sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Empresa e sustentabilidade: a velha empresa (neoclássica) e a empresa do futuro (socialmente engajada), algumas considerações para discussão.


Zildo Gallo



Grandes mudanças estão ocorrendo no sistema empresarial e essas mudanças cada vez mais apontam para uma nova modalidade de organização: a empresa socialmente engajada. A empresa do futuro deverá ser socialmente engajada e o seu objetivo primordial não será a maximização dos resultados, como indica os cânones neoclássicos. O objetivo principal será a prestação de um serviço, que pode dar-se pela produção e venda de um bem, pela exclusiva prestação de um serviço ou pela combinação de ambos. E o lucro, desaparecerá? De modo algum, o lucro deverá ser a consequência da boa prestação de serviço. Trata-se de inverter a relação que, aos poucos, se estabeleceu a partir da Revolução Industrial, e que expressa num modelo de empresa que pode ser denominado neoclássico (ver quadro 1). Dever-se-á buscar, sim, a produção de bens e serviços baratos, acessíveis a todos, mas ela não poderá acontecer a partir da piora da qualidade e com geração de efeitos socioambientais negativos. O desafio criativo será realizar o melhor com o menor custo possível.
A metodologia da empresa socialmente engajada (ver quadro 2) deverá contemplar a preservação da natureza e, quando não for possível preservá-la adequadamente, ela deverá lançar mão de mecanismos compensatórios ambientalmente eficientes e socialmente aceitos. A empresa do futuro sabe que habita a natureza e que é ela que garante a sua existência. Ela também deverá mudar a relação com os trabalhadores, buscando a “justa remuneração”, preservando a sua saúde, estimulando a sua criatividade e garantindo o seu bem-estar. A comunidade interna satisfeita é mais colaborativa e mais criativa. Também deverá tornar-se transparente em relação à comunidade do seu entorno e em relação aos clientes; ela estabelecerá, com isso, uma relação de confiança que criará uma cumplicidade permanente. Por último, deverá ter uma preocupação central com a qualidade, evitando a destruição precoce (obsolescência programada) do seu produto e atendendo prontamente os seus clientes; com isso, além de preservar os recursos naturais, ela terá os seus clientes como aliados.

Quadro 1. A velha empresa (empresa neoclássica)

Objetivos da empresa neoclássica:

§  Maximização dos resultados (lucro)
§  Minimização dos custos

Metodologia da empresa neoclássica:

1)     Exploração da natureza, evitando ao máximo as compensações;
2)     Exploração da mão de obra através de baixos salários, jornadas de trabalho extensas, atividades extenuantes e repetitivas e benefícios sociais escassos;
3)     Não transparência e pouco relacionamento com o seu entorno e com os seus clientes;
4)     Piora da qualidade para diminuir custos.

Resultados (externalidades) da empresa neoclássica:

1)     Poluição e esgotamento dos recursos naturais;
2)     Insatisfação dos trabalhadores, condições precárias de subsistência, concentração de renda, mercado interno pequeno, doenças laborais, acidentes de trabalho, aposentadoria precoce e insegurança em relação ao futuro;
3)     Ao não se relacionar com a comunidade, a empresa pode tornar-se um corpo estranho à localidade e, até mesmo, aos seus clientes; com isso, ela pode amealhar desconfianças e hostilidades e, ao ver-se com problemas, não encontrará defensores;
4)     Insatisfação do consumidor e produção excessiva de lixo (poluição) por conta do descarte precoce dos produtos.

Fonte: organizado pelo autor

Para que uma organização possa migrar da sua condição de empresa neoclássica para uma condição de empresa do futuro, transformando-se numa instituição com forte conteúdo social, ela precisa, junto com outras instituições e com toda a sociedade, participar da re-significação das palavras competição e concorrência.
A palavra competição, que significa rivalizar com outrem na mesma pretensão, vem da palavra latina competere que, por sua vez forma-se pela junção de cum, partícula que estabelece uma relação de dependência, com a palavra petere, que pode significar procurar, atacar, avançar, pretender etc. Então, a mistura das duas expressões pode significar procurar juntos, atacar juntos, pretender juntos, avançar juntos etc. Existe aí uma dubiedade: a palavra competição poderia significar tanto uma ação conjunta para se atingir um objetivo como uma ação entre rivais para se conseguir a mesma coisa. De qualquer forma, levando-se em consideração tal dubiedade, o termo competição parece pressupor um jogo às claras, desprovido de trapaças, o que garantiria uma concorrência em condições de igualdade no seu ponto de partida.

Quadro 2. A empresa do futuro (socialmente engajada)

Objetivos da empresa socialmente engajada:

§  Prestação de serviços, servir com qualidade
§  Geração de bem-estar social

Metodologia da empresa socialmente engajada:

1)     Preservação da natureza, estabelecendo o máximo de compensações;
2)     Incentivo à mão de obra através de salários dignos, jornadas de trabalho adequadas, trabalho criativo, participação nas decisões e benefícios sociais;
3)     Transparência e bom relacionamento com o seu entorno e com os seus clientes;
4)     Busca a realização da qualidade com os menores custos possíveis.

Resultados (externalidades positivas) da empresa do futuro:

1)     Ambiente saudável e preservação dos recursos naturais;
2)     Satisfação dos trabalhadores, condições dignas de subsistência, repartição de renda, mercado interno grande, trabalhadores saudáveis, diminuição de acidentes de trabalho, trabalho criativo e participativo e segurança em relação ao futuro;
3)     Ao se relacionar positivamente com a comunidade, a empresa torna-se um membro vivo da localidade. Ao se relacionar de forma transparente com os seus clientes, ela amealha confiança e cumplicidade. A nova empresa sempre terá defensores;
4)     Satisfação do consumidor e produção pequena de lixo (poluição) por conta da duração maior dos produtos.

