheiro na vizinhança dos ribeirões, também se alegava questões de saúde pública. São duas saídas bem complicadas. As canalizações dificilmente resolvem as inundações, pois a melhor forma de combatê-las é a pela existência de solo descoberto ou, melhor, coberto apenas com vegetação, em abundância, para possibilitar a infiltração das águas no subsolo. Mas, onde fica a especulação imobiliária, que disputa cada palmo de chão para transformá-lo em dinheiro? Por sua vez, a melhor forma de eliminar o mal cheiro do esgoto e os possíveis riscos à saúde é pelo seu tratamento, desconheço outra. Em relação ao córrego do Gallo, parece-me que os dois argumentos foram usados à época.
Em todas as cidades os argumentos são os mesmos. Hoje, vários países já estão fazendo um tipo de engenharia reversa, estão descobrindo os rios canalizados, retirando sua capas de concreto, mas, no Brasil, isso ainda está longe de acontecer, quiçá um dia... As cidades cresceram em confronto com a natureza e poucas, muito poucas, respeitaram o meio ambiente no seu processo de expansão. Entretanto, esta é uma visão de hoje, pois até poucos anos atrás as questões ambientais não eram colocadas na ordem do dia, pois o que contava era o "progresso" e tudo que se colocasse contra ele era visto como atraso, como antiquado.

Hoje, passando pela Avenida Abdo Najar, que já está toda tomada por construções, parece difícil reverter a situação, talvez impossível. Registro este libelo com dois objetivos: 1) como advertência para outros futuros febeapás e; 2) como protesto pelo confinamento do ribeirão que homenageia a imensa família Gallo de Americana, parece-me que esta é a origem do seu nome, assim como do bairro.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Meditações a partir da horta doméstica da minha casa

