segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

O lixo em Americana, a sociedade de consumo e o consumismo

Zildo Gallo



O município de Americana/SP, por conta de uma séria crise na gestão municipal, ficou sem a coleta de lixo durante um bom tempo. Não pretendo falar aqui sobre a falência da prefeitura, nem sobre a cassação do prefeito, não tocarei na questão política, mas pretendo refletir um pouco sobre a produção de lixo. Por que produzimos lixo? O que nos leva a produzir lixo? O que é o lixo, afinal de contas? O que fazer com ele? É possível produzir menos?
O lixo como conhecemos hoje é um resultado da modernidade, com o seu sistema industrial e suas cidades. Antigamente, quando a maioria das pessoas vivia no meio rural e quando não existia a indústria petroquímica produzindo plásticos, os resíduos sólidos resumiam-se quase que a restos de alimentos, que eram servidos aos animais domésticos. Os demais tipos de resíduos eram poucos e colocavam- se na categoria de degradáveis num tempo relativamente curto, quando deixados na natureza, como no caso das fibras têxteis que tinham suas origens em vegetais (algodão e linho) e animais (couro e lã). Praticamente não havia a necessidade de aterros sanitários e de um sistema de gestão de resíduos.
Hoje, a maioria das pessoas vive nas cidades, onde os restos de alimentos não são consumidos pelos animais domésticos. Para complicar o quadro, a indústria acabou desenvolvendo produtos que não se degradam facilmente na natureza, como é o caso do plástico. O plástico tem uma infinidade de usos e também acabou sendo usado como embalagem, ocupando o lugar do vidro, do papel e da madeira. Também surgiram outros tipos de embalagem de difícil degradação, como os papéis laminados, por exemplo. Na segunda metade do século XX entramos no mundo dos descartáveis. As coisas também ficaram mais baratas, pois o plástico é muito barato. Talvez, este seja o lado bom. Estou chovendo no molhado, todo mundo já sabe disso. O problema é: o que fazer com tudo isso?
Muitos respondem de imediato: coleta seletiva, reciclagem e compostagem. De fato, mesmo sem saberem, querem dizer: continuemos consumindo e produzindo lixo e a prefeitura que dê um jeito nas nossas sobras. Parece bem simples, mas não é. Por trás dos resíduos sólidos, isso que o povo vulgarmente chama de lixo, tem muitas questões escondidas e complicadas.
Comecemos pelo tratamento do lixo. Não é uma tarefa fácil e muito menos barata. As prefeituras não conseguem repassar aos munícipes os custos totais do sistema de tratamento, que muitas vezes, resume-se a um simples aterro sanitário, ou um simples "lixão" sem nenhum controle. Muito recurso financeiro e também muito trabalho são utilizados para dar conta das nossas sobras. É caro, mas deve ser feito, neste momento não temos outra saída. Precisamos separar os resíduos, reciclar os recicláveis, fazer compostagem com os orgânicos e enterrar os que não se encaixam nas duas categorias anteriores. Mais adiante deveremos caminhar no sentido da efetiva diminuição da produção de resíduos.
Voltemos ao caso de Americana. Quantos cidadãos, quando viam os sacos de lixo amontoarem-se a cada dia nas calçadas, além de se indignarem com a não coleta, que, de fato, merecia grande indignação, fizeram a seguinte indagação: como eu produzo tanto lixo? Alguém arrisca uma resposta? Não é uma pergunta fácil de se fazer, pois ela significa a possibilidade de um olhar além da montanha dos resíduos das nossas vidas e as respostas podem não ser muito agradáveis. Os cidadãos americanenses e sua produção diária de resíduo é apenas um mote com o qual faço um chamado à reflexão sobre o significado do consumo moderno, que, evidentemente, não cabe neste pequeno artigo. Aqui apenas inicio uma conversa.
Como eu produzo tanto lixo? Esta pergunta é essencial, ela pode ser o ponto de partida para entendermos o funcionamento da moderna sociedade de consumo; olhar o seu lado feio, o lixo amontoado, pode surtir um efeito diferente daquele de quando olhamos uma vitrine no shopping. Estaremos olhando para o avesso da vitrine, para a sua sombra, para a sombra deste tipo de sociedade e, na sombra, talvez possamos enxergar alguma luz. Fiat lux, faça-se a luz: "Eureca! (descobri!), o lixo que produzo vem do meu consumo".