Fonte: organizado pelo autor

A palavra concorrência, por sua vez, pode significar pretensão de mais de uma pessoa à mesma coisa, competição, rivalizar com outrem na oferta de produtos, juntar-se com alguém para uma ação ou fim comum, contribuir, cooperar etc. Nota-se, assim, que o termo concorrência também é dúbio, podendo significar tanto ações cooperativas como ações conflituosas. A palavra concorrência vem do latim concurrere, que é a junção da partícula cum com a palavra currere, que significa correr, andar com velocidade. Então, de forma bastante simplificada, grosso modo, concorrer significaria correr junto ou competir correndo lado a lado. No dia-a-dia o termo concorrência pode ser usado tanto com um significado interativo como opositivo. Destarte, considerando-se esta dubiedade inata, a concorrência também faz pressupor um jogo limpo, garantindo condições de igualdade no seu ponto de partida, a chamada igualdade de oportunidades.
A palavra competição desgastou-se com o passar do tempo e acabou significando a guerra de todos contra todos, visto que ela se nutriu do pensamento dos economistas liberais dos séculos XVIII e XIX, que enxergavam o homem como um animal essencialmente egoísta, que buscava exclusivamente o seu bem-estar, ou que buscava no máximo o bem-estar dos familiares mais próximos. A economia de mercado, a partir daqueles tempos, desconsiderou a dimensão altruísta do ser humano. Então, a solidariedade foi banida do mercado e a competição tornou-se, em larga escala, predatória, tornou-se uma espécie vale tudo. A história do capitalismo confirmou e continua confirmando o dito acima. Não são necessárias maiores explicações, basta acompanhar o noticiário econômico.
Do exposto acima se pode inferir que a empresa também precisa, enquanto instituição humana, contribuir para introduzir a dimensão solidária nas relações mercantis, a dimensão que está cristalinamente presente no conceito de desenvolvimento sustentável, quando ele fala da solidariedade das gerações presentes para com as gerações futuras. Agir solidariamente é não esgotar e destruir os recursos naturais, é não sobre-explorar o trabalho, é estimular o trabalho criativo, buscando diminuir as tarefas repetitivas e estressantes, é ter uma participação pró-ativa em relação à comunidade, é respeitar a sua clientela, agindo com presteza e transparência, é buscar produzir a melhor mercadoria e/ou serviço etc.
Dado o desgaste da palavra competição, que se entranhou na vida, no cotidiano dos seres humanos, seria conveniente substituí-la pela palavra concorrência, que também sofreu os mesmos desgastes, mas que se preservou em alguns aspectos. O ser humano é estimulado, na verdade instado, a competir desde pequeno, começando pelo ambiente escolar, que deve prepará-lo para a competição futura, o grande campeonato de vencedores e perdedores. Mais adiante, ao ingressar no mercado de trabalho, ele precisa tornar-se ainda mais competitivo. As empresas, em particular as grandes empresas, as corporações, são arenas onde são travadas lutas diárias entre todo o seu corpo funcional. O espaço para a solidariedade e a confraternização nessas instituições é bastante reduzido. Resume-se, às vezes, a alguns eventos, como as festas de fim de ano, por exemplo.
A palavra concorrência, por sua vez, poderia ter se desgastado menos em função de também estar associada à economia do setor público. Ela está muito associada à questão da concorrência pública, onde empresas e organizações oferecem serviços e produtos ao setor público (União, estados e municípios). Geralmente, as condições estabelecidas para concorrer, excetuando os inúmeros casos criminosos (fraudes, superfaturamentos etc.), dizem respeito ao melhor produto ou serviço (qualidade), ao melhor preço (vantagens financeiras), ou à combinação dos dois e as regras do jogo têm que ser muito claras. Hoje em dia, cada vez mais, questões ambientais e sociais estão sendo levadas em consideração nas concorrências públicas. Também hoje, de certa forma, como resultado do avanço da democracia, que possibilita uma vigilância permanente do cidadão, o Estado tem sido forçado a se tornar cada vez mais transparente, pelo menos mais transparente que as empresas, que ainda não são vigiadas na mesma proporção, e a sua transparência, caso seja tangível, também pode contaminar positivamente as empresas que se relacionam diretamente com ele.

Em face do exposto, parece que a palavra concorrência ressignificada parece aplicar-se melhor à empresa do futuro, à empresa socialmente engajada. Ela traz a ideia de uma “competição saudável”, que resulta em produtos e serviços melhores, diminuindo e, até mesmo, eliminando aquilo que muitos economistas chamam de “externalidade”, que é tudo aquilo de ruim que ela lança para fora, para o ambiente externo, para a sociedade, quando ela transforma a natureza para produzir mercadorias e/ou serviços. Nessa nova modalidade de empresa, os lucros resultarão do servir com qualidade. Trata-se de uma mudança de paradigma, efetivamente.

2 comentários:

  1. Aí está uma boa discussão. No mundo corporativo esta questão é nova. Muitas empresas tem uma ou outra atuação social. Isto implica num efetivo engajamento? Trata-se de um bom tema para pesquisa. Contudo, acredito que a empresa precisa mudar o seu perfil, se ela quiser contribuir positivamente com a humanidade, indo além da produção de mercadorias.

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