Zildo Gallo


No carnaval deste ano, resolvi retomar o cultivo da horta minha doméstica, que há alguns anos vinha mantendo no quintal da minha casa, no município de Campinas/SP. Com o agravamento da estiagem em 2014, eu suspendi o seu cultivo por conta da escassez de água. Chegou a faltar água no condomínio de casas onde moro e, como uso água da rede pública para regar as plantas, achei conveniente suspender por algum tempo as minhas atividades de horticultor à espera de melhoras na situação hídrica da cidade.
As chuvas vieram com maior intensidade no mês de fevereiro. A situação da Região de Campinas melhorou um pouco em relação à disponibilidade de água, só um pouco. Com as chuvas mais firmes, pensei: "não terei de regar tanto e o consumo de água da rede não vai subir muito". O ideal seria que a minha casa já dispusesse de um sistema de captação de água da chuva. A minha família está seriamente propensa a montar esse sistema. Talvez o próprio condomínio monte um sistema. Isto está sendo cogitado pelo coletivo de moradores. Não vou tratar do assunto água, volto à horta.
Então, no sábado de carnaval, eu preparei os canteiros e plantei as mudas. Enquanto revirava a terra, observava a quantidade de vida existente naquele pequeno espaço. O meu quintal é pequeno, mas tem espaço para uma boa horta e para algumas árvores frutíferas. Vi na terra revirada uma infinidade de insetos e de anelídeos. Alguns fungos também eram bem visíveis. Imaginei a existência de uma infinidade de micro-organismos visíveis apenas pelo microscópio; é muita vida num pedacinho de chão. Hoje, no meio rural, terras com essa abundância de vida estão ficando cada vez mais raras, pois o uso cotidiano de máquinas pesadas, de agrotóxicos e de fertilizantes químicos têm empobrecido os solos rurais do ponto de vista da biodiversidade.
Olhando para aquela terra cheia de vida, acabei concluindo que deixá-la em repouso por alguns meses foi de bom alvitre. Veio-me à mente que os antigos agricultores tinham o hábito de deixar parte da terra em repouso por algum tempo. Na idade média europeia, aí pelos séculos XI e XII, os agricultores começaram a dividir as terras em três lotes, cultivando em dois e deixando um em repouso. Tratava-se de um repouso para a lavoura, pois deixavam o gado usá-lo enquanto isso. Costumavam semear trevo para que fosse usado como forragem e o trevo, como hoje é sabido, retira o nitrogênio do ar e o fixa na terra, fertilizando-a. As fezes do gado e o trevo preparavam a terra para o plantio do ano seguinte, quando se fazia o rodízio dos lotes. A introdução dessa forma de manejo do solo rural produziu excedentes agrícolas que contribuíram para o renascimento do comércio em larga escala no continente europeu. As práticas comerciais de grande monta quase desapareceram após a queda do Império Romano. A rotação de culturas, essa prática antiga e sábia, tem sido pouco praticada no Estado de São Paulo por conta do avanço da monocultura, é uma pena...
Não planto trevo e nem tenho gado para adubar a minha horta, mas uso compostos orgânicos para fertilizá-la, dispensando assim os adubos químicos. Trata-se de um manejo correto do ponto de vista da ecologia. Tenho conseguido boas colheitas de hortaliças saudáveis e não é só isto. Para fazer esta agricultura doméstica, tenho que manter quintal permeável, sem calçamento, contribuindo, assim, com a recarga do lençol freático nos dias chuvosos. Sempre é bom lembrar que um dos males da cidade é a impermeabilização excessiva do solo, que se dá pelo asfalto e pelo cimentado dos quintais; a chuva vira escoamento superficial e vai embora para os rios, provocando enchentes recorrentes, todos os anos, durante o período chuvoso.
Em Campinas, para minha facilidade, eu já compro as mudas de hortaliças prontas. Elas são vendidas aos sábados de manhã numa banca montada em frente ao Aeroporto dos Amarais. As mudas prontas adiantam a colheita em mais ou menos um mês, pelos meus cálculos. Nas cidades onde não é possível encontrar fornecedores de mudas, pode-se recorrer aos tradicionais saquinhos de sementes. Muitos são os compradores de mudas, gente de todas as idades e de origens sociais bem diferentes, mas com uma coisa em comum, todos fazem hortas domésticas. Inclusive, existem muitos que as fazem nos apartamentos, usando floreiras. O movimento é tanto que ao lado da banca de mudas instalou-se uma banca de pastéis fritos na hora. Dessa forma, comprar mudas de hortaliças na minha cidade tornou-se um evento social bem agradável e bem vantajoso do ponto de vista financeiro, pois além de serem baratas, à medida que se aumenta a quantidade adquirida, o preço unitário delas cai.