E daí, vou me chicotear, punindo-me após a descoberta a minha culpa? O que posso fazer? Será que consumo demais mesmo? Calma, nós temos a nossa parte nas responsabilidades e não é pequena, mas também somos vítimas das engrenagens da sociedade de consumo. Então, em primeiro lugar, precisamos compreender o seu funcionamento. Tem muita gente estudando-a. Eu destaco Annie Leonard, que faz um bom trabalho para compreender os seus malefícios. Sugiro uma visita ao seu vídeo (https://www.youtube.com/watch?v=Q3YqeDSfdfk) e a leitura do seu livro: The Story of Stuff (A História das Coisas - Editora Zahar). Só o vídeo já ajuda bem. Também indico a leitura de dois artigos meus: Consumo Responsável para a Sustentabilidade e a Cidadania (http://zildo-gallo.blogspot.com.br/2014/11/consumo-responsavel-para.html) e Consumo Sustentável ou Sociedade Sustentável: um Debate Necessário (http://zildo-gallo.blogspot.com.br/2014/12/consumo-sustentavel-ou-sociedade.html).
Para o leitor que quiser se aprofundar e buscar as primeiras críticas à sociedade de consumo, sugiro a leitura de Herbert Marcuse. Nas suas principais obras, Eros e Civilização e O Homem unidimensional  Ideologia da Sociedade Avançada ele faz uma crítica à sociedade tecnológica.  Ele, nos idos do anos sessenta do século passado, chegou a reconhecer que subestimou a capacidade do sistema, em desenvolver formas de controle social cada vez mais eficazes, com a produção cada vez maior de bens supérfluos, para redirecionar as necessidades de prazer e satisfação das pessoas. Para ele a sociedade industrial contemporânea impõe uma racionalidade tecnológica de dominação e de controle da consciência humana e ela não é livre, pois age como um autômato, buscando a satisfação de necessidades falsas e tornando-se conformista. Imaginem se ele estivesse vivo agora, na segunda década do século XXI, observando a orgia consumista e seus consumidores domesticados...
Feitas todas estas considerações, pretendo aqui neste artigo abordar um aspecto apenas, contudo, um aspecto extremamente relevante: o de como estamos sendo treinados para sermos consumidores desde pequenos, desde muito pequenos. Trata-se da tal capacidade do sistema para desenvolver meios para redirecionar ou criar necessidades novas de consumo. A propaganda e o marketing são as principais ferramentas para isso.
A educação vem do berço, diz o dito popular; o Sistema Empresarial compreendeu isto há um bom tempo e agiu bem rápido. Nunca antes a propaganda fez tanto apelo ao público infantil como agora, trata-se de um alvo fácil, pois a criança está em formação e ainda não desenvolveu o espírito crítico e o conjunto de valores necessários a sua vida em sociedade.
Peguemos apenas o caso da indústria de brinquedos. A de alimentos (lembram-se do "Danoninho vale por um bifinho"?), de bebidas e da moda também fazem apelos constantes ao público infantil. Na indústria de brinquedos a programação é mais ostensiva e eu me arrisco a afirmar, beira à violência, pois ela repercutirá no futuro na formação de consumidores adestrados para as demais indústrias; ela está prestando um serviço a todas elas, indistintamente. Um exemplo de brinquedo que serve para preparar consumidores adultos é o dos pseudocomputadores, que possuem músicas,  joguinhos, que contam histórias etc.
Tais "computadores" preparam, antecipadmente, os futuros consumidores da indústria da informática, que rotineiramente abusa da obsolescência programada, lançando praticamente todos os anos novos produtos e tornando os anteriores "superados". Na verdade, ela cria consumidores que nem chegam a usar totalmente a capacidade dos modelos antigos de computadores e já migram para os novos, numa insana corrida em busca de alguma eficiência a mais; mudam de  equipamentos como quem troca de roupa de acordo com a moda, que também cria um tipo de obsolescência programada todos os anos. Tanto a produção de resíduos eletrônicos quanto a da indústria da moda é absurdamente alta e a gestão dos resíduos de ambas é muito difícil.
Voltemos à indústria de brinquedos. Para exemplificar bem a sua atuação, entre um montante considerável de exemplos, são muitos, pegarei um que considero gritante. Trata-se da boneca conhecida como Baby Alive. É uma boneca que busca a imitação da realidade. Ela fala, se mexe e se alimenta como um bebê de verdade, inclusive suja a fralda. Até aí a situação pode não parece tão anormal. A anormalidade está nos complementos que a acompanham, que induzem comportamentos indesejáveis do ponto de vista de uma sociedade que se pretende saudável. Na verdade eles vão na contramão dessa sociedade almejada: não consumista, produtora de pouco resíduo, que respeita a natureza, que privilegia o consumo de produtos naturais, que estimula a criatividade etc.
