sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

2015: um convite à moderação

Zildo Gallo

Findas as comemorações da passagem de ano, regadas em larga escala com bebidas alcoólicas e, em muitos casos, com drogas dos mais variados tipos, não esquecendo também da imensa orgia gastronômica, iniciamos 2015. Como todo fim de ano, como já tem sido há muito tempo, tratou-se de um ritual de passagem marcado pelos prazeres imediatos dos sentidos. Tudo bem, já passou... Não sejamos falsos moralistas, mas o resto do ano não precisa ser assim.
Para o bem da Terra e da humanidade, faz-se mais que necessária alguma moderação. Trata-se de uma austeridade necessária, já que o mundo ao nosso redor nos chama o tempo todo para que nos entreguemos ao "império dos sentidos". A indústria da propaganda insta-nos a que consumamos e ela aponta a forma e a intensidade do consumir.
Então, é preciso muita atenção, pois o chamado do imediatismo prazeroso é muito forte e movimenta volumes estratosféricos de recursos econômicos e naturais do nosso planeta. Além disso, mergulhar no mundo do consumo exagerado, supérfluo e ostentatório apenas serve para nos manter na superfície, impedindo que ganhemos profundidade, que enxerguemos além do mundo material/sensorial que nos rodeia. Trata-se de uma prisão sem grades, onde vivenciamos uma sensação de liberdade, mas onde, de fato, não somos verdadeiramente livres. Quanto mais temos condições econômicas de consumir, mais nos sentimos livres, pois passamos, a partir do avanço da "sociedade de consumo", a ver a liberdade, esse bem imaterial necessário ao desenvolvimento do espírito, como mera capacidade de consumir. Trata-se de uma redução, um apequenamento da condição humana, da condição para que nos tornemos verdadeiramente humanos.
A orgia consumista continuará a fazer os seus estragos ambientais, sociais e espirituais enquanto não percebermos o quanto estamos perdidos neste labirinto hedonista, onde o que conta é o prazer imediato de cada dia. A saída do labirinto começa pela tomada de consciência do engano vivido e, a partir daí, pela prática da austeridade. Consumir o necessário, o que é saudável, o que não prejudica a natureza, não desperdiçar e, principalmente, não se deixar levar pela máquina da propaganda, este é o caminho da austeridade. Pode parecer moralismo, mas não é. A mãe Terra já está sentindo as dores do nosso desregramento e ela já está reagindo. O nosso planeta é um sistema vivo, trata-se de uma imensa rede de relações e precisamos enxergar o nosso papel dentro desta rede, desta imensa "teia da vida". Enquanto seres humanos, do ponto de vista biológico, estamos no topo da cadeia alimentar e, por enquanto, agimos como predadores. Precisamos dar um salto qualitativo (trata-se de um salto de caráter marcadamente espiritual), migrando da condição de bárbaros predadores para a condição de conscientes cuidadores.
Podemos começar com fazeres bem simples: 1) preparar o próprio alimento, diminuindo o consumo de alimentos muito processados; 2) adquirir produtos da agricultura orgânica, criando uma demanda firme para sustentar a pequena agricultura; 3) usar os recursos hídricos com parcimônia; 4) quando comer fora, procurar restaurantes que trabalhem com alimentos saudáveis, principalmente os que utilizam produtos da agroecologia; 5) comprar mercadorias pela necessidade real e não pelo simples impulso de consumir; 6) buscar formas de lazer saudáveis, como ir à praia, ao campo, ao cinema, ao teatro ou como viajar para conhecer lugares novos, culturas diferentes etc. etc., 7) diminuir significativamente o consumo de carne, com destaque para a bovina, que contribui para aumentar o desmatamento no Brasil; 8) buscar práticas espirituais desinteressadas, que efetivamente elevem o nosso espírito e nos conectem (religuem) com a vida e com todo o Universo. Existem outros, mas estes já ajudariam muito. Bem... não são fazeres tão simples assim, mas são mais que necessários, são urgentes.
FELIZ ANO NOVO!

3 comentários:

  1. Muito bom, Zildo! Uma reflexão necessária e atual.

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    1. Não vejo outro caminho quer não este da moderação. Abraços.

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