Produzir a sua própria hortaliça, além de sair em conta, significa ganhos importantes em termos da qualidade do produto final, particularmente no sentido da sua sanidade, pois ela fica livre de agrotóxicos, desde que não os use, é óbvio. Como a horta é pequena e está sendo cultivada num solo sadio e rico em nutrientes, com boa variedade de plantas, todas misturadas, como acontece na natureza, os venenos são plenamente dispensáveis, como deveriam ser também no caso das hortaliças compradas nos supermercados e nos varejões. As hortaliças produzidas por mim, eu afirmo, são plenamente seguras e garanto, ainda, são mais saborosas. Além disso, são muito mais frescas, pois as colho no momento do consumo.
Antigamente, quando o Brasil era mais rural, principalmente nas cidades interioranas, fazer horta era uma atividade corriqueira. Os terrenos costumavam ser grandes e, muitas vezes, as moradias urbanas tinham pomares, hortas e até galinheiros. Boa parte da alimentação resolvia-se no ambiente doméstico. Com o crescimento das cidades, os terrenos diminuíram em tamanho, apequenando os quintais, e com aumento dos arranha-céus os quintais desapareceram. Sobrou pouco espaço para a agricultura doméstica e esse espaço restante acabou sendo cimentado por conta da ideia de que terra é sinônimo de sujeira. Na verdade, em poucas décadas, a maioria da população brasileira perdeu completamente o contato com a natureza, principalmente nas grandes metrópoles, como é o caso da Região metropolitana de Campinas, onde habito há cerca de cinco décadas, desde que saí da zona rural na minha infância.
Conseguir um espaço no meio do cimento, ainda que pequeno, para iniciar uma horta pode ser o início de um recontato com o mundo natural. Essa religação é mais que necessária nos dias de hoje, pois, com certeza, a perda de contato tem contribuído de forma decisiva para a degradação ambiental. A natureza tornou-se estranha para a maioria das pessoas, que desconhece o seu funcionamento; é preciso reaprende-la.
As escolas poderiam exercer um papel importante na reconexão homem-natureza. Isso poderia e deveria ser feito de forma prática. Por exemplo, hortas escolares com objetivos pedagógicos, ligadas às disciplinas científicas, contribuiriam para colocar as crianças num contato pró-ativo com o meio ambiente.
O solo poderia ser examinado nas aulas de biologia, onde seriam estudados os insetos e os micro-organismos, estes últimos através dos microscópios. No preparo do composto orgânico haveria a aprendizagem sobre os nutrientes do solo e também sobre o micro-organismos. Os alunos aprenderiam que os nutrientes são moléculas e que estas são formadas por átomos. Seria uma forma agradável de introduzir a Tabela Periódica dos Elementos Químicos, aquela coisa chata de se decorar. Após o cultivo, cada passo do crescimento das plantas poderia ser estudado, o que seria uma boa introdução à botânica. Muitas outras coisas poderiam ser estudadas a partir da horta; a água e o seu papel na criação e na manutenção da vida é uma delas, por exemplo.
Essa forma de aprendizado tem muito a ver com a ideia de alfabetização ecológica preconizada pelo físico e ecólogo Fritjof Capra. As crianças começariam a entender que a natureza é uma grande teia da vida, onde tudo se interliga, e que a horta é uma repetição em miniatura do macrocosmo, como todos os ecossistemas, por menores que sejam. Essa alfabetização ecológica é urgente e necessária, pois nunca antes os seres humanos estiveram tão desligados do mundo natural como agora. Começar com as crianças é um bom começo, talvez seja o melhor começo, pois elas, caso vivam no meio urbano, com certeza, são as mais desconectadas. Seus pais e avós talvez tivessem algum contato com a natureza em tempos idos, mas elas têm poucas possibilidades de contatos frequentes com ela hoje em dia
As prefeituras municipais também poderiam ter uma participação pró-ativa em relação às hortas domésticas. Elas poderiam incentivar a população, desenvolvendo cursos de horticultura, de produção de compostos orgânicos, entre outros. Elas também poderiam fornecer sementes ou mudas prontas para aqueles que desejassem iniciar suas hortas. As mudas poderiam ser produzidas pelas prefeituras, através dos seus departamentos de parques e jardins, para serem doadas ou até mesmo vendidas pelo preço de custo, que é bem barato. Muitos adultos, que no passado tiveram algum contato com a terra, com a natureza, poderiam retomá-lo e, para aqueles que nunca tiveram, que hoje são a maioria, esse seria um bom começo. Trata-se de um projeto de caráter intersetorial e, do ponto de vista pedagógico interdisciplinar, que envolveria as secretarias de educação, saúde, meio ambiente e agricultura. Contudo, para se religar à natureza, há que se ter vontade política, tamanho é o afastamento que as pessoas têm dela nos dias de hoje.


quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Carnaval, cerveja e mulheres bonitas: a receita de um grande negócio

Zildo Gallo


O carnaval de 2015 chegou. Já é sabido que no Brasil o carnaval esbanja sensualidade. É muito diferente do carnaval de Veneza, com suas máscaras coloridas. Todos os anos acontece uma grande festa dos sentidos regada à cerveja, muita cerveja. Não estou fazendo uma crítica à cerveja e muito menos à sensualidade. Todavia, há muito tempo o Brasil vendeu ao mundo uma imagem muito sexualizada das nossas mulheres. Aí eu vejo problemas, pois se trata de um estereótipo, de uma imagem produzida, que nem sempre corresponde à realidade. Não quero dizer com isso que as nossas mulheres não são belas, pois elas de fato o são. Mas elas não são apenas pedaços de carne expostos nas revistas masculinas e nas telas da TV, para serem devoradas, longe disso...
Todos já sabem, há muito tempo também, que essa estereotipia tem estimulado o turismo sexual, que acaba, inclusive, envolvendo meninas menores de idade. Não pretendo prelecionar aqui sobre os malefícios do estereótipo da sensualidade brasileira e muito menos fazer um discurso puritano (careta, como se dizia nos velhos tempos). Também não dá para ser hipócrita neste tipo de assunto. Por exemplo, não se pode desconsiderar a importância das propagandas governamentais que estimulam o uso de camisinhas nas relações sexuais, que nessa época acontecem ao acaso e aos montes. Elas contribuem para evitar gravidez indesejada e as doenças sexualmente transmissíveis (venéreas, nos velhos tempos), diminuindo os problemas para as famílias e para a saúde pública.
Então, vou falar sobre a relação entre a cerveja e a sensualidade, em particular a feminina, uma relação criada pela máquina da propaganda. O sexualidade humana tornou-se uma mercadoria de grande valor. A antiquíssima prostituição, perde muito em termos de produção de "riqueza" (precisamos rediscutir o conceito de riqueza) para as novas formas de exploração da sexualidade. As revistas masculinas, os filmes pornôs, os sex shops e a respeitável propaganda, que entra nas casas das famílias todos os dias, faturam bem mais.
Até os anos sessenta do século XX, a humanidade era muita reprimida sexualmente, inclusive no Brasil. A partir dessa época iniciou-se um movimento de liberação da sexualidade, que ganhou grande força nas duas décadas seguintes. Foi uma explosão sexual, tamanha era a energia reprimida durante muitos séculos. A psicanálise, com Freud, Reich, Jung e outros mais, tratou do tema repressão sexual com profundidade já no início do século passado. Assim, essa explosão já era esperada e já tinha sido há muito anunciada. Até aí tudo bem, os seres humanos precisavam extravasar e acertar contas com esse passado que demonizou o sexo e, em particular, as mulheres, as portadoras do pecado na tradição judaico-cristã. Perfeito!
Era uma sociedade hipócrita. As moças deveriam ser guardiãs da própria virgindade, da sua pureza. Sexo, só depois do casamento. Tragédias e mais tragédias aconteciam quando esse pacto macabro era quebrado. Todas as famílias têm histórias para contar. Lembram-se do "engravidou tem que casar? Usava-se a expressão "casar na polícia". Tinha outra expressão, também muito usada: "ele fez mal à minha filha?" Mal, como? Era uma vergonha! Os moços, por sua vez, estavam dispensados desse pacto. Eles podiam fazer uso das prostitutas e, de fato, o faziam. Entretanto, não deixavam de ser reprimidos, pois pesava-lhes a moral, a ideia do pecado. Tudo bem, tratava-se (tratava-se?) de uma sociedade patriarcal e aos moços cabiam apenas algumas reprimendas. Bem... pelo menos, a sociedade apresenta-se bem menos hipócrita hoje em dia.
Com a liberação da sexualidade, o mercado (vivemos numa economia de mercado) vislumbrou novas possibilidades e, como costuma transformar tudo em mercadoria, apropriou-se da liberdade sexual e a mercantilizou. A partir daí, as revistas masculinas começaram a sua ascensão. No início elas apareciam com as suas capas cobertas por plásticos escuros, protegendo a nudez das modelos. Com o tempo, os plásticos desapareceram. Com os vídeos cassetes surgiram os filmes pornôs e as cenas de sexo explícito, que antes eram acessíveis apenas nas antológicas revistinhas desenhadas por Carlos Zéfiro (os famosos "catecismos"), tornaram-se corriqueiras. Os catecismos, que eram proibidos e só eram vendidos na clandestinidade em algumas bancas de revistas, tornaram-se ingênuos face as novas abordagens da indústria do sexo.
Bem, enfim vou falar sobre a sensualidade e a cerveja. A indústria da publicidade também, aos poucos, assenhorou-se da liberdade sexual. As propagandas com apelos sensuais entraram em muitos segmentos do mercado. No caso das bebidas alcoólicas, em particular na propaganda brasileira, os apelos são bem visíveis. Já observaram que no caso das cervejas, os consumidores dos comerciais são todos jovens e muito bonitos, em especial as mulheres, com seus corpos esculturais? Já notaram que nas mesas costumam aparecer várias garrafas, sugerindo um consumo não moderado? Depois dos apelos que sugestivamente apontam a cerveja como um tipo de afrodisíaco (desde quando álcool é afrodisíaco?), vem o fechamento da propaganda: "beba com moderação".
Nos dias de hoje, seria impensável aquele comercial com o inesquecível músico, naquela época (anos setenta) já avançado na idade, Adoniram Barbosa. Tratava-se da cerveja Antárctica e naquela propaganda apareciam o músico e um acompanhante. O acompanhante começa a falar e é, de pronto, interrompido por Adoniram: "nós viemos prá beber ou prá conversar?" Uma ingenuidade para a atualidade, com as belas jovens seminuas nos bares das praias. Duvido que aquelas beldades continuariam mantendo as silhuetas esbeltas se, de fato, bebessem aquelas quantidades sugeridas. Todos sabem que as cervejas são bem calóricas, são um tipo de "pão líquido".
Há alguns anos aquilo que estava implícito na propaganda explicitou-se no mundo real. Na linha do sexo com cerveja ou da cerveja com sexo, surgiu uma cerveja chamada Devassa. Eu digo: que coisa vulgar. Desculpem-me caso haja algum leitor que toma essa bebida, o que imagina a pessoa que chama pelo garçom e pede: "eu quero uma Devassa?" Que raio de fetiche é esse?
"É carnaval, não me leves a mal". Este artigo teve apenas a intenção de chamar a atenção para algumas das armadilhas da indústria da publicidade, tem muitas... Os jovens, cujas vidas sexuais estão na sua aurora*, podem ser as principais vítimas das abordagens maliciosamente sexualizadas das propagandas. São apelos muito bem feitos, sugestivos, que podem induzir um consumo desregrado, imperceptivelmente.
Divirtam-se!

*Aurora: deusa do amanhecer na mitologia romana (para simples ilustração).


