segunda-feira, 18 de setembro de 2017

SAPATO VELHO

Zildo Gallo

Imagem: blog.nagueva.com

A felicidade é um sapato novo
Confortável feito sapato velho?
É o território das impossibilidades...
Pés já muito... muito... muito andados
Clamam pela maciez de sapatos
Já tão andados quanto eles.
Todavia, sempre se deseja o novo,
O muitíssimo novo,
A mimetizar o bem velho e bem usado.
É o território dos desejos paradoxais...
Não seria a felicidade um sapato velho,
Ainda em bom estado, andando firme
Nos pés que conhecem o bom caminho
E o bom e seguro caminhar?
Esse é o território da aceitação...
Então, onde caminha a felicidade?
Contudo, sempre é preciso caminhar...


quinta-feira, 14 de setembro de 2017

BONECA RUSSA (Matriosca)

Zildo Gallo


Tenho todas as idades
E também todos os tamanhos
Do bebê à maturidade.

Todas vivem dentro de mim
Da mais frágil à mais forte
Em perfeita e protetiva sucessão.

Somos todas bem parecidas
Mas cada uma tem sua história
Em segredos bem escondida.

Somos muitas e somos únicas
E nossa força é a nossa unidade
Inseparáveis que sempre somos.

Sou a criança já bem distante
A jovenzinha florescendo em sonhos
E a matriarca comandando a vida.

Sou apenas um retrato bem colorido
De cada alma em trajetória única
Neste mundo tão diverso e único também.


terça-feira, 12 de setembro de 2017

O LOUCO E O TARÔ: elogio à loucura.

Zildo Gallo


Na minha cabeça carrego o vento
Na minha trouxa carrego o vazio
Nas minhas pernas carrego caminhos.

Minhas roupas são bem mais velhas
Que minh'alma leve e solta
Alma que vaga para lá e para cá.

Caminho como assombração no mundo
Brincando sem compromissos
Sempre pronto para mudar a rota.

Meu cachorro me segue fiel
Canina fidelidade e puro afeto
Nada lhe peço e tudo ele me dá.

Sigo meus passos como quem vai
Sempiternamente a lugar nenhum
Todos os lugares são lugares meus.

Minha loucura é o ingênuo susto
De quem ainda não se encaixou
No mundo dos quereres e fazeres.

Andarilho, caminho sob a luz do Sol
Mas, lunático que sou, tenho a cabeça
No mundo secreto da Lua noturna.


quarta-feira, 30 de agosto de 2017

LÍRIO DO CAMPO

Zildo Gallo


Olhai o lírio que nasceu no campo,
Singela e delicada flor,
Na sua espontânea e singular beleza.
É único mas não nasceu sozinho,
Veio com outros muitos semelhantes,
Na sua contribuição exclusiva ao todo,
Como dádiva divinal da mãe natureza,
Presenteando os sentidos dos seres viventes
Na mais pura e caridosa gratuidade.
O lírio é apenas um lírio,
Um lírio simplesmente e belamente florido,
E não precisa ser nenhuma outra coisa.
Em sua beleza ele se afirma e se autotranscende,
Sem deixar a sua real condição
De uma flor entre muitas outras flores.


segunda-feira, 28 de agosto de 2017

A PROCURA DO POETA

Zildo Gallo


O poeta olha para a vida que se descortina
Com olhos de quem espera epopeias,
E o que ele vê são histórias bem pequenas,
De meros humanos nas labutas diárias
Das suas singelas histórias de vida.
Não são histórias de semideuses em lutas cósmicas,
São as histórias das pequenas batalhas de sempre.

O poeta sente-se sem enredos valorosos,
Abandonado pelas distantes e divinas musas.
Acredita que elas se recolheram no Olimpo
Ao lado de Zeus, todo poderoso pai,
E que o tempo heroico dos semideuses esfumou-se,
Que as suas memórias estão lacradas em algum baú,
Feito cartas velhas amareladas,
Num baú jogado num sótão mal-assombrado...

Só resta ao poeta a humildade de olhar
Para o mundo que se apresenta bem pequeno
E apequenar-se diante das suas histórias pequenas,
Para delas arrancar enredos simples, mas verdadeiros,
E, quem sabe, descobrir grandezas escondidas
Nos folguedos vivos das crianças
E nas memórias vivas dos velhos,
Os extremos do existir nesta vida...
Quiçá retornem as musas...

Mosaico com mais de 2.200 anos encontrado na antiga cidade grega de Zeugma, representando as Nove Musas da Ciência e das Artes da Mitologia Grega:


quinta-feira, 24 de agosto de 2017

A LUA E O MAR

Zildo Gallo


A Lua e o Mar dançam um tango
Ininterrupto desde priscas eras.
Seria uma valsa vienense mais comportada?
Ora uma ora outra dança, alguém diria.
E, nessa dança incansável e sem fim,
A vida se fez nas águas imensas
E sempre movediças do Mar sagrado,
Do imenso Mar salgado,
O líquido amniótico abundante
Do grande útero de Gaia,
A nossa Grande Mãe,
A nossa primeira mãe
Desde tempos imemoriais.
A Lua e o Mar continuarão a dançar
Por muitas e muitas eras...
Por muitas e muitas eras...
Até o fim dos tempos
Da longa vida da nossa mãe Gaia.


sexta-feira, 18 de agosto de 2017

MENINOS E MENINAS: Yang-Yin (poema chinês)

Zildo Gallo


Os meninos choram
As meninas choram também
Chorar é da vida
E rir da vida também é.

As meninas são fortes
Os meninos também são
A vida é a somatória das forças
Dos meninos e das meninas.

Os meninos são frágeis
As meninas também são
A vida tem toda a força
Do mais delicado cristal.

As meninas se apaixonam
Os meninos também
Paixões movem as vidas
E as montanhas.

Meninos e meninas
São iguais e diferentes
Yang e Yin
Sol e Lua
Força e delicadeza
Movimento e calma
Complementos necessários
Que se interpenetram
Almas interpenetradas
Uma dentro da outra
Na dança circular de toda vida.