Baby Alive é uma boneca cara, muitas famílias não podem ter acesso a ela. Seus complementos também são muito caros e dois deles, além de caros, vão no sentido contrário do que imaginamos para uma sociedade minimamente sustentável, porque são descartáveis e contrários à ideia de uma vida saudável. Falo dos saquinhos de alimentos e das fraldas descartáveis.
Em termos de alimentação, sabemos hoje que ela tem que ser a menos processada (industrializada) possível, privilegiando os produtos in natura e, de preferência, os oriundos da agricultura orgânica. Essa boneca ensina a consumir alimentos fornecidos em embalagens herméticas, imitando as das famosas sopas rápidas, que, depois de abertas vão para o lixo, virando resíduos. O mais grave é que cada saquinho é usado uma única vez, com o seu conteúdo sendo misturado na água, produzindo uma papinha, que é servida na boca da boneca; quando os saquinhos acabam, novos saquinhos podem ser adquiridos mediante retribuição financeira, evidentemente (não são baratos). Assim, três condutas são estimuladas precocemente no imaginário da criança: 1) consumo de alimentos muito processados, de preparo fácil e de consumo rápido, conduta bem adequada a uma parte significativa da indústria alimentícia, 2)  geração e descarte rápido de resíduos do consumo, introduzindo, de forma sutil e bem cedo, uma cultura do descarte rápido; 3) consumismo, através prática repetitiva de abastecer-se dos produtos toda vez que eles acabam.
As façanhas da boneca não param por aí. Após a ingestão da papinha, ela é eliminada por um orifício que imita o anus e, assim, suja a fralda. A criança tira a fralda suja e a descarta, limpa a boneca e coloca uma fralda limpa. As fraldas também se acabam e novas necessitam ser adquiridas. Os estímulos ao descarte, produção de lixo, e ao consumismo repetem-se toda vez que a criança brinca com a boneca.
Aqui eu deixo uma pergunta aos educadores e aos psicólogos: um brinquedo tão realista não exerceria um papel inibidor da criatividade da criança, no sentido de que ela pode usar menos a imaginação quando brinca? Deixo a resposta desta questão a esses profissionais e me firmo na questão que já considero grave: a indústria de brinquedos tem contribuído para o desenvolvimento de consumidores compulsivos.
Todavia, gostaria de me lembrar dos meus tempos de menino, quando não havia esta abundância de oferta de brinquedos, principalmente do tipo Baby Alive, que se fazem acompanhar de vários complementos. Eles eram mais simples e, além disso, lembro-me de que fabricávamos os nossos próprios brinquedos, como os carrinhos de rolimã, as pernas de pau, as pipas, entre outros. Também me recordo que as brincadeiras eram na sua maioria coletivas e aconteciam nas ruas, nos campinhos, nos parques etc. Eram muito diferentes dos joguinhos dos videogames que têm contribuído para o desenvolvimento de um sedentarismo infanto-juvenil.
Não, pretendo com o que escrevi, demonizar o tempo presente e tecer loas aos tempos idos, mas apenas chamar a atenção dos consumidores para os mecanismos que o mercado usa para nos apanhar, para nos enredar nas teias do consumo ostensivo e, em grande escala, supérfluo. Às vezes, somos confrontados com o nosso consumismo e nos assustamos. Um exemplo: quando mudamos de residência e começamos a encaixotar os nossos pertences, nos defrontamos com muitos objetos que pouco ou até nunca utilizamos. Não precisamos esperar as mudanças de residências, pois elas demoram para ocorrer, podemos começar agora, observando a compulsão pelo consumo no nosso dia-a-dia.
Para concluir este artigo sugiro que nos lembremos dos três erres propostos pela gestão de resíduos: reduzir, reusar e reciclar. Todo mundo já conhece. Acrescento outro erre: repensar. Há que se repensar o consumo, pois ele assumiu um caráter patológico, trata-se de uma doença social, que está poluindo o planeta, devorando os seus recursos naturais e alienando as pessoas, que chegam a colocá-lo como objetivo de vida, passando a viver para consumir, quando deveriam apenas consumir para viver. Repensemos!