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

O fast food nosso de cada dia

Zildo Gallo


Na minha infância e na minha adolescência, nos anos sessenta e setenta, na cidade de Americana, no Estado de São Paulo, não existia a abundância de fast foods que agora vejo. Havia algumas lanchonetes, as quais frequentávamos esporadicamente. O hábito de comer fora rotineiramente não era tão comum como agora, por isso não havia também a abundância de restaurantes e pizzarias da atualidade. Comer fora deixou de ser um luxo ao qual nos permitíamos vez ou outra e, agora, rotinizou-se.
Quando jovem, nos meus tempos de colegial, eu tinha uma rotina diária como muitos outros. Trabalhava o durante o dia, estudava à noite e fazia as refeições em casa. Muitos outros levavam marmitas ao trabalho, isso também era muito comum. Poucas empresas tinham restaurantes industriais naquela época. A nossa dieta baseava-se na alimentação caseira. Nos fins de semana, quando saíamos, às vezes, pelo menos no meu caso, íamos a uma lanchonete comer sanduíches ou pizzas, acompanhados de refrigerantes, na maioria das vezes. Nem o consumo de refrigerantes era tão rotineiro naqueles tempos como é agora.
O Bié Lanches, que ficava na rua Fernando Camargo, no centro da cidade foi uma referência importante, pois era bastante criativo na produção de lanches; se não me engano foi ele quem deu vida ao "Lobo Mau", um lanche de tamanho grande, o nome cabia-lhe perfeitamente. Também existiam alguns bares onde se podia comer baurus, como o Bar Casa Verde, Bar da Escada, Bar do Crespo, Bar do Filiputti, Bar Bacan, entre vários outros. Os hambúrgueres foram chegando aos poucos nas lanchonetes, não eram tão comuns.
Não havia os trailers e os carrinhos de cachorros quentes e hambúrgueres, que fazem parte da paisagem urbana da atualidade. Lembro-me que o primeiro trailer de lanches, acredito que tenha sido o primeiro, foi o Baitakão, que estacionou na região central da cidade, próximo de onde funcionava o supermercado Batajão, e que fazia um cachorro quente enorme e cheio de recheio, conhecido como Baitakão, é óbvio. Foi a grande novidade em termos de fast food nos anos setenta em Americana.
São lembranças que considero agradáveis. Não pretendo ficar recordando o meu passado gastronômico, mas quero introduzir aqui uma reflexão sobre o fast food dos nossos dias enquanto incentivador de formas de consumo predatórias do ponto de vista ambiental e também da saúde.
A alimentação rápida dos dias de hoje nos chegou como imitação dos Estados Unidos e rapidamente foi ocupando espaço no meio urbano. Não dá para precisar muito a data em que isso, que era marginal, começou a ganhar corpo. Podemos localizar tal fenômeno mais ou menos a partir do final segunda metade dos anos setenta, com uma aceleração a partir dos anos oitenta e noventa. Nesse período aconteceram alguns eventos que podem ter contribuído: introdução do forno de micro-ondas; expansão rápida dos salgadinhos de saquinhos, tipo chips; crescimento do setor de alimentos congelados e; crescimento contínuo e firme da alimentação fora de casa.
No quesito crescimento da alimentação fora de casa podemos localizar duas situações que têm um caráter positivo: o surgimento de restaurantes do tipo self service, que dão ao cliente a possibilidade de escolha, de montar o seu próprio prato, e a expansão dos restaurantes que fornecem os chamados pratos feitos, que pretendem ser o mais completos possíveis do ponto de vista nutricional. Também ocorreu a expansão das lanchonetes, das pizzarias e dos carrinhos e trailers de lanches. Neste último caso o problema está mais na constância do uso que cada consumidor faz desses serviços de alimentação.
Vamos por partes, analisando em primeiro lugar a introdução do micro ondas e dos congelados, ambos são irmãos siameses. Com os congelados diminuiu-se o tempo de cocção dos alimentos, mas se aumentou, em contrapartida, o consumo de massas, como as lasanhas, por exemplo, em detrimento do nosso tradicional arroz com feijão. O abuso das massas, já é sabido, pode fazer mal à saúde. Digamos que o problema está na constância do uso. Do ponto de vista ambiental, com a expansão do fast food doméstico, tivemos o aumento da produção de resíduos sólidos, no caso as embalagens descartáveis. Aquele hábito antigo, que veio dos imigrantes italianos, de consumir massas nos fins de semana, as famosas macarronadas, estendeu-se para os outros dias da semana. Haja calorias!
A expansão dos salgadinhos de saquinhos, os chips, por sua vez, é mais complicada. É difícil entendê-los como alimentos, inclusive, dada a sua artificialidade. Gorduras saturadas e excesso de sal caracterizam muitos deles. As embalagens, por sua vez, são do tipo totalmente descartáveis, impedindo a reciclagem, o que do ponto de vista ambiental é por demais incorreto. Os apelos publicitários desses produtos são minimamente desonestos, pois atingem em cheio o público infantil. A introdução de brindes dentro dos saquinhos é um forte chamariz para essa fatia do mercado. Lembram-se dos tazos, aqueles disquinhos colecionáveis que se tornaram verdadeira febre nos anos noventa? Os brindes contribuíram para introduzir o hábito de consumir isso que a indústria teima em chamar de alimento. São "alimentos" perniciosos do ponto de vista da saúde e do meio ambiente. Muitos os chamam de "salgadinho de isopor", não é por simples acaso.
A expansão do setor de lanches rápidos e das pizzarias pode apresentar riscos a partir da constância do consumo por cada cliente. Ocorre que muitas famílias acabaram perdendo o controle do espaço temporal entre um consumo e outro, principalmente em relação às crianças. O apelo das pizzas, dos lanches e das frituras acaba atingindo mais o público infantil, que não tem informações e maturidade suficientes para estabelecer críticas ao que está consumindo. Muitas vezes, em relação a esses alimentos, acontece um forte embate entre pais e filhos. "O meu amigo pode, por que eu não?" É uma questão difícil para pais e educadores. Como dosar o consumo dessas saborosas guloseimas? Além de tudo isso, tem um agravante: junto com as pizzas, os salgados e os lanches, vêm os refrigerantes, que aumentam o consumo de açúcar.