11 comentários:

  1. Muito bom, Prof Zildo. Como sempre, tocando na ferida e apontando questões que não são facilmente solucionadas (pelo menos aparentemente) sem que haja uma profunda reflexão interior, de nossa atuação, como cidadão/consumidor e a urgente mudança de nossa postura frente a situação dos resíduos gerados. Porém, nem sempre conseguimos aceitar como responsabilidade nossa essa questão. Parabéns Professor.

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  2. Acredito que a mudança começa a acontecer com a tomada de consciência. Trata-se de um processo mais lento do que gostaríamos que fosse.

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  3. Pois é tudo tem a ver com tudo. A falta de água com o lixo, com os brinquedos, com o corte de árvores com a expulsão dos animais etc...eu soube que a saúde pública de campinas se deu ao trabalho de visitar um espaço terapêutico, tipo chácara e "mandou acabar com as gal

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  4. Continuando: mandou acabar com as galinhas D' Angola e outros bichos que com certeza ajudavam na recuperação dos dependentes químicos (acho que o argumento é que as galinhas podem fazer mal...droga não né?); interessante que eu soube que as galinhas d' Angola comem carrapatos, incluindo o carrapato estrela. Realmente é de pasmar, pois ao invés de tirarem as galinhas deveriam incentivar a criação em parques infestados como o taquaral, incentivar a cadeia da natureza que é perfeita, mas acredito que por ignorância vão jogar pesticidas nas capivaras e enlouquecer os freqüentadores com ameaças de doenças...a distância da natureza deve realmente ser ampliada com brinquedos na infância como o seu artigo mostra....e aí o que se pode fazer professor ?

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  5. Excelente artigo professor. Acredito que para redução de resíduos se faz necessário e urgente entendermos que o padrão de consumo americano é suicida!!

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    1. Nós precisamos entender e os americanos também.

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  6. A ESTÉTICA DA PEDRA POLIDA MOSTROU SUA CARA: É A MORTE!
    O MUNDO URBANO NÃO SE SUSTENTA.

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  7. Suspeito que você tenha razão. Abraços.

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  8. Bom dia Professor Zildo, parabéns pela reflexão, muito válida! Trabalho há 5 anos em uma empresa especialista em Resíduos Sólidos e nos nossos projetos buscamos trabalhar de maneira a orientar o poder público e empresas privadas sobre a gestão correta desses resíduos. Não é tarefa simples, pois estamos engatinhando nessa área e o nosso país tem muito a evoluir nesse quesito. Aproveito a oportunidade para acrescentar mais um "r" que é o recusar!!!! Forte abraço!! Juliana Chinalia

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  9. Bom dia Professor Zildo, parabéns pela reflexão, muito válida! Trabalho há 5 anos em uma empresa especialista em Resíduos Sólidos e nos nossos projetos buscamos trabalhar de maneira a orientar o poder público e empresas privadas sobre a gestão correta desses resíduos. Não é tarefa simples, pois estamos engatinhando nessa área e o nosso país tem muito a evoluir nesse quesito. Aproveito a oportunidade para acrescentar mais um "r" que é o recusar!!!! Forte abraço!! Juliana Chinalia

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  10. Juliana, obrigado! O quarto erre vem bem a calhar. Não é tarefa fácil. Por exemplo, somos viciados em embalagens desnecessárias, poderíamos começar por elas.

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