Em relação aos lanches rápidos, nas cidades médias e grandes, a situação ganhou um complicador nos tempos atuais: a entrada de uma grande rede internacional de fast food, no caso o McDonald's. É o caso de Americana. A princípio ele se encaixaria na situação do tipo de alimento que se pode fazer uso esporádico. Até aí tudo bem. O problema está nos esforços que ele faz para aumentar o consumo dos seus produtos e para a fidelização da sua clientela. A principal vítima desses esforços é o público infantil, de novo... Além do excesso de embalagens (aquelas caixinhas chamativas pelas suas impressões coloridas), ele costuma oferecer brindes às crianças, como no caso dos chips. Além dos brindes, é comum nas lojas maiores da rede a presença de playgrounds para atrair as crianças. Assim, são criadas as condições para a produção excessiva de resíduos, que é incorreta do ponto de vista ambiental, e a possibilidade do surgimento de problemas de saúde, pelo excesso de consumo de um alimento pouco saudável.
Sobre o McDonald's, sugiro que vejam o filme Super Size Me - A Dieta do Palhaço. Ele se encontra disponível no Youtube (https://www.youtube.com/watch?v=jAnCOHCVjyU). Trata-se de um documentário de 2004, produzido, dirigido e protagonizado por Morgan Spurlock, um cineasta americano. No filme, Spurlock segue uma dieta de 30 dias onde apenas consome produtos do McDonald's. Durante a gravação, ele comia nas lojas da rede três vezes ao dia, consumindo em média 5000 kcal por dia, um exagero, o equivalente a seis  Big Macs.
Antes da sua experiência, Spurlock, comia uma dieta variada. Era saudável, magro, e, com 1,85 m de altura, pesava 84,1 kg. Trinta dias depois, aumentou o seu peso em 11,1 kg, saindo de uma faixa de peso considerada saudável para entrar numa situação de sobrepeso. Também experimentou mudanças de humor, disfunção sexual, e dano ao fígado. Depois das filmagens, ele precisou de quatorze meses para eliminar o peso adquirido.Três médicos que o consultaram ficaram surpresos com o elevado grau de deterioração da sua saúde. Um deles chegou a afirmar que era irreversível o dano causado ao seu fígado. Durante o período das filmagens, Spurlock comeu mais refeições no McDonald's do que um nutricionista recomendaria comer em oito anos. Isso significa que comer alimentos desse tipo só pode acontecer bem de vez em quando, conforme os nutricionistas
O que motivou Spurlock a fazer a investigação, usando a si mesmo como cobaia, foi o crescimento da obesidade nos Estados Unidos, que chegou a ser considerada pela saúde pública americana como "epidemia". Também contribuiu para isso a demanda judicial contra o McDonald's em nome de duas meninas com sobrepeso, que alegaram que  a obesidade era resultante do consumo de alimentos da rede. Parece que o consumo de comida rápida, do ponto de vista psicológico, pode ter um aspecto viciante; é algo a ser verificado.
O que está acontecendo nos Estados Unidos também está acontecendo no Brasil, a obesidade tem aumentado significativamente, com destaque para a obesidade infantil, com os malefícios que a acompanham, como a hipertensão e o diabetes mellitus. Trata-se de um problema de saúde pública. O melhor remédio para essa "epidemia" não é a cirurgia bariátrica, usada em casos extremos, mas a reeducação alimentar. Ela tem que se dar no seio da família, nas escolas, nas repartições de saúde e nos meios de comunicação, esses mesmos meios que propagam o tempo todo as delícias do fast food, não tem um caminho mais curto.
Apesar de tudo, o mundo não está definitivamente perdido. Tem muita gente atenta à questão da alimentação em todos os cantos do planeta. Trago aqui um ótimo exemplo. Em 1986 o jornalista italiano Carlo Petrini, com a ideia de promover a boa comida, fundou a organização Slow Food, cujo significado é "comida lenta", em contraposição ao fast food, "comida rápida". A ideia é aumentar o tempo gasto com a alimentação, com o objetivo de aumentar o prazer no ato de se alimentar, como nos velhos tempos, quando a família sentava-se à mesa, seguindo rituais antigos da comensalidade.
A filosofia da Slow Food (http://www.slowfoodbrasil.com/) resume-se em defender a informação ao consumidor, proteger as tradições alimentares, defender o cultivo e o processamento de alimentos herdados da boa tradição e defender espécies vegetais e animais, domésticas e selvagens. Para ela, o alimento deve ser bom, limpo e justo, o que significa: saboroso, nutritivo, respeitoso ao meio ambiente e com preços justos, tanto para os produtores como para os consumidores.
A rede de membros da Slow Food já reúne mais de 100 mil associados no mundo. Ela se organiza em grupos locais, que, periodicamente, organizam atividades como oficinas de educação alimentar, palestras, degustações, cursos, jantares e até turismo gastronômico. Ela costuma defender a produção e o consumo locais, o uso de alimentos da tradição e a compra direta dos produtores. Tudo isso pode tornar os alimentos mais baratos, pois encurta a cadeia produção/consumo, pela eliminação dos atravessadores. Além disso, a Slow Food questiona o custo ambiental dos alimentos produzidos em larga escala (agronegócio) e os impactos sobre a saúde do consumo de alimentos excessivamente processados pela indústria.
Reeducação alimentar é a palavra-chave do momento nutricional da humanidade. Lembro-me que na minhas infância e adolescência, a obesidade era bem pequena; uma ou outra pessoa era gorda e, no meio das crianças, era bem rara. O consumo eventual de lanches, pizzas e refrigerantes não produzia os estragos que o fast food produz hoje. A frequência esporádica, era esporádica mesmo, às lanchonetes e bares não produzia os estragos ora verificados. Além disso, não existiam os "salgadinhos de isopor", as massas congeladas do fast food doméstico e a abundância de refrigerantes e outras bebidas pouco saudáveis. Saborear lanches no Bié e nos bares da época significava uma quebra de rotina, apenas uma quebra de rotina, não era a rotina. Essa quebra da rotina era agradável e não prejudicava a saúde, pois a sua esporadicidade garantia isso .
Bom apetite!


terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Sobre a memória: o mito grego e a arte nos dias de hoje

Zildo Gallo


As musas eram entidades mitológicas a quem se atribuíam, na Grécia antiga e no mundo romano, a capacidade de inspirar a criação artística e científica. A arte e a ciência não estavam tão separadas como hoje estão. Na mitologia grega, as musas eram as nove filhas de Mnemósine e Zeus. O templo delas era o Museion, palavra que deu origem à palavra museu, que é o local onde são preservadas as artes e as ciências.
Diz o mito que, após a vitória dos deuses do Olimpo sobre os titãs, foi solicitado a Zeus que ele criasse divindades capazes de cantar essa vitória para que se perpetuasse ad infinitum a glória dos olímpicos. Assim, durante dez noites seguidas, Zeus partilhou o leito com Mnemósine, a deusa da memória, e, um ano depois, ela deu à luz nove filhas, as nove musas.
As nove musas, os significados dos seus nomes e as suas atribuições são os seguintes:
·         Calíope -  A de bela voz - Eloquência, oratória e poesia épica
·         Clio - A que celebra - História
·         Erato - Amorosa - Poesia erótica
·         Euterpe - Deleite - Música e poesia lírica
·         Melpômene - A cantora - Tragédia
·         Polímnia - A de muitos hinos - Música e poesia sacras e geometria
·         Tália - A que faz brotar flores - Comédia
·         Terpsícore - Deleite da dança - Dança e canto
·         Urânia - A celestial - Astronomia e astrologia
O poder que se lhes atribuem com frequência é o de trazer à mente dos poetas os acontecimentos que devem relatar. Os poetas mais antigos invocavam-nas com pura sinceridade e, de fato, acreditavam-se por elas inspirados; as musas falavam pelas suas vozes e pelas suas escritas. Na atualidade, tempos materialistas, nada mágicos, tais invocações não passam, no mais das vezes, de mera imitação, os poetas falam por si mesmos, pelos seus egos.
Todos os feitos humanos, por menores que sejam, dos heróis e das pessoas comuns, merecem ser cantados pelas musas, que emprestam as suas vozes aos nossos artistas. A grande sabedoria que está por trás do mito é a de que a melhor forma de preservar as memórias é a arte. Nos dias de hoje, ainda continua sendo a arte, apesar da imensa capacidade de armazenamento de informações da sociedade contemporânea, com seus megacomputadores. Não se trata, obviamente, do ato de simplesmente estocar, guardando em depósitos tangíveis (museus, arquivos e bibliotecas) ou virtuais (meios eletrônicos), mas de preservar as memórias de forma viva, sensível, permitindo acessá-las a qualquer momento, já que o seu acesso não se dá unicamente pela razão, mas pelo conjunto dos nossos sentidos, incluindo entre eles os mais sutis e, até mesmo, desconhecidos, como é o caso da intuição.
Uma prova cabal de que a arte é a melhor forma de memorizar, está na própria Grécia. Os poemas épicos (Ilíada e Odisseia), as muitas comédias e tragédias, além das artes plásticas, com destaque para a escultura, atravessaram os séculos e ainda hoje são referências para a humanidade. A mitologia grega e as tragédias (ambas se misturam, o tempo todo) contribuíram e continuam contribuindo para a compreensão da psique humana, por exemplo. Freud e os freudianos e Jung e os junguianos têm muito a dizer a respeito. Dois exemplos: 1) Robert Johnson, um prolífico discípulo de Jung, faz uma interpretação profunda do mito de Eros e Psiquê, no seu livro She, onde ele busca compreender a psicologia feminina; 2) O complexo de Édipo, compreendido por Freud, está registrado na tragédia Édipo Rei, de Sófocles, uma obra prima sobre a condição humana nos seus múltiplos aspectos, indo muito além da questão da sua sexualidade que, por si só, já é muito complexa.
No passado distante da humanidade, quando a linguagem escrita era para poucos ou mesmo antes da existência da escrita, a poesia, acompanhada pelo canto, era um recurso mnemônico (de memorizar) eficiente para garantir a repetição e a passagem adiante das histórias e lendas dos povos. Os versos, as rimas e as melodias contribuem para a memorização, independente da gravação do texto em papiros, pedras, peles de animais, tabuletas de argila etc.
Eu diria que eles têm um apelo mais forte, basta que nos lembremos das nossas músicas preferidas, que carregamos na memória por toda vida. Os povos antigos criaram essa mistura perfeita entre verso e melodia e ela se propagou pelos quatro ventos. Não precisamos ir à Europa ou Ásia, nem voltar muito no tempo, basta que observemos como os povos indígenas contam as suas histórias e passam as suas tradições, repetindo os cânticos hereditários, muito antigos, ou como as comunidades pobres dos morros do Rio de Janeiro contribuíram e ainda contribuem para o desenvolvimento da música brasileira (lembram-se de Cartola?).
Uma sociedade que não incentiva e não preserva a arte entre os seus membros, acaba, com o tempo, por se empobrecer, no sentido não material da palavra, e, também, por enfraquecer o espírito de cada indivíduo e, por decorrência, de todo o grupo social. A manifestação artística é o ápice da criação humana. Sem a arte a vida se torna uma repetição monótona, mera rotina. A vida não pode se resumir num trabalhar, comer e dormir repetitivos. O trabalho é importante, sem nenhuma dúvida, pois é ele que humaniza o homo sapiens, criando cultura, mas é preciso ir além do trabalho, da simples reprodução material da vida. A arte, a boa arte, é um dos caminhos para a transcendência e todo ser humano anseia por ela.
A boa arte, aquela que vem das musas, precisa ser incentivada. A escola pode ser muito útil neste sentido, mas é preciso mais. As políticas públicas podem dar a sua contribuição também. Hoje, o leque das possibilidades artísticas ampliou-se, indo além da música, da poesia e do teatro, que eram as mais prestigiadas pelas antigas musas: as artes plásticas diversificaram-se; a literatura ganhou novos contornos com as novelas de diversos matizes e as histórias em quadrinhos; surgiram o cinema e a televisão, com suas diversas manifestações híbridas, como no caso das animações; a fotografia tornou-se presente nas vidas das pessoas e nem precisa ser fotógrafo, graças à tecnologia; etc.
Hoje, invocar as musas tem um significado muito profundo, trata-se de um resgate, de um religar-se às coisas do espírito. A humanidade tornou-se uma grande sociedade de consumo, colocando o acesso aos bens materiais, os novos bezerros de ouro, como objetivo central da existência. Assim, um povo que não preserva os seus patrimônios histórico, arquitetônico e cultural, nas suas mais diversas manifestações, "em nome do progresso", como se costuma dizer, como é o caso de boa parte do povo brasileiro, perde a sua melhor forma de transmitir a sua memória e, um povo desmemoriado, perde a sua alma.
Precisamos incentivar a criação artística, o resgate de antigas tradições culturais de caráter popular e trazer à lembrança as nossas lendas e "causos", resgatando o nosso folclore. No folclore a situação é grave. Esquecemo-nos dos nossos seres elementais como o Saci e o Curupira e importamos gnomos e duendes; nada contra eles, mas nós também temos os nossos guardiões da natureza e eles não podem e nem merecem ser esquecidos.
Hoje, poderíamos pedir a Zeus para criar novas musas diante da tamanha diversidade das artes na modernidade. Todavia não é necessário, pois o que realmente importa é compreender o significado profundo da sua invocação. A arte é, em si mesma, a grande manifestação do espírito humano. Ela pode ser, ela o é, um dos caminhos para nos religar ao todo. Invocar as musas é, antes de tudo, um ato de humildade, trata-se de ir além do ego, recebendo e agradecendo a inspiração, que chega conforme o nosso merecimento, conforme o nosso amadurecimento.

PS.: ofereço este artigo a todos os artistas e principalmente àqueles que teimam em produzir a boa arte, lutando contra os mass media, que enxergam a arte como um simples negócio, como algo que precisa "dar ibope".